Conexão - Jornal Opção - 22/11/2009
TERCEIRA VIA
Amor dissidente
Cúpulas partidárias anunciam a criação de Nova Frente, a tal 3ª via. Dissidências são muitas
O local não poderia representar mais em termos de força: Palácio das Esmeraldas. Os partidos, quatro, estão entre os maiores do País. Juntos, PP, PR, DEM e PSB elegeram nada menos que 158 deputados federais, o que garante logo de cara 30,8% do tempo de campanha eletrônica, no rádio e na TV. E, pra fechar, o anúncio veio embalado: Nova Frente.
Olhando as coisas desse jeito, parece que surgiu realmente mais uma força político-eleitoral de primeira grandeza para as eleições do ano que vem em Goiás. Mas falta o complemento principal, a cereja do bolo, a joia da coroa: candidato competitivo. Esse elemento principal de qualquer química eleitoral é decisivo. Até pela óbvia razão de que não se disputa eleição sozinho, sem adversários. E, no caso presente, há não apenas um fortíssimo adversário. São dois: o prefeito Iris Rezende (PMDB) e o senador Marconi Perillo (PSDB).
Esse é o grande problema da terceira via, seja esta agora, com explícito patrocínio do Palácio das Esmeraldas, seja qualquer outra. É difícil encontrar um nome que consiga unir todas as bases partidárias. Pode até haver, como há, o propósito, mas a ausência de um nome que reflita bem o contexto termina por invalidar todo o resto.
Qual é, por exemplo, a identificação de algum republicano de São Miguel do Araguaia com o deputado federal democrata Ronaldo Caiado? Nenhuma. Se houve entre eles alguma sintonia política não se estaria falando de um republicano, mas provavelmente de algum democrata de São Miguel. O oposto é verdadeiro se a comparação for feita com o deputado federal Sandro Mabel (PR) e algum democrata da base. Idem se substituir ambos pelo secretário da Fazenda Jorcelino Braga (PP). Agora, somente a título de compreensão real da dimensão desse desencontro, imagine-se colocar no lugar de Caiado, Mabel ou Braga o nome de Marconi Perillo.
Esse é o problema da terceira via e seu principal desafio até aqui: evitar dissidências nas bases. Por enquanto, a infidelidade é total. Até no pequeno PSB goiano a situação explodiu. Um dia depois do tal encontro no Palácio, onde estiveram Sandro Mabel, Ronaldo Caiado, Sérgio Caiado e o ex-deputado federal Barbosa Neto, presidente do PSB local, um dos grandes pensadores do partido, o ex-presidente da Aganp Jeovalter Correia deu declarações detonando a proposta. Imaginava-se que o ataque partiria da única deputada do partido em Goiás, Betinha Tejota, declaradamente ligada ao tucanato de origem nionista. Não foi preciso. Jeovalter foi fiel escudeiro de Barbosa até na frustrada tentativa de construção de proposta eleitoral alternativa em 2006. Portanto, ele sabe muito bem sobre o que está falando.
No DEM, a dissidência também é fortíssima e está totalmente implantada através da influência do chamado grupo de Goianésia, além da base estadual democrata na Assembleia Legislativa. Para ficar somente nos nomes mais evidentes, a terceira via não terá apoio de Vilmar Rocha, e dos deputados estaduais Nilo Rezende e Hélio de Sousa. E essa resistência é profunda, envolve até mesmo a eterna divisão interna do DEM, e resistiria inclusive ao lançamento da candidatura do próprio Caiado ao governo do Estado.
No PR, Sandro Mabel costuma dizer que tem o partido nas mãos, mas que o partido pratica democracia interna. Ele está coberto de razão quanto aos resultados, mas a democracia não é, evidentemente, um objetivo em si mesmo. O problema é que o PR sempre deu uma rasteira nos planos estratégicos de Mabel em todos os momentos decisivos. Foi assim, recentemente, quando ele e o grupo de Aparecida de Goiânia, liderado pelo vice-governador Ademir Menezes, tentaram colocar o PR goianiense como ficha do jogo político de Aparecida. Os republicanos de Goiânia deram uma banana geral para os dois e fecharam coligação com Iris Rezende.
Em 2006, Mabel fez tamanho barulho em favor da terceira via que acabou gerando protestos públicos de republicanos importantes, como Ademir Menezes. Na época, o hoje vice-governador dizia que se era para fazer oposição sistemática ao então governador Marconi Perillo não teria sido necessário que ele e seu grupo deixassem o DEM caiadista. Empurrado pela convenção, Mabel viu não somente o PR abandonar a proposta da terceira via como acabou aceitando o fato de um republicano ocupar a vaga de candidato a vice na chapa marconista. Na Assembleia, um dos deputados mais destacados da bancada do PR, Cláudio Meirelles, é um dos cabeças do grupo marconista, marcando sua posição o mais explicitamente possível não apenas na tribuna como também com artigos nos jornais.
Restaria então somente o PP. Mas com qual PP a terceira via poderia contar realmente? Aquele que disputa votos, se organiza a cada eleição e se expõe nas ruas é um PP programático e pragmático ao mesmo tempo, num raro exemplo de que é possível viver associado aos dois conceitos. Ainda assim, as divisões existentes são marcadas por efeitos localizados. Os dois deputados eleitos pelo PP, Ozair José e o licenciado secretário de Segurança Pública Ernesto Roller, apóiam a terceira via muito menos por ser esta uma alternativa.
A posição de Ozair é coerente com sua situação em Aparecida de Goiânia, sua base. Para combater o grupo de Aparecida, liderado por Ademir Menezes, aliou-se ao PMDB de Maguito Vilela. O PSDB entrou em rota de colisão com Ozair porque fez o caminho oposto, aliando-se ao grupo de Ademir. Nos sonhos eleitorais de Ozair, a terceira via deveria se aliar ao eixo PMDB-PT.
Ernesto Roller vive o drama de Formosa, onde o PP continua sendo inspirado pelo seu grande avalista histórico, o conselheiro do TCM Sebastião Caroço. Roller conquistou seu primeiro mandato graças ao seu padrinho, e foi reeleito com seus esforços pessoais. Ambos estão rachados, comenta-se em Formosa. Apesar de ter sido indicado para o TCM pelo governador Alcides Rodrigues e de estar alijado por causa da legislação do dia-a-dia da política, Caroço sempre foi general da tropa marconista.
Mas o maior exemplo da falta de ânimo com a terceira via dentro do PP é o deputado federal Roberto Balestra, um dos maiores colecionadores de mandatos eletivos consecutivos da história de Goiás. Ele, como líder da maior base municipalista do PP goiano, é um conciliador nato, mas não esconde sua preferência pela recomposição daquilo que um dia foi o Tempo Novo.
Poucos sabem, na verdade, porque Balestra é tão apaixonado por essa causa. Acontece que ele é um dos maiores responsáveis pelo big-bang que originou depois o tal Tempo Novo. Foi na campanha de 1996, e não 98 como muitos imaginam, que Balestra se colocou estrategicamente para viabilizar a primeira união de PSDB, PP, DEM e PTB em Goiás.
Nion Albernaz era o candidato do PSDB e líder em todas as pesquisas eleitorais. No DEM, debatia-se a possibilidade de Sandes Júnior também sair candidato a prefeito com o possível apoio do PP. Balestra, então, e de forma rápida, levou seu partido à coligação com o PSDB, e para isso chegou a mudar seu histórico domicílio eleitoral, de Inhumas para Goiânia, e se lançou como candidato a vice-prefeito. Imediatamente, o PTB também somou à coligação PSDB-PP. Isso matou a proposta do DEM de disputar a eleição com candidatura própria, e facilitou o entendimento geral pouco depois. Balestra retirou sua candidatura e o DEM indicou Maria Valadão como vice de Nion. A única dissidência foi a de Sandes Júnior, que aderiu à campanha do PMDB.
Quando Balestra defende a manutenção dessa aliança ele fala como quem se considera, com toda justiça, um criador dessa formatação entre esses partidos. Por isso ele e todos os prefeitos e vereadores que o acompanham dificilmente irão somar para a terceira via. Balestra é a própria essência da aliança que ele defende, e é injusto cobrar dele agora renúncia à própria obra.
Da forma como está, a terceira via é um convite aberto para amores dissidentes, daqueles que são vividos como paixões ocultas o máximo de tempo possível, mas que fatalmente explodem mais cedo ou mais tarde.
Escrito por Afonso Lopes às 01h20
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Matéria - Jornal Opção - 22/11/2009
PRÊMIO DE CONSOLAÇÃO?
Amigos (da onça?) dizem que Iris deveria disputar o Senado
Ele é o único que consegue rivalizar com o adversário Marconi Perillo, mas mesmo assim alguns defendem candidatura de Iris ao Senado
AFONSO LOPES
Há um movimento bastante sutil dentro do PMDB, e também fora dele, procurando criar um fato de difícil compreensão. Trata-se da afirmativa de que o prefeito Iris Rezende (PMDB) já conquistou tanto em sua vida pública que não precisa mais correr nenhum risco eleitoral para fechar a carreira com chave de ouro. O risco, no caso, seria enfrentar o senador Marconi Perillo (PSDB) nas eleições pelo governo do Estado no ano que vem. Conforme a legislação, Iris teria que deixar a Prefeitura de Goiânia no final de março, abrindo mão de dois anos e nove meses de mandato.
É claro que existem muitos que pensam assim totalmente desinteressados, mas há também um grupo que não trilha caminhos tão nobres. Essa tese, a de não candidatura do prefeito Iris Rezende, implica inúmeros efeitos colaterais. Em primeiro lugar, aqueles que hoje se abrigam na estrutura administrativa da Prefeitura ganham sobrevida de quase três anos. Depois tem o interesse dos que militam em favor da candidatura do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ao governo. Neste caso, também há dois grupos distintos.
Um deles quer Meirelles porque vê no banqueiro uma forma de obrigar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a dedicar alguns minutos a mais em suas preocupações com a eleição de Goiás. Afinal, certamente haverá efeitos negativos para o presidente em fim de mandato se um de seus mais destacados ministros levar uma surra na eleição. Em segundo lugar, entre os defensores da candidatura Meirelles estão os que imaginam que o banqueiro desembarcará na campanha com todos os cofres abarrotados de dinheiro. Nesse caso, até as migalhas de uma dinheirama dessas poderiam somar pequenas fortunas.
Dificuldade — No fundo, aqueles que de forma bem intencionada defendem que Iris fique na Prefeitura ou, no máximo, se candidate ao Senado, optam por duas alternativas extremamente complicadas. A primeira versão futura de uma desistência agora poderá atingir duramente a imagem de Iris. Será a de que ele abriu mão de algo que lhe seria natural em favor de um banqueiro. Ou então, a de que Iris, após conhecer o píncaro da glória pública, cair ao mais fundo abismo com as derrotas de 98 e 2002, e retornar de maneira triunfante com a conquista da reeleição com 75% dos votos válidos, “amarelou” diante de Marconi Perillo.
