Matéria - Jornal Opção - 04/10
PERDE E GANHA
Grupos festejam adesões
PSDB e PMDB, principalmente, além do PP fecharam o primeiro tempo da disputa de 2010 comemorando resultados de filiações
AFONSO LOPES
Vá lá que foi somente um pequeno aperitivo para as eleições do ano que vem, mas mesmo assim todos os grandes eixos, especialmente PSDB e PMDB, se movimentaram para cumprir o prazo final das filiações partidárias. Até o PP, do governador Alcides Rodrigues, posou como vitorioso. Agora, terá início a segunda fase da formatação eleitoral, com os novos filiados se situando dentro dos partidos. Só no PSDB é que não houve mudança substancial, o candidato a governador continua sendo o senador Marconi Perillo, mas também ele está reforçado.
É difícil dizer quem conseguiu se cacifar melhor para as eleições. Aparentemente, o PMDB, de Iris Rezende Machado, ficou com a carteira de filiações recheada por causa da adesão do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. É um nome de peso, sem dúvida, mas de pouca expressividade partidária. Tanto é verdade que ele andou o tempo todo frequentando as searas do PP, partido que em tese é francamente adversário do PMDB. Fora ele, o partido não soltou fogos para mais ninguém.
O PSDB respondeu com chumbo na mesma intensidade. Carlos Alberto Caoa e José Júnior, o Júnior do Friboi, somam bem mais do que Meirelles. Diante deles, até a carteira do presidente do BC fica menor. Os dois também não têm militância política e partidária. Ninguém sabe ao menos se serão candidatos a alguma coisa. Principalmente Carlos Caoa, o dono da Hyundai brasileira. Júnior diz por aí que está escalado para ocupar a vice na chapa de Marconi. Fechando o quadro de filiações, que o PSDB dividiu com o PTB, o ex-pepista Nédio Leite foi recebido com tapete vermelho, além dos ex-peemedebistas Benitez Calil e Valdivino de Oliveira. Em termos de militância e proximidade política, Valdivino é a jóia da coroa de filiações da temporada 2010.
O PP conseguiu atrair dois suplentes de deputado estadual do PSDB. Laudeni Lemes, esposa de ex-prefeito de Senador Canedo, e Evandro Magal, de Caldas Novas. Como estão no exercício do mandato, eles poderão enfrentar problemas na Justiça Eleitoral já que o diretório estadual do PSDB quer a manutenção dos mandatos para o partido com base na lei de fidelidade partidária. Para fechar em grande estilo, e depois de empenho pessoal do governador Alcides Rodrigues, o PP recebeu a ficha de filiação que sempre foi cobiçadíssima pelo partido, a do secretário da Fazenda, Jorcelino Braga.
Munição — Todos os possíveis candidatos ao governo no ano que vem deverão intensificar a movimentação a partir de agora que o quadro partidário está definido. Individualmente, nenhum partido consegue mais ganhar o Palácio das Esmeraldas, como nos velhos tempos de PMDB e PDS. Sem coligações, a tendência do isolamento é muito forte, e cria o pior dos mundos numa eleição.
O maior exemplo, e ainda muito vivo na memória de todos, do preço que um partido paga se mantendo isolado é o DEM. Em 2006, contra todas as advertências e desconfianças do mercado político estadual, o partido forçou a barra e se lançou sozinho na eleição. Amargou uma das maiores derrotas de sua história. Quatro anos antes, em 2002, na base do Tempo Novo, elegeu um senador e três deputados federais (Sandro Mabel, que logo depois saiu do DEM e assumiu o comando do PR em Goiás, Ronaldo Caiado e Vilmar Rocha). Em 2006, isolado, precisou somar votos de duas grandes lideranças, Caiado e Vilmar, para manter um único mandato. Demóstenes, candidato ao governo, até que começou a campanha numa situação confortável, com 22 pontos. Terminou em último entre os grandes.
