Matéria - Jornal Opção - 27/09
A VIDA PÓS MEIRELLES
O PP no divã
Partido do governo terá, a partir de agora, que reciclar sua forma de atuar em relação à sucessão de Alcides Rodrigues
AFONSO LOPES
Tudo indica que Henrique Meirelles irá mesmo para o PMDB. E, isso se confirmando, restará ao PP iniciar um enorme projeto de reciclagem interna. A cúpula palaciana passou os três últimos anos trabalhando intensamente para conquistar a filiação do banqueiro anapolino e, dessa forma, ganhar condições para tentar se impor como um dos eixos decisivos da sucessão do governador Alcides Rodrigues. Como esse plano não deu certo, o PP terá que encontrar outros caminhos para não viver como pária após comandar o Estado por quatro anos.
Não será essa uma tarefa fácil. A cúpula do PP sempre disse que não tinha plano B em relação à candidatura de Meirelles pelo partido. Somente agora se percebe que os dirigentes pepistas não estavam blefando sobre isso. Realmente, o PP colocou todos os ovos nessa cesta. E eles se quebraram diante do PMDB.
Logo após a decisão de Meirelles ser anunciada — de se filiar ao PMDB ou até não se filiar — alguns dirigentes pepistas buscaram o secretário da Fazenda, Jorcelino Braga, para preparar uma alternativa de última hora. Teoricamente, Braga realmente é um fator de convergência dentro do partido, mas dificilmente conseguiria muita coisa além disso entre os demais possíveis parceiros.
O DEM e o PR seriam as apostas partidárias disponíveis para negociação com o PP, mas os dois partidos apresentam propostas muito claras de crescimento nas eleições de 2010, e fatalmente isso criaria dificuldades. O PP, com a baixa popularidade do Palácio das Esmeraldas, e diante do fuzuê político-eleitoral nos eixos PMDB-PT e PSDB-PTB-PPS que se imagina crescente a partir de agora, não terá a vida facilitada para tornar o secretário da Fazenda, que sempre se revelou avesso às candidaturas, muito mais popular do que ele é atualmente. Jorcelino tem boa conceituação no campo político, mas até por seu perfil técnico-administrativo, teria que passar por um banho de loja eleitoral para enfrentar as ruas.
Proporcionais — Isso não significa que Braga não atenderá aos apelos dos seus companheiros pepistas, e principalmente os do governador Alcides Rodrigues. Sua filiação ao PP, portanto, deve ser mesmo considerada, embora não exatamente com total garantia de que ela realmente acontecerá. Convencer Braga a se filiar talvez seja muito mais complicado do que conseguir que ele abra os cofres do Estado para alguma gastança, mas não é, definitivamente, algo impossível. O que poderia pesar realmente nessa questão é sua excelente relação pessoal com o governador Alcides.
Mesmo que a operação filiação de Braga obtenha sucesso, pouca coisa mudará em termos de candidatura do PP ao governo do Estado no ano que vem. Se é assim, qual a importância de sua filiação? Aí é outra história. Hoje, após Meirelles, o partido não tem o que dizer nem quem apresentar numa eventual conversação com os demais partidos para a construção de uma boa aliança para o ano que vem. Com Braga na manga, vai para a mesa com um Ás, pronto para enfrentar a banca e ficar com algum lucro. Não é por outra razão que o DEM se apresenta para o governo do Estado com o deputado federal Ronaldo Caiado, o PR com o vice-governador Ademir Menezes e o PT com o deputado federal Rubens Otoni. Trata-se do ritual político-eleitoral natural do processo de alianças. Quem se senta à mesa sem nada não colhe muita coisa.
A filiação de Jorcelino Braga iria até esse ponto. Dificilmente ultrapassaria a barreira da composição de uma aliança. Até porque, pelo menos neste momento, não existe a menor possibilidade de o PP conseguir certo monopólio nas atenções políticas, o que implica as tais dificuldades para a construção de uma grande e sedimentada coligação. Além disso, embora goze de certa unanimidade entre os pepistas, uma candidatura própria deverá sofrer certa resistência entre os candidatos do PP à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados. Isso porque, se ficar isolado na eleição, o PP certamente se formataria como o DEM em 2006, tendo enormes dificuldades para eleger candidatos nas chapas proporcionais.
Por outro lado, existe mais um sério obstáculo numa eventual caminhada partidária de Jorcelino Braga. Para o PP entrar cacifado na rodada de negociações, dentro da base aliada ou fora dela, Braga teria que deixar o comando da Secretaria da Fazenda no final de março do ano que vem. As consequências, nesse caso, são absolutamente imprevisíveis. Ficar sem o seu supersecretário exatamente no período final de seu governo é tudo o que o governador Alcides Rodrigues menos precisa. Especialmente por ser o momento crucial, na campanha de sua própria sucessão.
Enfim, após a ressaca da falha do plano Meirelles, o PP deverá agora se reconciliar com seus interesses, incluindo, evidentemente, o atendimento das tendências internas majoritárias. Isso leva a três alternativas: arriscar tudo com candidatura própria, voltar a dialogar abertamente com antigos aliados, ou estabelecer contatos imediatos com o velho adversário, o PMDB. Haja divã.
Escrito por Afonso Lopes às 22h32
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Conexão - Jornal Opção - 27/09
HENRIQUE MEIRELLES
Um bom negócio para o PMDB
Pelo menos, a filiação do presidente do Banco Central parece estar mesmo definida. Destino é o PMDB. Fora isso, sobram dúvidas
O PMDB acabou levando a melhor sobre o PP palaciano no que se refere à conquista da filiação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Pelo menos, essa é a situação de momento. Em se tratando do banqueiro anapolino, nada pode ser o que aparenta antes que realmente seja. Meirelles sempre foi um poço de mistérios em relação à sua própria vida política. Mas, levando-se em conta a aparência predominante no mercado, e pelo menos até terça-feira, 29, ele deve mesmo se filiar ao PMDB. E daí em diante? Não há nada definitivamente acertado. Ele tanto pode ser candidato em nível federal — fala-se muito em uma vice-Presidência na chapa lulista —, a algum cargo em Goiás ou a nada, mesmo tendo cumprido o ritual da legislação quanto à filiação partidária.