O que ocorre é que a candidatura de Iris já avançou demais e ultrapassou todos os pontos em que ainda era possível recuar. Tornou-se um caminho sem retorno. Claro que, em se tratando de posição política, sempre é possível encontrar alguma maneira de mudar a direção, mas certamente não será com os argumentos que são conhecidos atualmente.
O que se poderia afirmar positivamente para Iris abandonar a disputa pelo governo do Estado? Que Goiânia o quer como prefeito? Claro que quer, mas isso está muito claro desde o fechamento das urnas eletrônicas de 2008. Que ele finalmente percebeu que Meirelles seria um candidato mais competitivo? Tudo bem, mas seria importante avisar então que o povo que hoje indica intenção de voto para Iris está errado. O placar de apoio entre Iris e Meirelles tem uma relação que elimina qualquer dúvida: 40% a 4%, em média, dependendo da simulação feita pelos institutos de opinião.
De qualquer forma, pode ser que a proposta de Iris Rezende tentar mandato de senador seja levada à frente. Trata-se, na verdade, de um risco eleitoral muito maior do que a disputa pelo Palácio das Esmeraldas, e não um prêmio de consolação, a tal chave de ouro de encerramento da carreira. A briga pelo Senado colocaria Iris Rezende na vala comum e não como protagonista da batalha principal. Como prêmio, não consolaria ninguém. Até porque ele terá que vencer as eleições. O processo não se dá por nomeação, vale lembrar.
Aqui caberia uma pergunta vital: Iris correria mais riscos disputando o Senado do que o governo? Aparentemente, não. Na prática, sim, os riscos seriam muito maiores.
O maior problema que se imagina para Iris Rezende na disputa pelo Palácio das Esmeraldas é a força do seu adversário, o senador Marconi Perillo, e seu fôlego excepcional para manter uma campanha eletrizada 24 horas por dia. A observação é exata, corretíssima. Marconi é mesmo forte eleitoralmente e retira oxigênio da atividade política.
O problema é que na disputa para o Senado já estão dois adversários que merecem respeito e que igualmente derrotaram Iris, os atuais senadores Demóstenes Torres e Lúcia Vânia. Até hoje, em toda a história, somente três políticos conseguiram superar o prefeito Iris: Marconi, em 98, Lúcia e Demóstenes, em 2002.
Analisando as eleições de 2002, quando os três disputaram duas vagas para o Senado, fica difícil analisar as razões de Iris ter sido superado por Lúcia e por Demóstenes. Eram favas absolutamente contadas. Iris dominou as pesquisas com índices superiores a 40% durante toda a campanha. Então, levando-se em conta que a disputa pelo Senado rende menos barulho que a guerra pelo Palácio, por que Iris perdeu na reta final?
Só há uma explicação: o segundo voto. Individualmente, com toda a certeza (embora isso não tenha como ser comprovado), Iris foi o mais bem votado daquela eleição. Bateu Demóstenes e Lúcia. O problema dele é que o eleitor votou em dois senadores. Nele e em Lúcia ou Demóstenes. Somando-se todos os “segundos” votos, a conta ficou desequilibrada contra Iris Rezende. Iris era a primeira opção do eleitor, e quase nunca a segunda. Lúcia e Demóstenes planaram bem nas duas opções.
Essa questão dos dois votos para o Senado Federal não derrotou somente Iris Rezende. Também em 2002, após dois mandatos com forte apoio popular, Dante de Oliveira (falecido ex-governador do Mato Grosso) partiu para uma disputa tranquila por uma das duas vagas de senador. Terminou como Iris, na terceira posição.
Essas características diferentes da disputa pelo Senado geralmente não são levadas em conta. Mas basta reparar que nunca os favoritos perdem quando há somente uma vaga em disputa para constatar que são eleições diferenciadas. Com duas opções, não basta ser o melhor e mais popular, é necessário também ser o segundo melhor.
A realidade é que Iris realmente não tem mais nada a provar como líder destacadíssimo na política de Goiás. O Senado, então, e nessas condições, não deve ser apontado como prêmio. Pode ser sim uma opção de Iris, mas deve ser apenas isso, uma opção dele e não dos grupos interessados. Ele conquistou esse direito, o de optar. Quanto aos riscos, talvez a vida seria monótona demais se eles não existissem. Principalmente para as grandes e históricas legendas políticas. Como essas que já estão perfiladas para 2010, Iris e Marconi.
Escrito por Afonso Lopes às 01h17
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Matéria - Jornal Opção - 15/11/2009
PROPORCIONAL
A guerra invisível
Sem atrair as mesmas atenções da disputa pelo Palácio das Esmeraldas, é intensa a movimentação por vaga na Câmara dos Deputados
AFONSO LOPES
É inegável que a disputa pelo Palácio das Esmeraldas, com tudo girando entre os dois maiores líderes políticos do Estado, o senador Marconi Perillo (PSDB) e o prefeito Iris Rezende (PMDB), praticamente monopoliza as atenções. Mas ao contrário do que parece à flor d’água desse rio, um autêntico redemoinho revolta as suas profundezas. A disputa pelas 17 vagas para a Câmara dos Deputados é talvez até mais intensa do que a guerra principal, pelo Palácio. Todos os partidos articulam em tempo integral, e não há como impedir, inclusive, que as chapas proporcionais (deputados estaduais e, principalmente, federais) exerçam, no momento oportuno, pressão sobre as composições e alianças entre os partidos.
De certa forma, essa pressão já existe. O que ocorre é que sempre há uma relação íntima entre a disputa pelo legislativo e as chapas majoritárias, governo e ao Senado. Em outras palavras, é mais conveniente ter um bom candidato ao governo para pedir votos para a Câmara ou Assembleia. Além, é claro, do quociente eleitoral.
Nenhum candidato a deputado, por mais competitivo que seja, fica absolutamente tranquilo e confiante no próprio desempenho se o seu partido não conseguir se situar bem dentro do processo político-eleitoral. Ter uma votação extraordinária pode não significar nada se a soma do conjunto fizer pouco em relação ao conjunto dos adversários. Eleições proporcionais, como a própria denominação indica, são somas de esforços e não unicamente resultado de desempenho pessoal.
Exemplos de candidatos extremamente bem votados e que ficaram do lado de fora do Congresso Nacional não faltam. Desde sempre. Até um ex-governador do Estado acabou vitimado pelo tal quociente. Ary Valadão, o último dos inquilinos do Palácio das Esmeraldas eleitos indiretamente, comandou um governo consistente e altamente realizador (1979/março de 1983). Posteriormente, foi candidato a deputado federal, em 86, e somou nada menos que 50 mil votos, votação muito expressiva ainda nos dias atuais apesar do substancial aumento no número de eleitores. Foi o quinto mais votado e mesmo assim não se elegeu. Faltou quociente eleitoral.
Nas eleições mais recentes, de 2006, outro caso de penalização por falta de quociente eleitoral marcou o processo político. O DEM partiu isolado para a disputa com dois excelentes papa-votos. Somente um deles, Ronaldo Caiado, conseguiu se eleger. Vilmar Rocha, que somou 75 mil votos, ficou na suplência.
Essa, portanto, é uma grande preocupação entre os candidatos a deputado federal. Em todos os partidos, especialmente entre aqueles que ainda não se definiram por uma direção, candidatos discutem muito sobre os rumos que seus partidos vão tomar. Até pela óbvia razão de que em 2010 o eleitor goiano terá excelentes nomes para escolher apenas um.
PP — O principal candidato é o campeão de mandatos na Câmara dos Deputados atual, Roberto Balestra, que está em Brasília desde 1986, ano de sua estreia. No mundo político, é aposta certa para continuar como deputado federal. Deve, inclusive, ampliar sua votação.
O secretário de Segurança Pública e deputado estadual licenciado Ernesto Roller é outro que está muito bem cotado no mundo político. Com dois mandatos estaduais, Roller vai agora tentar mandato federal. Antes, tinha apoio de um padrinho bastante poderoso, o ex-prefeito de Formosa e atual Conselheiro do TCM Sebastião Caroço. Terá que se virar sozinho desta vez.
O deputado estadual Ozair José também pretende trocar de tribuna, desembarcando em Brasília a partir de 2011. Sua principal base é Aparecida de Goiânia, segundo maior colégio eleitoral do Estado. Enfrentará forte resistência do chamado grupo de Aparecida, liderado pelo vice-governador Ademir Menezes (PR) e pelo deputado federal Sandro Mabel (PR). O grupo também terá candidato. Ozair dependerá do prestígio do prefeito Maguito Vilela (PMDB).
O PP do governador Alcides Rodrigues ainda tem outros três bons nomes para a Câmara dos Deputados. O mais destacado deles é o atual secretário de Infraestrutura, ex-deputado Sérgio Caiado, que acumula a presidência do PP. O também secretário estadual, de Agricultura, Leonardo Veloso, tem consistência, mas sua principal base, Rio Verde, está dividida. Ele pode até recuar de sua pretensão, mas o jogo ainda não terminou. Já Sandes Júnior, atual deputado federal, tentará sobreviver no meio desse turbilhão.
PMDB — A deputada federal Iris de Araújo, que exerce provisoriamente a presidência nacional do PMDB e acumula o cargo simbólico de primeira-dama de Goiânia, saiu das urnas de 2006 como primeira deputada de Goiás votada por mais de 200 mil goianos em uma única eleição. Nada indica que tenha perdido eleitores, ao contrário. Tem todas as condições para bater novo recorde em 2010.
Pedro Chaves, que já acumula mandatos federais, tem atuação discreta na grande caixa de ressonância que é a Capital, mas soma votos no Nordeste, onde reina absoluto, e sempre consegue boa penetração em outras bases, como a importante cidade de Morrinhos, no sul. É aposta tranquila do PMDB.
Os demais nomes do partido vão para uma briga de foice, sem quartéis. Os federais Marcelo Melo e Luiz Bittencourt têm problemas. Marcelo depende de Luziânia e do Entorno do DF. Poderá ser sufocado pela presença muito forte dos aliados de Marconi Perillo na região. Bittencourt coleciona mandatos bem situados, mas andou perdendo algumas bases importantes. Tem experiência, porém, para se recuperar e surpreender os céticos.
Dois novos nomes entre os federais, que figuram entre os deputados estaduais, prometem muito barulho. José Nelto é o mais antigo detentor de mandatos na Assembleia Legislativa e é referência do PMDB na Casa. Não costuma dividir bola perigosa, mas tem falado que vai parar se não se sentir seguro na disputa federal. Na realidade, ninguém sabe ao certo o que ele irá fazer.
Thiago Peixoto, herdeiro de boa estirpe política, neto de Peixoto da Silveira e filho de Flávio Peixoto, é o grande nome da nova geração do PMDB.
PSDB — O ninho tucano parece que finalmente encontrou dois nomes em condições de brigar pelo título de campeão de votos. O atual federal Leonardo Vilela, que acumula a presidência regional do PSDB, tem crescido a cada eleição. O mais novo tucano, que se filiou avisando que retornava ao convívio de amigos históricos, como o ex-prefeito Nion Albernaz, Valdivino de Oliveira, mago das finanças dos governos do DF, chega com muita força. Ele pode, inclusive, ser o grande rival de Iris Araújo como campeão de votos. Fortíssimo, o que deve ajudar, inclusive, no fortalecimento do quociente eleitoral do PSDB.
João Campos tem boa estrutura no setor evangélico (é pastor) e também entre os funcionários civis da Secretaria de Segurança Pública. Seria muito interessante para ele se aproximar também dos militares, mas não conseguiu quebrar essa barreira. Pode ter problemas sérios se o deputado estadual Fábio Sousa ou o apóstolo César Augusto disputarem mandato federal.
Entre os demais federais do PSDB, percebe-se que Raquel Teixeira vive franca decadência eleitoral. Se conseguir se candidatar, será uma surpresa se mantiver o mandato. Por outro lado, é certo que Marconi Perillo continuará prestigiando candidatos de sua cozinha. Ou seja, tem mais um que será eleito no PSDB.
Demais partidos — Fora desses grandes eixos partidários, o DEM se apresenta, mais uma vez, com dois nomes extremamente consistentes: Ronaldo Caiado e Vilmar Rocha. Se o partido não for para mais uma aventura solteira como em 2006, provavelmente vai carimbar mandato para ambos.
No PR, Sandro Mabel é aposta tranquila e sem problemas. Estará entre os mais bem votados de Goiás mais uma vez. A grande dúvida é o vice-governador Ademir Menezes. Se confirmar candidatura para federal, poderá enfrentar Ozair José, que terá o apoio do prefeito Maguito Vilela. Isso significa que ele terá que conquistar votos também fora do seu principal reduto para não correr riscos. Se não disputar a eleição de 2010, se preservando para a sucessão de Maguito, em 2012, seu substituto será Chico Abreu. É fraco. Depende do potencial do grupo de Aparecida.
O PT deverá repetir a atual bancada, com Rubens Otoni à frente de Pedro Wilson. Caso Otoni se abrigue na chapa majoritária em parceria com o PMDB de Iris Rezende, seu substituto será o deputado estadual Humberto Aidar. Jovem, com facilidade de discurso, Aidar dividirá a principal base de atuação de Pedro Wilson, a militância católica. Sinal de alerta para ambos, embora Aidar tenha como compensação a boa herança de Rubens Otoni.
Escrito por Afonso Lopes às 11h36
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PROPORCIONAL - final
Finalmente, no PTB, não há muito sobre o que falar. Jovair Arantes, um dos políticos de Goiás com maior devoção às bases municipais, vai para novo mandato. Provavelmente, ficará entre a elite dos eleitos.
Essas avaliações, porém, passam necessariamente pelas alianças partidárias. Como se viu em 2006, quando o DEM colocou seus dois nomes entre os mais bem votados, mas só levou um deles para Brasília, o quociente eleitoral é o fantasma que assusta permanentemente todos os candidatos. Muitas vezes, por faltar uma pequena porção de votos, perde-se uma montanha de grandes esforços eleitorais. Esse é o grande perigo nesse jogo federal.
Escrito por Afonso Lopes às 11h35
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Conexão - Jornal Opção - 15/11/2009
PMDB/PSDB
O ponto fraco das fortalezas
Como castelos políticos fortemente posicionados, os dois maiores exércitos eleitorais de Goiás também têm alguns pontos fragilizados. Ainda assim, a pior opção será ficar no meio
Não há nada tão formidável quanto a extraordinária capacidade político-eleitoral do PMDB e do PSDB em Goiás. Os dois partidos somam o que seria uma força, se aliada, absolutamente improvável de ser batida nas próximas eleições, a não ser por alguma absurda brincadeira do eleitor sob inspiração de algum “macaco Tião” (em 1988, no Rio, um macaco foi o terceiro mais bem votado para vereador. Logicamente, como não era candidato, os votos dados a ele foram considerados nulos). Aliás, se PMDB e PSDB formassem uma aliança real em 2010, com um apoiando os candidatos do outro e ambos pedindo votos em cima de um mesmo palanque é bem possível que o eleitorado criasse uma macacada. Os dois partidos são radicalmente antagônicos.
Isso leva ao fato de que, desunidos para sempre (e “para sempre” aqui significa somente até a próxima eleição), cada exército ficará de um lado da trincheira eleitoral. Nem por isso serão exércitos pequenos ou frágeis. Ainda que com alguns pontos fracos, PMDB e PSDB devem protagonizar a mais angustiante, emocionante e calorosa disputa eleitoral da história de Goiás em que, como nos grandes clássicos, detalhes irão se transformar em fatos decisivos.
O PMDB deverá escalar seu melhor general eleitoral, o prefeito Iris Rezende Machado. Mesmo com algumas arestas internas, Iris é um ícone que se situa, por tudo aquilo que ele representa historicamente e detém eleitoralmente, muito acima dessas disputas. Sua capilaridade eleitoral é espantosa e perdura ao longo dos anos.
Ele começou como um jovem interiorano, que disputou vaga de vereador em Goiânia, nos anos 1950, em cima de carroças. Ele não era um carroceiro. Era o líder deles. Na reta final da campanha, promoveu uma carroçada, versão primitiva e histórica das atuais carreatas. Essa inovação lhe rendeu a maior votação de 1958. Sua vitória assustou a elite política da época.
Poderia ter sido um dos muitos que começaram carreiras um tanto folclóricas e se tornaram meros farrapos das lembranças logo depois. Poderia, mas não foi. Ao contrário, Iris assumiu a Presidência da Câmara e, quatro anos depois dessa estreia espetaculosa, se tornou deputado estadual. Novamente foi o mais bem votado. Em três anos, 1965, foi eleito prefeito de Goiânia.
Sua carreira meteórica foi brutalmente interrompida durante o regime militar. Cassado, retornou somente em 1982, como candidato a governador. Venceu com larga margem, impondo ao antigo regime uma derrota inesquecível. Em 1986, já ministro da Agricultura, foi decisivo na campanha pelo interior do Estado em favor de Henrique Santillo, que enfrentava a própria história viva do PMDB, o ex-governador Mauro Borges. Em 90, rompido com Santillo, voltou ao Palácio das Esmeraldas. Em 94, na sua sucessão, levou Maguito Vilela ao governo e carregou junto Mauro Miranda para o Senado. E, então, chegou 1998...
Numa fortaleza absolutamente segura, reforçada ao longo de 16 anos, Iris foi um candidato a governador muito mais preocupado com as disputas dentro de sua corte. Esqueceu-se de ir às ruas, de onde sempre brotou seu poder político. Perdeu para um exército mambembe, levemente organizado, que teve à frente um ótimo símbolo que disfarçou tamanha fragilidade, o jovem Marconi Perillo.
Marconi era o oposto dos mambembes. Em seu partido, o PSDB, a maior liderança era o prefeito Nion Albernaz, um mestre político, sem qualquer dúvida, mas remanescente dos tempos de Iris. No PFL, atual DEM, havia a figura destacada de Ronaldo Caiado, mas com limitações geográficas do poder que seu partido reunia somando as forças do chamado grupo Otávio Lage, de Goianésia. No PTB, havia o então deputado federal Pedrinho Abrão. Por último, o atual PP com suas lideranças dispersas, como Roberto Balestra e Paulo Roberto Cunha, as grandes estrelas do partido naquela época.
Não há nenhuma dúvida quanto à fragilidade desse grupo diante do poderoso exército irista. Mas, pela primeira vez em sua vida, Iris não foi o mais votado da eleição. Pior do que isso, e até por consequência, foi derrotado.
No Palácio das Esmeraldas, Marconi Perillo reforçou as posições mambembes de seu grupo, azeitando uma máquina eleitoral fortíssima. Em 2002, na tentativa de revanche do PMDB, usou toda a sua popularidade para impor nova e acachapante derrota aos iristas, deixando Maguito Vilela do lado de fora de um 2º turno que nem foi necessário.
Em 2006, e mais uma vez à frente de um exército, desta vez muito mais poderoso do que o combalido PMDB, Marconi conduziu suas forças eleitorais para uma virada que mais uma vez impressionou pela rapidez com que foi conquistada, já na reta final da campanha, como ocorreu em 1998. Ao mesmo tempo em que abriu o caminho de seu aliado Alcides Rodrigues para o Palácio, conquistou mais de 2 milhões de votos, sendo o primeiro e único político de Goiás até hoje a receber votação tão expressiva.
Iris Rezende, após 98, quando perdeu a disputa pelo governo, e depois de 2002, quando terminou em 3º na luta por uma das duas vagas para o Senado, deveria ter sido aposentado pelo esquecimento do eleitor. Mas ele se negou a cumprir o ritual dos comuns. Candidatou-se em 2004 e, mesmo com forças políticas desanimadas, se elegeu prefeito de Goiânia. Em 2008, consagrou-se nas urnas com cerca de 75% dos votos.
São esses dois potentados políticos que vão se enfrentar agora em 2010. E não será uma disputa como qualquer outra que já se viu no Estado. Frente a frente, serão as duas fortalezas inexpugnáveis da política de Goiás.
Isso não equivale a dizer que não existem pontos fragilizados. O PMDB, por exemplo, até agora conta com apenas sua própria militância para conquistar votos no interior do Estado. A força do PT se concentra em Goiânia e em Anápolis. E só. Daí em diante, e no vastíssimo território goiano, o poder eleitoral do PT é um deserto com um ou outro pequeno oásis. Esse é um problema.
O PSDB também só conta com ele próprio na guerra do interior, mas o partido, que se soma ao PTB e suas ilhas municipais, e ao PPS, partido de quadros e não de massa, tem em Marconi Perillo a sua grande diferença no interior. Esse, por enquanto, é o grande reduto eleitoral de maioria marconista.
Marconi também tem problemas no tempo disponível para a campanha eletrônica, no rádio e na televisão. Até agora, ele soma pouco mais de 21,5% desse importante espaço. É o suficiente para basear uma boa campanha, mas não há qualquer excesso. Iris já tem, somente com PMDB e PT, 33,5%. É bem melhor, mas a diferença nos percentuais revela-se pequeno quando na prática dos minutos. Esses 13,5% favoráveis a Iris representam somente 40 segundos a mais a cada 5 minutos. Essa diferença Marconi poderá igualar no chão da campanha.