Para o PMDB, a filiação de Meirelles foi um bom negócio. De cara, os peemedebistas conseguiram tomar conta da bandeira de Lula em Goiás. Antes, o PP era forte concorrente. Não é mais. Além disso, sendo candidato, qualquer que seja o cargo, é certo que Meirelles montará uma belíssima estrutura de campanha, com efeitos sobre a maioria das demais pequenas candidaturas. Até o presidente Lula definiu bem essa necessidade de Meirelles ao afirmar que ele não pode entrar nas eleições para perder. Ou seja, quanto mais estruturada a campanha, menor a chance de surpresas desagradáveis no final.
O prefeito Iris Rezende Machado também ficou no lucro, pelo menos neste momento. Na já famosa visita de Lula a Goiânia, Iris tinha ficado em segundo plano, quase como um regra 3, na reserva. Com sua ousada estratégia de abrir o PMDB para Meirelles, ele voltou a comandar as ações. Está, portanto, para ficar num palavreado bem meirellista, faturando os dividendos.
O problema vai surgir de agora em diante. A indefinição de Meirelles sobre o cargo que pretende disputar é muito ruim para Iris. É óbvio que o prefeito, como manda-chuva do PMDB goiano, tem a preferência absoluta para disputar o governo do Estado, mas até então não existia qualquer sombra sobre essa pretensão. Com Meirelles no PMDB, a sombra surgiu, e ela vai de Goiás até o Palácio do Planalto, em Brasília. É anotar pra conferir depois: até que Meirelles seja definido como candidato ao Senado (ou a deputado federal, como em 2002), sempre que se falar que Iris irá disputar o governo, alguém irá ressalvar que “também tem o Meirelles”.
É evidente que essa situação vai afetar a pré-campanha de Iris Rezende. Seus discursos, por exemplo, serão muito mais estudados e detalhados pelo mercado político. Qualquer frase que possa gerar uma segunda interpretação irá ganhar destaque de forma imediata. Uma frase banal e dentro de um velho chavão político/eleitoral como “o PMDB terá candidato forte ao governo”, ganhará versões. Qual seria essa tal candidatura forte? A de Iris, claro, mas também poderia ser a de Meirelles.
Mas a candidatura do banqueiro anapolino não era citada como fraca e sem chances? Claro que sim, mas contra Iris e Marconi. Sempre esteve muito evidente que essa condição melhoraria muito se Iris abrisse mão em seu favor. É por essa razão que a presença de Meirelles no PMDB vai atrapalhar esta pré-caminhada da candidatura de Iris muito mais do que poderá ajudar. Meirelles se transformou numa sombra de Iris. Daí a se transformar numa sombra bastante incômoda não é algo assim tão complicado. Vai depender, basicamente, da maneira como se dará a convivência do banqueiro dentro do PMDB.
Tudo é novidade. Meirelles, quanto voltou a Goiás para entrar no mundo dos votos, buscou o PSDB. Queria ser candidato ao Senado, e chegou a negociar essa condição em Brasília, com o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Agora, ao ensaiar retorno às urnas, desembarca no arquirrival PMDB, mas mantém o vínculo político com o Palácio do Planalto, sob a direção atual do PT.
Em tese, sua vida como candidato ao Senado não deverá ser tão complicada quanto foi em 2002 no PSDB. O PMDB parece absolutamente preparado para absorver sua pretensão e dar respaldo a ela. Há dissidências, mas pelo menos por enquanto elas não causam problemas mais sérios. Bem diferente da guerra tucana de 2002, quando uma militante antiga, Lúcia Vânia, também queria a vaga para o Senado — e a segunda estava endereçada ao DEM. Além disso, a coligação de Iris Rezende tenderia a ser muito menos competitiva internamente. Em 2002, o PSDB teve que manter espaços e abrir vagas na chapa principal para PP, DEM e para o próprio partido, além de convencer os demais aliados a se contentarem com chapas proporcionais. O PMDB de 2010 tem como certa apenas a aliança com o PT. Portanto, existem vagas sobrando na chapa principal.
E se o PR optar pelo eixo PMDB-PT? Sem problemas, ainda assim a vaga de Meirelles estaria garantida para candidatura ao Senado. O problema dele é somente para cima, ou seja, na disputa pelo governo do Estado. Para conseguir o direito de disputar contra Marconi Perillo, ele terá que solapar a candidatura de Iris. E aí é que entra a tal história da maneira como se dará a sua convivência interna.
Para Iris, o ideal seria Meirelles definir logo sua vida. Sob sua sombra, Iris irá sangrar até final de março pela dúvida que existirá permanentemente em relação à sua candidatura ao governo. Até porque não se pode desprezar que Meirelles tem a preferência absoluta do Palácio do Planalto. Para Brasília, Iris é quem está na reserva. Meirelles é o titular.
Ou não. Em se tratando de mister Meirelles, é melhor e mais adequado sempre adotar o estilo Caetano Veloso de ver a vida. Pode ser, mas pode não ser. Primeiro é confirmar filiação. Ou não. Depois, é esperar até março quando ele deixará a Presidência do Banco Central. Ou não. Se nem ele, Meirelles, sabe, como é que outro alguém poderá saber?
Escrito por Afonso Lopes às 22h29
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem, de 46 a 55 anos
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