Ambos enfrentam dissidências em seus exércitos. Iris, além da ala sempre vermelha do PT, tem grupos descontentes no próprio PMDB. Marconi ainda não conseguiu reaproximar os antigos aliados. Os dois também terão os desgastes de suas administrações, embora obviamente faturem muito mais com os seus bônus. O grande patrimônio eleitoral de Iris serão suas obras. O de Marconi, sua dedicação aos servidores públicos e às redes de assistência e inclusão social.
Pelo que se vê, ambos são extremamente fortes mesmo quando analisados do ponto de vista de suas fraquezas. Isso significa que o maior perigo não será a opção por um ou por lado. Mas ficar no meio, e ser absolutamente esmagado.
Escrito por Afonso Lopes às 11h31
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Coluna Imprensa - 07/11/2009
Nota da coluna Imprensa, assinada por ninguém menos que Euler de França Belém. Tuiteiro do balacobaco
Afonso Lopes é o jornalista mais polivalente de Goiás. No jornalismo impresso, é Garrincha. Na apresentação de programas de televisão, é Pelé. No rádio, é Diego Tardelli. Agora, manda ver no Twitter, com a mestria de sempre. É o Messi do Twitter.
Recebo vários e-mails comentando as notas, pequenos editoriais, publicados por Afonso no Twitter. Eu era menino (sou mais novo cerca de 12 anos. Será?! Fiquei surpreso ao saber que o colega e amigo tem apenas 50 anos. Deve ter sido registrado cinco anos depois de ter nascido. Na cidade onde nasceu, em Minas Gerais, não havia cartório) e já acompanhava Afonso nos programas televisuais. Sempre animado e versátil. PS 1 - Por favor, não veja como cabotinismo. É que receber elogios como esses de um jornalista como Euler Belém é como ganhar um troféu que só pode ser exibido no principal lugar de destaque da sala. PS 2 - Não tenho 50 anos. Ainda. Espero ultrapassar essa marca com muita margem, mas ainda estou com 49 anos. Exatamente a mesma idade do Euler, com diferença de alguns dias.
Escrito por Afonso Lopes às 00h02
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Conexão - Jornal Opção - 07/11/2009
O Twitter como arma
A rede social que alavancou a candidatura do presidente Barack Obama começa a ser utilizada em Goiás
Perto do nosso calendário eleitoral, as eleições americanas duram uma eternidade oficialmente. Primeiro os partidos correm Estado por Estado para definir as candidaturas. Depois, começa mais uma campanha, também aberta e acessível a todo o eleitorado e, aí sim, pra conquistar os votos necessários para a Presidência. Somando tudo, é mais de um ano de intensa campanha nas ruas, nos jornais e TVs.
Por aqui, é tudo muito mais complicado. A legislação anda cada vez mais restritiva e a lista do que não pode ser feito para conquistar votos vem crescendo ao longo dos anos. Os grandes comícios anabolizados por shows de cantores famosos estão fora. Aliás, não pode ter show nem com cantores famosos, nem com cantores anônimos. Nada. Aliás, como a legislação se estende aos shows, não interessa a natureza. Teatro de bonecos? Não pode. Teatro sem boneco? Também não. Circo? Necas. Rodeio de peão, vaquejadas... Tudo isso está fora da lei eleitoral. Lembrando ainda que distribuição de camisetas, bonés, canetas e demais badulaques também é proibida.
Fazendo as contas na ponta da caneta, a relação do que não pode ser utilizado numa campanha eleitoral no Brasil é muito maior do que a lista dos autorizados. Este ano, uma nova arma está livre, pelo menos por enquanto: a internet. Mesmo assim, com algumas restrições. Por exemplo, sites de empresas não poderão publicar anúncios pagos de nenhum candidato. A tentação por estender a proibição para muitos outros setores da internet foi grande. Uma das propostas era restringir seu uso ao período em que as campanhas podem ir para as ruas, em junho do ano que vem, após as convenções partidárias, e mesmo assim em páginas oficiais dos candidatos.
Esse conjunto com tantas regras nas eleições está, aos poucos, matando as campanhas. Antes, por exemplo, o período destinado ao chamado palanque eletrônico, no rádio e na TV, será de 60 dias. Na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) caiu para 45 dias. Já teve gente defendendo somente um mês. Além de menos tempo, o conteúdo também ficou sob vigilância. Computações gráficas não podem ser utilizadas nas chamadas pílulas, propagandas curtas e avulsas inseridas nas programações das emissoras ao longo do dia.
Quanto menos campanha, melhor para os velhos rostos conhecidos da política, que, quando bem avaliados, basta promover um bom recall para manterem seus postos eletivos. Isso vai do presidente da República aos vereadores, passando pelos senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais e prefeitos. Aos novatos, resta bancar campanhas muito mais caras, de tiro rápido.
Como nos Estados Unidos a vida política é muito diferente, as campanhas lá atravessam os meses incendiando as opiniões. E nisso passou a valer cada vez mais a criatividade. Não é por outro motivo que quase todos os modelos criados por lá acabam chegando por aqui. O mais recente deles é a rede social da internet Twitter, a que mais cresce em todo mundo, inclusive no Brasil.
Apesar de o site ser em inglês ou japonês (opção do usuário) qualquer brasileiro minimamente familiarizado com internet não encontra muitos problemas. O primeiro passo é abrir o navegador de internet (Internet Explorer e Firefox são os mais usados). Depois, digitar no campo apropriado (no alto da página) o endereço http://twitter.com. Na página inicial do Twitter, a inscrição (gratuita) é iniciada clicando o campo sign up now. Se preferir, o internauta nem precisa fazer essa inscrição para acompanhar o que algum tuiteiro, político, celebridade ou demais mortais anda escrevendo. A única exigência que existe para a inscrição no Twitter é ter um e-mail válido — que é por onde se aciona o mecanismo de validação. Cumpridas essas rapidíssimas etapas, qualquer pessoa está pronta para entrar na tal rede social que se tornou a grande febre da internet no mundo todo e que foi considerada como peça fundamental para a vitoriosa campanha de Barack Obama nos Estados Unidos.
Dentro do Twitter não há qualquer complicação, a não ser o fato de ter que expressar tudo o que quer em apenas 140 caracteres. A frase que você acabou de ler, por exemplo, tem 125 caracteres. Está quase no limite. Mas é também por esse motivo que essa rede social é o que é. Nada de textos longos e enfadonhos. É tudo curto, rápido e denso.
Todos os usuários podem escolher a quem irão seguir (following). Barack Obama (sim, ele continua no Twitter. Na sexta-feira à tarde, mais de 2 milhões e meio de pessoas acompanhavam tudo o que ele escrevia. Em média, o presidente dos Estados Unidos publica três ou quatro mensagens diariamente). José Serra e Aécio Neves (ambos PSDB), inúmeros deputados e prefeitos, podem ser encontrados no Twitter. Os goianos também estão lá.
O político de Goiás com maior número de leitores é o senador Demóstenes Torres (DEM), com mais de 4 mil seguidores. Em segundo lugar, já aparece o senador Marconi Perillo (PSDB), com 3 mil, depois que ele ultrapassou, na sexta-feira, 6, pela manhã o então vice-campeão, deputado Ronaldo Caiado (DEM), que caiu, portanto, para a terceira posição. Podem ser encontrados no Twitter inúmeros deputados estaduais — os mais ativos deles são Thiago Peixoto (PMDB) e Jardel Sebba (PSDB) — e federais, como Rubens Otoni (PT), além de Ronaldo Caiado.
A importância do Twitter já foi demonstrada na prática. No início da semana, o prefeito Iris Rezende (PMDB) concedeu entrevista ao jornal “O Popular” e pontuou críticas endereçadas ao rival Marconi Perillo. A resposta do tucano se deu exatamente pelo Twitter, e dominou o noticiário político nos jornais do dia seguinte.
O perfil (ou página) do prefeito Iris Rezende já está reservado, mas ainda não tem postagens (mensagens). Entre os declaradamente pré-candidatos, estão Marconi, Caiado, Otoni e Sandro Mabel, do PR, (este quase sem atuação). Para Barack Obama, o Twitter foi a melhor arma para conquistar a vaga de candidato pelo partido Democrata e, depois, para colocar fim à era Bush na Casa Branca.
Faltando ainda um ano para as eleições, e com tantas restrições às campanhas de ruas, a importância dessa rede social nas eleições tem tudo para se tornar cada vez maior, podendo ser o fator extra, a arma decisiva para a conquista do Palácio das Esmeraldas.
PS — O tema “Twitter como arma política” foi sugerido por seguidores de @a_fonso, meu perfil na grande rede, através de uma pesquisa instantânea. A interatividade é o grande show do Twitter.
Escrito por Afonso Lopes às 23h18
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Matéria - Jornal Opção - 07/11/2009
TERCEIRA VIA
Mas cadê o articulador?
Quem quer apoiar Marconi Perillo ou Iris Rezende sabe a quem procurar. E na 3ª via, falar com quem?
AFONSO LOPES
Os defensores de uma terceira linhagem eleitoral em Goiás para as próximas eleições, seja com interesse real de se contrapor à polarização Marconi Perillo/Iris Rezende Machado, seja o de melhorar as condições para qualquer composição futura com um desses dois eixos conflitados, garantem que a proposta é viável e não uma mera intenção aventureira. Pode até ser que a coisa engrene, mas até agora não há como botar muita fé nesse projeto. Fora os nomes que pululam entre lideranças expressivas, falta a figura do articulador, fundamental para a construção de um grupo realmente importante, expressivo e sedimentado. Em outras palavras, não há com quem dialogar e criar parceria nessa tal de terceira alternativa.
Teoricamente, o papel deveria ser desempenhado pelo governador Alcides Rodrigues, muito embora seja ele o único cidadão de Goiás que não poderá disputar o governo entre todos aqueles que se encontram habilitados legalmente para concorrer. Alcides, se quiser, terá que se contentar com outro cargo por força da legislação, que impede mais uma re-eleição ao cargo. Ainda assim, pela força do Palácio e pelo porte da caneta, a 3ª via poderia passar por ele. Mas as portas do Palácio são fechadas logo após o expediente, impedindo as boas conversas de articulação política.
Silêncio — Se não há qualquer movimentação no Palácio pela implantação real da 3ª via, do lado de fora a coisa só anda mesmo no campo das intenções. Cada possível partido integrante do que seria essa alternativa tem um comando isolado e que não está conseguindo avançar em nenhum ponto no sentido de montar a estrutura de apoio para esse objetivo. O problema aqui é muito mais de total falta de autoridade para estabelecer os critérios políticos para a elaboração de uma aliança como essa.
Não que o deputado federal Ronaldo Caiado, presidente regional do Democratas, ou o deputado federal Sandro Mabel, presidente do PR goiano, ambos líderes de bancadas na Câmara dos Deputados, em Brasília, não reúnam condições, estofo e liderança suficientes para centralizar esse tipo de articulação. O problema aqui é que não há sequer critérios para que isso seja feito. Assim, Caiado pode falar somente em nome e na defesa exclusiva dos interesses políticos/eleitorais do DEM, enquanto Mabel faz exatamente o mesmo pelo PR.
O que se percebe debruçando-se sobre a proposta de 3ª via é exatamente a falta de um objetivo real. Existem perguntas nesse caso que devem ser respondidas naturalmente para embalar o pacote. Como o porquê da criação de mais um eixo político-eleitoral. Esse negócio de dizer que é simplesmente para se contrapor à polarização entre Iris e Marconi não funciona. Além disso, também não há qualquer tipo de indicação sobre quem deverá representar essa aliança diante do eleitorado.
Essa questão de nomes para dar uma cara à 3ª via parece ser algo menos importante diante da causa como um todo. Não é. Ora, quem irá se definir por uma coisa como essa antes mesmo de saber para quem terá que pedir votos? Principalmente ao se perceber que o Palácio não tem nenhum grande articulador político neste momento. O único que havia nesse deserto era o deputado federal Roberto Balestra, que voltou para Brasília depois de ter sido repreendido publicamente pelo governador Alcides Rodrigues por defender a causa da união da base aliada histórica.
A soma de todos esses fatores é esse aí que está se vendo: muito falatório, muitas intenções, nenhuma concretização. A 3ª via não saiu do estágio pré-inicial. Enquanto isso, nas outras duas trincheiras políticas já estabelecidas, todo mundo sabe a quem procurar para acertar os ponteiros do relógio eleitoral. Numa delas está Iris Rezende. Na outra, Marconi Perillo.
Cabe aqui abordar a questão palaciana. Por que o governador Alcides Rodrigues não está no comando das articulações políticas da 3ª via? Existem dois aspectos que pesam nessa questão. Primeiro é de cunho pessoal. Alcides nunca foi um político de articulação. Ao contrário, ele apenas procurou sempre se colocar numa posição correta. Foi assim, por exemplo, que se tornou candidato a vice-governador em 1998. Em 2002, quando foi ameaçado dentro do próprio PP, manteve-se exatamente na mesma posição e conseguiu permanecer na posição. Não se tem qualquer notícia de que tenha articulado no PP ou fora dele para continuar vice. Em 2006, ao herdar a condição de candidato do chamado Tempo Novo, ele mais uma vez não se esforçou na articulação. Bastou não ter qualquer aresta para aparar, ao contrário, por exemplo, do deputado federal Leonardo Vilela, que trocou o PP pelo PSDB durante seu primeiro mandato, entre 2003 e 2006, gerando desconforto entre lideranças pepistas.
O segundo aspecto na ausência de Alcides nas articulações políticas da 3ª via é consequência da prática administrativa. Governos sem altíssimas doses energéticas de popularidade não são muito inclinados a coordenarem processos sucessórios. Por uma motivação básica: não há boa perspectiva de poder. A história recente de Goiás mostra um caso exemplar de situação como essa.
Em 1990, apesar de ser considerado um ótimo articulador e um político com inteiro domínio dos bastidores, o então governador Henrique Santillo (1987/1990, falecido em 2002) não conseguiu nem mesmo chegar às convenções do seu partido, o PMDB, com um candidato minimamente estabelecido. Seu governo, absorvido por dificuldades administrativas, era majoritariamente reprovado pela população. O resultado é que, em determinado momento, nem mesmo a oposição se encantava com seu apoio. Somente na reta final é que Paulo Roberto Cunha, um fenômeno que surgia no Sudoeste do Estado, saindo da iniciativa privada e conquistando dois mandatos em apenas quatro anos (deputado federal Constituinte em 1986 e prefeito de Rio Verde em 1988), aceitou certa aproximação com Santillo, mas sem muito alarde junto ao eleitorado.
Os episódios que marcaram as eleições de 1990 apresentam muitas correlações com o quadro atual. Pelo menos no que se refere ao espaço político do Palácio. É um espaço muito pequeno, apertadíssimo pela falta de perspectiva de poder e diante de dois adversários de liderança inquestionável. A questão, portanto, também passa pelo fato de que está se tentando construir uma alternativa contra dois possíveis candidatos extremamente fortes, consolidados e com excelentes perspectivas, que se rivalizam em cada conceito político e em todos os aspectos eleitorais. Em outras palavras, a 3ª via não deslancha também por estar sendo construída com os alicerces afundados num pântano diante de dois arranha-céus vistosos, admirados e muito bem fincados em terreno fértil. Aí, realmente, nada é fácil.
Tudo isso, claro, não é estático politicamente. É lógico que até o final de junho do ano que vem, último prazo para a realização das convenções partidárias, a 3ª via poderá se firmar. Mas, neste momento, não há qualquer indicação positiva de que isso irá mesmo acontecer. É por essa razão que muitos veem a tal alternativa como moeda de negociação política a ser apresentada como fatura diante dos dois outros eixos no momento adequado. Até lá, continuará essa lenga-lenga em que ninguém sabe ao menos com quem falar sobre 3ª via. Então, fala-se aos jornais.
Escrito por Afonso Lopes às 23h17
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O PS que faltou na Conexão
PS - Essa foi uma frase recorrente ("com as calças na mão") dentro do Palácio em meados de 1989 e frequentou várias vezes as páginas dos jornais. O final todos conhecem. O Palácio apostou "tudo", e perdeu até as calças.
Escrito por Afonso Lopes às 21h47
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Conexão - Jornal Opção - 01/11/2009
Perdição palaciana
Na ilusão gerada pelo exercício do poder surgem erros de avaliação da realidade política
Palácios podem muito, certo? Certíssimo. Sem reparos. O poder político representado pela conquista do Palácio é vastíssimo e se estende por todos os setores da sociedade. Então, por conclusão, o Palácio pode tudo quando a questão é política? Não, esse é exatamente o grande erro que se pode cometer. A velha frase de que o “Palácio pode muito, mas não pode tudo” é absolutamente real.
O governador Alcides Rodrigues (PP) caminha neste momento sobre essa tênue e frágil linha que separa o “muito” do “tudo”. Em tese, pelo menos até agora, as escaramuças do PP palaciano com o PSDB estão dentro dos limites que se poderia estabelecer para o “muito”. Apesar das caras enfezadas, das farpas e facadas, o processo continua dentro desse limite. Não se partiu para o irreal poder de “tudo”.
Então, está-se aqui dizendo que PP e PSDB voltarão aos dias de paz, união e amizade político-eleitoral? De maneira nenhuma. Os perímetros do “muito” vão além do que se imagina enquanto fato de limitação. Portanto, restabelecer a aliança com o PSDB ou não é apenas uma questão ligada à condução do processo, não o fator decisivo que determina o exato momento em que se extrapolam essas limitações.
Mas onde, afinal, estaria o “tudo” ilusório? No erro brutal de julgamento de que, a partir do poder palaciano, será possível alterar tão substancialmente fatos reais. Isso já ocorreu no governo atual. Durante três anos, o Palácio investiu tudo o que poderia investir para receber a filiação de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Foi um momento em que os palacianos imaginavam que “tudo” poderiam.
Há outro exemplo que mostra muito bem o contraste dessas limitações. Em meados de 2005, o Palácio fez “muito” para fortalecer um nome que pudesse herdar o apoio político e eleitoral do então governador Marconi Perillo. Chegou a fomentar positivamente pelo menos três pretendentes, e ao final sobreviveu apenas Leonardo Vilela. Apesar de ter feito “muito”, o Palácio não conseguir impor “tudo”. O lançamento da candidatura do então vice-governador Alcides Rodrigues determinou os tais limites.
É bem verdade que nem sempre os palacianos respeitam essa regra tão básica que separa o “muito” do “tudo”. Há outro claríssimo exemplo de rompimento dessa barreira na política goiana. Em 1989, em meio a uma crise sem tamanho, os palacianos do peemedebista Henrique Santillo, então governador (1987-1990, falecido em 2002), acreditaram que o Palácio poderia fazer “tudo” contra a candidatura de Iris Rezende. Não deu. No final da eleição, constatou-se que houve um erro grave de avaliação.
De agora em diante, será a vez do grande teste político dos atuais integrantes do Palácio. Talvez o episódio Meirelles tenha disparado o alarme da limitação desse poder. Pode ser também que isso não tenha ocorrido verdadeiramente. Há alguns sintomas de que tal episódio principiou divisões entre aqueles que ouviram as sirenes e os que continuam acreditando que, a partir do Palácio, “tudo” é possível. Fica a dúvida, sabe-se lá por quanto tempo, se irá prevalecer os bons de ouvido ou aqueles que se tornaram surdos pelo poder momentâneo.
Qualquer que seja a decisão majoritária do Palácio em relação às eleições do ano que vem, certamente será necessária uma altíssima dose de correta avaliação política. Se a opção for reconciliação dentro da base, então será necessário construir novamente as pontes destruídas ao longo dos últimos anos. Não há como fazer o caminho de volta por algum atalho. Todos eles levam ao naufrágio. Por outro lado, se a opção for pela construção de uma nova composição, igualmente será importante o estabelecimento de um método competente de aproximação. Imaginar que “tudo” será conseguido por força inercial é um erro brutal.
Palacianos têm afirmado constantemente que o PP irá construir uma terceira via ao lado do DEM, do PR e do PSB. No papel, não há qualquer impedimento. Esses quatro partidos têm direito, por exemplo, a substanciais 31% do tempo de campanha no rádio e na TV. É bem mais que a soma de PSDB-PPS-PTB, com 22%, e pouco menos que o eixo PMDB-PT, com 33,5%. O problema começa desse ponto em diante.
Com uma candidatura extremamente competitiva, a do senador Marconi Perillo, PSDB-PPS-PTB têm tempo suficiente para disputar as eleições sem muitos riscos em relação ao tempo disponível para a campanha eletrônica. As diferenças de porcentuais, que parecem enormes, na prática não são tão grandes. Se, por exemplo, Marconi somar 5 minutos, Iris terá menos de 1 minuto a mais do que ele.
Como Iris igualmente tem uma candidatura muito bem azeitada restaria à terceira via palaciana conseguir furar esse bloqueio criado pela polarização entre o peemedebista e o tucano. A grande interrogação existente é se o Palácio poderia promover uma reviravolta tão grande. Neste momento, é muito fácil responder a isso: claro que não. E é exatamente aí que entra o global da situação: até que ponto os palacianos conseguirão construir no futuro já não muito distante essa alternativa tão forte.
É por essa razão que, independentemente do caminho que será seguido, o Palácio corre riscos extraordinários. Se avaliar a situação tão bem quanto o fez no episódio Henrique Meirelles, o desastre total é certo. Até porque essa avaliação não foi boa, foi péssima. E baseada, possivelmente, no mundo ilusório do “tudo” palaciano. De qualquer forma, e como decisões não costumam ser tomadas com muita rapidez pelos atuais detentores do poder, talvez fosse o caso de iniciar imediatamente dois procedimentos. Um deles é a reconstrução das pontes. O outro é a abertura e aprofundamento dos canais de comunicação com outras composições políticas. Sem um e sem outro, o risco é terminar “com as calças na mão”.
Escrito por Afonso Lopes às 21h41
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matéria - Jornal Opção - 01/11/2009
PMDB 2010
É Iris. Ou nada
Presidente do Banco Central continua se imaginando dono do campo e da bola, mas se esquece de que o mais importante é o placar
AFONSO LOPES
O PMDB vivia sob céu de brigadeiro. Tranquilidade total. O prefeito Iris Rezende caminhava totalmente livre, leve e solto rumo às eleições de 2010 sem enfrentar maiores problemas internos. De repente, no último momento do prazo de filiação partidária para aqueles que querem disputar as eleições, no final de setembro, eis que o PMDB passa uma rasteira no PP palaciano e atrai o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para suas fileiras. Houve festa, foguetório e só. Alguns foguetes ainda espocavam quando Meirelles já embarcava para outros destinos. E não mais voltou até agora de forma oficial, com presença física e exposição pública. Provavelmente, junto, no avião que levou Meirelles de Goiânia, embarcou também a tranquilidade peemedebista.
De um momento para o outro, a candidatura do prefeito Iris Rezende passou a ser deliberadamente questionada fora e dentro do PMDB. Mesmo sendo uma situação surreal, com Iris passando dos 40% nas pesquisas e Meirelles beijando a lona com porcentual insignificante de intenções de voto, a pergunta que não mais se calou desde aquele final de setembro é sobre a candidatura do PMDB: Iris ou Meirelles?
Disputa — Apesar da farta liderança de Iris Rezende sobre Henrique Meirelles, é inegável certo clima de disputa interna. Inegável e de dificílima compreensão. Um é exatamente o oposto do outro em todos os sentidos, inclusive no aspecto administrativo. E não há qualquer vantagem pró-Meirelles em nenhum dos quesitos.
Politicamente, Iris é um professor pós-graduado. Meirelles ainda não deixou o ensino fundamental. Como aluno, claro. A trajetória política do prefeito de Goiânia é extensa e recheada de inúmeras demonstrações de profissionalismo. Quanto ao presidente do BC, a única passagem dele por um partido político não durou muito tempo. Ele se filiou ao PSDB ao deixar a direção do BankBoston e abandonou o partido antes mesmo de tomar posse como deputado federal.
Quando o assunto é experiência administrativa, mais uma vez não há como comparar Iris e Meirelles. O líder peemedebista foi prefeito de Goiânia na década de 1960, retornou à política dez anos após suspensão de seus direitos políticos pela ditadura militar (1964/1989) se elegendo governador em 1982. Depois, em 1990, foi eleito para um segundo mandato. Em 2004, voltou a vencer as eleições para a Prefeitura de Goiânia, e foi reeleito em 2008. Um portfólio inigualável em Goiás. Quanto a Meirelles, sua única experiência administrativa nunca teve nada a ver com o setor público. Ele foi presidente de um conglomerado financeiro norte-americano e é presidente do Banco Central do Brasil. Só. Nessas condições, ele jamais teve que optar por um ou outro investimento tendo de levar em conta os benefícios imediatos para a população. Seu negócio sempre foi o lucro, simplesmente.
Em termos de popularidade, mais uma vez Iris atropela Meirelles. O prefeito é um líder político que se situa entre os mais importantes de toda a história de Goiás, rivalizando-se com o passado, como Pedro Ludovico Teixeira e Totó Caiado, e com o presente, senador Marconi Perillo (PSDB). É claro que, como todos os grandes líderes, vez ou outra enfrenta mau humor de certos satélites que se imaginam com muito brilho. Nada diferente do que todos os demais líderes de expressão também se deparam vez ou outra. Meirelles não tem adversários. Sua liderança, jamais colocada realmente à prova nas ruas, é exercida apenas no seu setor de atuação, o mercado financeiro. Politicamente, tentou articular um grupo em 2002. Durou somente o processo eleitoral. Em 2005, quando muitos o imaginavam pronto para disputar o governo de Goiás, abandonou todo mundo e continuou cuidando de sua própria vida no Banco Central.
Se o nome de Iris permeia e se espraia em todos os setores sociais de Goiás, Meirelles circula somente nas chamadas altas rodas, de intelectuais ao grande PIB. Adversários de Iris costumam dizer que o prefeito é muito conhecido pela população, por isso mais popular nas pesquisas. Não é bem assim, não. A popularidade de Iris vem da sua essência político-administrativa. Já Meirelles, além de desconhecido da grande maioria do povo, não tem qualquer apelo popular.
Jogo baixo — O PMDB de Iris Rezende recebeu Henrique Meirelles com portas abertas, tapete vermelho e com total transparência. Nunca deixou de ficar bastante claro que a preferência para candidatura ao governo do Estado no ano que vem é dele, Iris. Apesar disso, e muito mais a título de prestigiar Meirelles, as lideranças iristas e o próprio prefeito sempre divulgaram que ele terá total liberdade de escolha quanto ao cargo que irá disputar em 2010.
Demonstrando sua total incapacidade de jogar politicamente, Meirelles nunca devolveu o afago público ao prefeito. Ele poderia, por exemplo, dizer que Iris tem a preferência para a disputa pelo governo por ser o maior líder do partido, por ter maior experiência, por ter construído uma carreira pública muito bem estruturada e etc e tal. Nunca fez isso. Ao contrário, nos bastidores, comenta-se que tem jogado batendo abaixo da linha da cintura.
Dois deputados federais do PMDB, Leandro Vilela e Marcelo Melo, ambos fora da órbita irista — o primeiro é sobrinho do prefeito Maguito Vilela e o segundo segue Joaquim Roriz —, atuam publicamente contra Iris Rezende. Nos bastidores, comenta-se que ambos atendem aos interesses de Meirelles. Recentemente, ao perceber que a dualidade das candidaturas no PMDB não pode durar muito tempo, Iris defendeu a antecipação do processo decisório interno para o mês de dezembro e não final de março, prazo estabelecido pela legislação para as desincompatibilizações. Leandro e Marcelo criticaram a ideia do prefeito e ainda acusaram Iris de manobrar para tirar Meirelles da disputa.
Há outros setores do PMDB, embora de atuação política extremamente restrita, dispostos a defender o jogo duplo que interessa a Meirelles. O objetivo é descarregar sobre Iris qualquer tipo de aspecto negativo. É uma tremenda bobagem. Se o PMDB optar por Meirelles, provavelmente a maior algazarra surgirá no outro exército, o do PSDB e seus aliados. Sem Iris Rezende, dificilmente o PMDB conseguirá alguma coisa positiva em 2010. É ver até onde vai esse jogo de Meirelles.
Escrito por Afonso Lopes às 09h03
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Matéria - Jornal Opção - 25/10/2009
SOB PRESSÃO
Como Marconi pode se proteger
Na última semana, pela primeira vez o próprio senador tucano acusou ataques contra o que considera seu patrimônio político
AFONSO LOPES
Os aliados mais próximos do senador Marconi Perillo sempre disseram que os adversários, novos ou antigos, trabalham para implodir o que eles próprios entendem ser o patrimônio político do tucano. Na última semana, o próprio Marconi resolveu reclamar das críticas e dos críticos. Não no sentido da censura, mas com o propósito de reação. Mas, afinal, o que ele pode fazer para se proteger dos ataques?
É evidentemente uma tarefa difícil. Marconi está na alça de mira de um incontável número de adversários. É natural que seja assim. Ele representa um grupamento político extremamente competitivo e, enquanto ele estiver em posição de destaque, é claro que seus adversários vão tentar de todas as formas derrubá-lo. Ou, no mínimo, torná-lo mais fraco eleitoralmente.
Sem efeito — O curioso em tudo isso é que, embora esteja realmente sob pesado bombardeio e tenha manifestado preocupação com o fato, até agora ele praticamente escapou ileso. A prova desse fato é que a última pesquisa eleitoral realizada até agora mostrou que sua rejeição está nos mesmos patamares em que sempre esteve, na faixa de 15%. Em outras palavras, se a intenção dos adversários era enfraquecê-lo, o objetivo ainda continua muito longe de ser alcançado.
Então, por que Marconi acusou o golpe? Sabe-se lá, talvez porque tudo isso o esteja incomodando. Na realidade, ao longo desse tempo, especialmente desde o final da campanha eleitoral de 2006, o tucano tem se protegido através da tentativa de neutralização dos ataques por intermédio de seus aliados. Ultimamente, observa-se inclusive uma inversão do processo, com os marconistas devolvendo os petardos com muito mais intensidade.
Esse é um detalhe que incomoda os antimarconistas de todos os segmentos. Mesmo após sofrer ataques praticamente sem qualquer defesa mais articulada, o tucano não somente sobreviveu como agora está começando a partir para a contraofensiva. O mais grave é que, aparentemente, o estoque de bombas dos antimarconistas parece ser cada vez mais raro. Dizer mais o que contra ele?
Marconi já foi acusado de quase tudo, desde desagregador e individualista até gestor que provocou o desequilíbrio das contas do Estado. Para 85% da população, isso tudo não passa de tiroteio político. Existe, inclusive, a possibilidade de a população ter se fartado de tantos ataques, e deixado de dar muita bola para eles. Falar mal das gestões do tucano já foi moda. Pelo jeito, deixou de ser.
Isso significa que a tendência é de dias mais tranquilos para Marconi? Longe disso. A pressão vai continuar indefinidamente e tende, inclusive, a recrudescer quanto mais se aproximar 2010. O objetivo dos adversários é nitidamente eleitoral, e é exatamente isso que está em jogo.
Não há muitas formas de proteção no campo aberto das disputas políticas. Especialmente para quem se prepara para enfrentar o desafio das urnas. Isso significa que em muito breve a capacidade de reação e contra-ataque de Marconi e seus aliados será colocada definitivamente à prova. Não que na política se copie a máxima do futebol, de que a melhor defesa é o ataque. Em muitos casos, se tornar vítima é o melhor caminho.
Em 1990, Iris Rezende tinha diante dele o mais formidável exército adversário que ele já havia enfrentado até então. A lista dos generais do “lado de lá” reunia nomes como Mauro Borges, Henrique Santillo, Paulo Roberto Cunha, Irapuan Costa Júnior e Iram saraiva. No primeiro e único debate daquela eleição pela TV, Iris foi surpreendido por ferozes ataques demolidores desferidos por Iram Saraiva. Enquanto se defendia, completamente atordoado, Paulo Roberto Cunha teve folga suficiente para fazer seu proselitismo eleitoral com muita competência.
Na avaliação de todos os especialistas, Iram tinha conseguido derrubar Iris Rezende e Paulo Roberto Cunha curtiu os louros da vitória. Para a população, no entanto, o efeito foi exatamente o oposto. Iris figurou como vítima de um ex-aliado (Iram tinha sido eleito senador pelo PMDB e se filiou ao PDT para disputar a eleição) e isso desviou o foco sobre Paulo Roberto. No fritar da omelete, Iris apareceu como vencedor do debate aos olhos da população.
Se tornar-se vítima naquele momento foi positivo para a imagem do candidato Iris, ao longo da campanha isso perdeu impacto e permitiu um contínuo crescimento da candidatura de Paulo Roberto Cunha, que tinha como base o segundo mais forte grupamento político do Estado. Iris não atacou, e acabou perdendo força na reta final da campanha. Para muitos, um terrível acidente de carro, quando voltava para Goiânia após um dia inteiro de palanques e discursos, garantiu a vitória a Iris Rezende sem necessidade de segundo turno. Se essa tese estiver correta, mais uma vez surge enquanto tema a figura da vítima.
Diferente — O cenário atual é completamente oposto ao de 1990. Não há, certamente, um modelo pronto e acabado para Marconi Perillo, alvo principal deste período pré-eleitoral. Mas, com certeza, dificilmente ele irá se beneficiar agindo passivamente. Até aqui, a posição dos seus aliados foi suficiente para evitar maiores danos à sua imagem. Mas isso tem prazo de validade.
Quem irá disputar as eleições para o governo do Estado será Marconi e não os deputados ou demais lideranças ligadas a ele. Portanto, vai chegar o momento em que ele próprio terá que se defender e, ato contínuo, atacar com precisão cirúrgica. Se exagerar, terá que enfrentar um sério efeito colateral, que é colar à sua imagem uma dose conjunta de ira e ódio. Para os seus adversários, isso seria o paraíso: um erro grave num momento de decisão.
Escrito por Afonso Lopes às 08h04
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Conexão - Jornal Opção - 25/10/2009
PESQUISA SERPES/O POPULAR
Incerteza na maior eleição da história
Primeira rodada da tradicional pesquisa Serpes/O Popular mostra que as eleições de 2010 serão duramente disputadas
As eleições de 2010 ainda estão muito distantes. De agora até o encontro com as urnas, serão quase 11 meses. É muito tempo. Daqui até lá ainda passaremos por muitas e boas. Natal, ano-novo, carnaval e, suprassumo da última Coca-Cola gelada do deserto, a Copa do Mundo. E, só então, todos irão mergulhar na campanha eleitoral. E “todos”, neste caso, refere-se à população, porque o mundo político já está na guerra. E que guerra, torcida brasileira...
Será a mais disputada eleição da história de Goiás sem qualquer dúvida. A polarização entre o senador Marconi Perillo (PSDB) e o prefeito Iris Rezende (PMDB) atingiu o ponto máximo da ebulição. A última comprovação sobre isso surgiu nos resultados apresentados pela primeira rodada da tradicional pesquisa Serpes, publicada pelo jornal “O Popular” na segunda-feira, 19. Em todas as simulações, desde um quadro geral com todos os nomes mais comentados como possíveis candidatos até na individualização, o que marcou foi a diferença muito pequena entre Iris e Marconi. Sempre dentro da chamada margem de erro, que o instituto informou ser na casa dos 3 pontos.
E, cabe aqui a velha pergunta: com tanto tempo faltando para as eleições, é possível falar em polarização? Velha resposta: claro que é. Existem inúmeros aspectos que envolvem um processo eleitoral. O maior deles é a composição antagônica das forças políticas. E, pelo menos neste momento, Iris e Marconi são os representantes dessas forças. Isso, por si só, não invalidaria a dúvida a respeito dessa polarização, já que não é impossível o surgimento de outro grupamento forte. O problema aqui é a cultura sociopolítica dos goianos, que prima historicamente pela polarização entre somente dois grupos, e não entre três ou quatro. Então, quebrar essa cultura tão enraizada não é coisa fácil nem instantânea, que nasce e cresce durante uma campanha.
Nem todos os Estados brasileiros são dessa forma. No Rio Grande do Sul e em São Paulo, para ficar em apenas dois exemplos, a polarização sempre ocorre com três forças. Em Minas Gerais, Distrito Federal, Mato Grosso, Ceará e em inúmeros outros Estados, a disputa fica restrita a dois grupos políticos.
Há quem diga que essa polarização dupla é ruim. Não é nem ruim nem boa. É somente uma questão, como disse, cultural. O Brasil, majoritariamente, também segue o modelo duplo nas disputas presidenciais. Assim como os Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, França e Japão. Então, vendo assim, não há vantagens nem para um modelo nem para o outro.
E nesse ponto, retorna-se à polarização entre Iris e Marconi. Será possível que um terceiro grupamento quebre essa polarização? Neste momento, claro que não. Mas, sabe-se lá o que poderá acontecer de agora até julho do ano que vem, quando serão fechadas as convenções partidárias. E, ao citar esse prazo, chega-se à conclusão que o tempo até as urnas é mais curto do que se imagina. De agora até essa primeira grande definição são nove meses. E se for levar em conta que é necessário preparar o terreno para não encontrar surpresas desagradáveis nas convenções, então o prazo é menor ainda.
Não é por outro motivo que o prefeito Iris Rezende avisou que não pretende esperar o mês de março para definir quem será o candidato a governador pelo PMDB. Iris, que é unanimidade dentro do partido, apesar de pequena dissidência, não pode ficar até março sangrando sem parar pela falta de definição interna entre sua candidatura e a alternativa Henrique Meirelles. E dificilmente, apesar de sempre chutar a bola para Meirelles, Iris deixará de ser candidato.
Mas ele, Iris, se apresenta como favorito para as eleições de 2010? Não. Nem ele nem Marconi. Qualquer um dos dois é favoritíssimo individualmente contra outro candidato, inclusive Meirelles, mas entre eles não há favoritismo. É isso que faz de 2010 o exclusivíssimo ano da maior eleição da história de Goiás. Será, que ninguém duvide, uma disputa épica, inigualável. Como jamais se viu outra igual.
A primeira rodada da pesquisa Serpes evidentemente não pode ser projetada, enquanto resultado, para o futuro. É, como sempre se fala, um retrato deste momento. De qualquer forma, há evidentes sinais captados também na pesquisa Ecope, publicada pelo “Diário da Manhã”, de que a inserção de Iris e Marconi no processo político-eleitoral pode ser definitiva.
Quem aposta numa terceira onda eleitoral costuma citar como exemplo da volatilidade dos porcentuais das pesquisas o gráfico das eleições de 2006, quando o governador Alcides Rodrigues saiu na rabeira do processo e terminou na frente. Só que aqui não se coloca que o governador era o representante de um dos dois grandes grupos políticos do Estado. Portanto, a terceira via se formata muito mais com o viés de 1994.
Naquela eleição, enquanto o grupo peemedebista saiu unido em torno de Maguito Vilela, a outra força política se partiu ao meio com as candidaturas de Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado. Ou seja, não se caracterizou ali uma polarização em torno de três grupos, mas de apenas dois, com uma divisão em um deles.
Caso realmente vingue a ideia de lançamento de outra candidatura com o objetivo de se inserir entre Iris e Marconi, restará somente uma dúvida: qual dos dois grandes grupamentos é que ficará dividido. Em tese, o terceiro nome fragiliza a candidatura de Marconi, mas as coisas podem evoluir de forma diferente. Caso a terceira via assuma uma conotação antimarconista, assim como já o faz até de maneira natural Iris Rezende, pode ser que a divisão ocorra na raia irista.
Enfim, tudo isso mostra que Iris e Marconi têm muito trabalho pela frente. Para eles, 11 meses é pouco menos que um dia.
Escrito por Afonso Lopes às 08h03
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Artigo - DM - 23/10/2009
Terceira via, a aventura do caos na desconstrução da origem Afonso Lopes A cúpula palaciana do PP tem insistido na possibilidade de lançar uma alternativa eleitoral à polarização entre o prefeito Iris Rezende Machado e o senador Marconi Perillo. Isso é possível ou não? Do ponto de vista da legislação, é claro que os dirigentes do PP podem fazer qualquer coisa nas eleições de 2010, inclusive nada. Ou não exatamente. Para determinar os rumos do PP no ano que vem os palacianos vão ter que apresentar alguma proposta e colher a maioria dos votos numa convenção. Em outras palavras, a cúpula terá que formular algo que tenha apoio suficiente para ser encampado também pela base partidária. Fala-se muito num tal poder palaciano. Ele é real, e se estende em todas as direções, da política partidária à administração pública, dos cargos nomeados às demissões em massa de adversários, do favorecimento eleitoral para aliados à perseguição implacável das bases oposicionistas. O poder palaciano pode muito. Mas não é absoluto, embora em alguns momentos os detentores temporários desse poder atuem com viés absolutista, alimentando ilusórios cenários do exercício desse poder. Essa visão absolutista está latente neste governo, e não é de agora. Desde o início de janeiro de 2007, há um esforço extraordinário para negar a realidade do passado recente, e criar uma nova versão para os fatos. Assim, embora com certo constrangimento, os palacianos negam, por exemplo, que só conseguiram chegar ao Palácio das Esmeraldas por obra e graça de um decisivo cabo eleitoral que carregou a proposta da continuidade na campanha de 2006, dando-lhe credibilidade popular. E o que vem sendo apresentado ao eleitor nos últimos três anos é um ataque sistemático a essa credibilidade, com acusações sobre um possível déficit financeiro e até uma conta absurda – que, como o déficit, jamais foi comprovada – de que a UEG, uma das joias do sistema que garantiu a eleição dos atuais palacianos, tinha 600 mil títulos protestados diante de uma dívida global de 20 milhões de reais – o que daria uma média de irrisórios R$ 33,33 para cada protesto num total de 600 mil compras. Salvo comprovação oficial, isso é absurdamente surreal, um mero exemplo da consistência desse ataque às próprias origens. O messianismo absolutista palaciano vem sendo praticado como seita fanática. O repúdio à sua origem é resultado imediato da incapacidade de se livrar de uma constatação que hoje até parece óbvia: não havia um projeto alternativo de governo, mas somente uma proposta de poder. É por essa razão que na campanha, o projeto apresentado ao julgamento dos eleitores goianos foi a de continuidade total de um modelo de gestão esmagadoramente aprovado pela população, e o que se vê agora, no exercício do poder, é exatamente o oposto daquilo que se apresentou ao eleitor. Assim, na desconstrução de sua origem, o poder palaciano tornou-se refém de sua ilusão. Há mais de três anos o governo amaldiçoa o próprio passado, como um filho que, após receber conhecimento nas melhores e mais caras escolas, trai o pai ao apontá-lo como desprezível analfabeto. Agora, vai se chegar ao encontro da inevitável realidade, e será necessário bancar a ilusória e fabricada versão de poder nascido de chocadeira. A terceira via eleitoral, como alternativa à polarização entre Iris Rezende e Marconi Perillo, está sendo montada contra tudo o que de mais óbvio se constata há algum tempo. Este é um Palácio fraco eleitoralmente e reprovado administrativamente, dois dos supremos quesitos necessários para bancar qualquer tentativa de linha independente de atuação política. A terceira via, assim como está sendo articulada e proposta, não visa criar um projeto de governo ou, sequer, de poder. É somente uma aventura dentro do caos gestado na ilusão palaciana. E no que isso vai dar? Em nada, certamente. É impossível prever neste momento qualquer chance de um negócio como esse resultar em algo positivo. Todas as pesquisas mostram que Iris e Marconi somam mais de 80% da preferência do eleitorado. Mais do que isso, revelam também que aquele que deveria ser o maior avalista da via alternativa não consegue ao menos se viabilizar, liderando somente a relação dos maiores rejeitados. Para completar, todos os possíveis e eventuais nomes dispostos na trincheira da 3ª via não vão além, quando muito, de 3% das intenções de voto. A prática messiânica do poder absolutista palaciano leva à crença de que essa realidade é passageira. Que de agora até meados do ano que vem tudo será diferente. Pode até ser que realmente mude muita coisa, mas não há qualquer indicativo de que será para melhor. Ao contrário, a prática deste governo é caminhar do ruim para o pior. Exemplo? Um atualíssimo, para não se fazer necessário qualquer exercício de memória: quando ninguém mais imaginava, eis que voltam a falar na possibilidade de ocorrer atrasos nos salários dos servidores. E a culpa, como sempre se alega, é do passado. Até porque, na ilusória versão palaciana, o presente é perfeito, intocável e irreparável, apesar de a maioria esmagadora da população entender de maneira diferente. Então, o que esperar de uma 3ª via? Absolutamente nada. É uma proposta vazia, gerada no fígado e não no cérebro. E nem se pode afirmar que a tese passará pelo crivo das bases e das lideranças que se colocarão no jogo duríssimo das eleições do ano que vem. A possibilidade de ocorrer um motim que tente impedir que a nau afunde e leve a todos para o limbo político é cruelmente real. Mesmo que isso implique em negar a liderança do comandante. Certamente, os palacianos, cegos pela dimensão do poder, não percebem que não existem parceiros no caos. Há somente solidão.
Escrito por Afonso Lopes às 08h31
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Matéria - Jornal Opção - 18/10
RÁDIO E TV
O vale quanto pesa dos partidos
A distribuição do tempo de cada candidato na campanha eletrônica depende das bancadas partidárias, mas a militância também é importante numa eleição
AFONSO LOPES
A primeira providência que qualquer candidato competitivo observa é o tempo que ele terá para fazer campanha no rádio e na televisão. Nos dias atuais, mais ainda do que em outras eleições, essa é uma questão absolutamente fundamental, especialmente levando-se em conta a legislação eleitoral em vigor, que proíbe praticamente todas as demais formas tradicionais de pedir votos, como shows, brindes, camisetas, badulaques outros, além de galinhadas. O contato principal dos candidatos com a grande massa dos eleitores passou a ser os veículos de comunicação, incluindo aí jornais e revistas — que estão sob regime de legislação diferente.
Mas como conseguir uma boa parcela do tempo destinado à campanha eleitoral no rádio e na TV? É aqui que entra o peso de cada partido. De acordo com a norma em vigor, esse tempo é dividido de acordo com as bancadas eleitas na Câmara dos Deputados na eleição anterior. Quanto mais deputados um partido elege, mais tempo ele passa a ter direito na campanha eletrônica na próxima eleição. Portanto, a divisão do palanque eletrônico para as eleições de 2010 já está definida desde 2006.
Cinco maiores — Nas eleições do ano que vem o PMDB, individualmente, terá o maior tempo na campanha eletrônica. Em segundo lugar, imediatamente atrás, estará o PT. Um pouco mais distante estão praticamente empatados PSDB e DEM, com o PP, ainda mais distante, fechando a lista dos cinco maiores tempos.
Quando dois ou mais partidos se coligam, cada um deles leva sua parcela de tempo para a coligação inteira. É por essa razão, neste caso, que todos os candidatos competitivos sempre procuram costurar amplos acordos partidários. É claro que, além da campanha eletrônica, as coligações são fundamentais porque ampliam o número de militantes engajados na eleição. Em outras palavras, quanto maior a coligação, melhor a parcela destinada ao rádio e à TV e maior o número de gente disposta a carregar a bandeira do candidato nas ruas.
Esses dois ingredientes fazem de qualquer pessoa um candidato competitivo? Sim e não. No papel, um candidato respaldado por uma boa coligação garante espaço generoso no rádio e na TV, mas pode não ter proporcionalmente o mesmo apoio das bases partidárias. Os eleitores acompanham as danças, andanças, músicas e efeitos bem bolados dos programas eleitorais, mas o clima nas ruas deve ser correspondente. Se a militância partidária não se contagiar, os demais eleitores percebem que as cúpulas podem ter forçado a barra, lançando um candidato não natural, imposto goela abaixo dentro do processo eleitoral. Normalmente, quando isso ocorre, há um divórcio interno entre a campanha eletrônica e as ruas, com resultados catastróficos.
O contrário, e na exata medida, é inteiramente verdadeiro. Bons candidatos e boas coligações têm espaços generosos para “vender o peixe” no rádio e na televisão e um exército de pescadores de votos em cada rua, esquina, mesa de bar, futebolzinho no final de semana, no trabalho, nas escolas e faculdades. Enfim, uma militância e simpatizantes que respaldam a campanha eletrônica no cotidiano de todos os eleitores. Quando essa simbiose perfeita acontece, aí, sim, qualquer candidato tem grandes chances de vencer a eleição.
Goiás — A situação partidária da política goiana não corresponde com exatidão o poder partidário representado na Câmara dos Deputados. Por aqui (como lá) o PMDB é o partido com maior capilaridade, com presença em todas as cidades, vilas e povoados. Provavelmente, não existe um único quarteirão de residências no Estado que não conte com pelo menos um morador peemedebista. Isso dá competitividade a qualquer candidato lançado pelo partido? Não exatamente. Se o partido não respeitar a tendência majoritária, provavelmente sofrerá severas restrições na campanha, com reflexos negativos no resultado final.
Os peemedebistas sabem muito bem como isso ocorre. Em 1998, a candidatura natural do partido, esmagadoramente preferida internamente, era a do então governador Maguito Vilela, que poderia se candidatar à reeleição. Fissuras internas, jamais reveladas detalhadamente, mudaram essa tendência natural. Maguito se candidatou ao Senado e saiu das urnas com mais de 1 milhão de votos, se elegendo com inteira facilidade. Iris Rezende, que renunciou a um dos cargos mais importantes da República, o de Ministro da Justiça (governo de Fernando Henrique Cardoso), disputou o governo e sofreu a primeira derrota eleitoral de sua longa e vitoriosa vida pública.
O segundo grande partido de Goiás é o PSDB, que ocupa, praticamente empatado com o DEM, a terceira posição em Brasília. A realidade de lá é completamente diferente da goiana. Os tucanos construíram uma imensa rede de militantes e simpatizantes na última década, embora seja um partido historicamente novo. O DEM, que vem de estirpe política muito mais antiga, é muitas vezes menor nesse quesito. Sua militância e influência são grandes, mas não tão numerosa, e é muito mais espalhada. Além disso, os democratas dividem com os pepistas a tal linhagem histórica.
Quem aparece em terceiro em Goiás é exatamente o PP, que ganhou fôlego nos últimos três anos com a ascensão do governador pepista Alcides Rodrigues. O efeito é mais ou menos aquele vivido pelo PSDB em anos anteriores. O Palácio sempre exerce um poder de atração formidável. E foi por essa razão que o PP, inclusive, inverteu posição com o DEM em Goiás.
PTB e PR fecham a relação dos grandes partidos no Estado. E se equivalem em quase tudo. Tanto no que se refere ao tempo de campanha eletrônica como em número de militantes. Em algumas regiões o PTB se apresenta melhor que o PR, em outras o PR tem mais participação que o PTB.
E onde entra o PT nessa história? Num patamar ligeiramente inferior. O partido vai muito bem em Goiânia e Anápolis, mas ainda não conseguiu furar o bloqueio que existe nas regiões mais afastadas. Talvez, e aqui entraria até um estudo sociopolítico muito mais embasado, a origem vermelha radical do PT ainda permaneça no inconsciente coletivo mais conservador do interior de Goiás como uma barreira.
Essa imagem radical não corresponde mais à realidade do PT, que se coliga até com liberais declarados, e administra com um viés social-democrata e não socialista. Mas, pelo jeito, isso ainda não foi digerido pelas populações do interior, especialmente num Estado como Goiás, inteiramente ligado ao setor rural. Por lá, aparentemente, prevalece a ideia de que o PT continua sendo a fonte de apoio dos temidos militantes do MST. Esse temor já foi muito pior, mas ele ainda existe e impede o avanço partidário do PT no interior do Estado.
Em Brasília, PDT, PSB e PPS têm bancadas equivalentes. Em Goiás, em influência partidária, o PDT leva vantagem sobre os outros dois, mas também de maneira muito localizada. E o mais curioso é que encontrar um militante do PPS em Goiânia é muito mais comum do que um pedetista ou socialista. Sinal de que o PPS é um partido de quadros, e não de massas.
Abaixo desses, em Brasília estão o PCdoB e o PV, também com bancadas equivalentes. Os comunistas goianos já foram muito mais organizados e influentes, elegendo deputado federal, estaduais e vereadores em Goiânia. Perderam muito do charme que tinham, mas a legenda continua tendo uma espécie de valor histórico. Já o PV sobrevive em guetos ligados à defesa do meio ambiente. O partido não conseguiu até hoje romper esse casulo.
A campanha no rádio e na TV
A campanha eletrônica irá ao ar entre 17 de agosto e 30 de setembro. Serão dois blocos, com formação de rede pelos veículos (todos transmitindo exatamente a mesma programação) de 50 minutos cada um. Segundas, quartas e sextas serão apresentadas as campanhas para governador, senador e deputado estadual. Os governadores ocuparão 20 minutos, os candidatos a deputado outros 20 minutos e os candidatos ao Senado terão 10 minutos. Terças, quintas e sábados entrarão as campanhas para presidente e deputado federal, com 25 minutos para cada.
Além dos blocos 50 minutos em rede, a campanha terá também outros 30 minutos diários, inclusive aos domingos, para a veiculação das chamas pílulas — peças de propaganda de 30 segundos ou 1 minuto — que são inseridas nas grades de programação das emissoras entre oito horas da manhã e meia-noite. A divisão, neste caso, é de 5 minutos para cada eleição — presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual.
Escrito por Afonso Lopes às 06h56
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem, de 46 a 55 anos
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