Apesar de dobrar as resistências pessoais de Braga, o PP talvez encontre as maiores dificuldades para encarar realmente a disputa pelo governo do Estado. Existe muita conversa atualmente em torno de uma coligação PP-DEM-PR-PSB, mas tudo ainda é muito incerto. Além disso, não se conhece exatamente o poder de fogo do governo atual durante o processo eleitoral. O que se sabe é que a máquina administrativa, composta por um batalhão de 140 mil servidores, é francamente saudosista dos tempos de Marconi Perillo. Além disso, a presença importantíssima do DEM numa coligação como essa tiraria a conotação de segundo palanque lulista. Caso contrário, os democratas caminharão naturalmente em direção do PSDB.
O PR também é incógnita total. Trata-se de um pragmatismo mantido como dogma inquebrável. Sandro Mabel, que dá a orientação de rumos dentro do partido, começou a carreira pública como candidato do PMDB, então manda-chuva da política goiana. Depois, aderiu ao governo Marconi Perillo. Em 2006, namorou a terceira via de Barbosa Neto, PSB-PT, e acabou fechando com a base governista. Atualmente, o PR é integrante de todos os governos, federal, estadual e municipal. Por qual deles o PR optará? Vai saber...
Nanico da turma, o PSB não apresenta tanta densidade assim para crescer. O partido se resume a duas lideranças com boa capacidade de somar votos, o presidente Barbosa Neto, e a deputada estadual Betinha Tejota. Politicamente, ambos têm preferências conflitantes. Barbosa é hoje mais alcidista. Betinha permanece marconista.
No PMDB, há muito não se via tamanha excitação. Essa força vem quase toda ela de Iris Rezende Machado, mas ganhou mais cores com a conquista do passe de Henrique Meirelles. Iris é o candidato ao governo do Estado, mas passou a existir uma espada de Dâmocles sobre sua candidatura em função da presença de Meirelles. Teoricamente, o banqueiro anapolino é apenas candidato ao Senado, mas até o prefeito vem enchendo muito a bola dele ao afirmar que Meirelles poderá escolher o cargo que quiser.
De qualquer forma, a verdade é que Iris passou a ter um companheiro de chapa respeitável. De quebra, conseguiu definitivamente a bandeira do lulismo em Goiás, com todos os ônus e bônus que essa condição irá gerar nas eleições. O grande problema é que existem brasas dentro do partido dispostas a queimar qualquer possibilidade de troca de candidaturas, com Iris cedendo a vez para Meirelles. A dissidência não deixa de incomodar. Há também o fato de que, além do presidente do BC, o PMDB — e seu parceiro, o PT —, não teve o que mais comemorar.
Pelos lados do senador Marconi Perillo há muita festa. E com motivações concretas. A primeira delas foi o fiasco total da estratégia que tentou miná-lo junto à opinião pública nos últimos dois anos e meio. Sua popularidade permanece como sempre esteve. Além disso, o PSDB escapou da clausura em que estava sendo colocado pelo PP palaciano, e já fechou aliança suficiente para garantir-lhe distância segura de qualquer tipo de isolamento. Para fechar, ganhou os passes de Nédio Leite, do PP, Benitez Calil, do PMDB irista, e especialmente de Valdivino de Oliveira, ex-vice-prefeito de Goiânia e mago das finanças dos governos do Distrito Federal.
Valdivino merece um destaque. Além de ser muito bem estruturado partidária e politicamente, ele surge no cenário das eleições com potencial para se tornar um dos campeões de voto em 2010 para deputado federal. Somando tudo, ele ainda é presidente do Atlético Goianiense, um dos times favoritos para subir para a série A, a elite do futebol brasileiro. A torcida rubro-negra gosta de Valdivino por sua enorme capacidade de colocar ordem na casa. Pegou o Atlético praticamente quebrado e montou uma estrutura bem melhor do que a do Vila Nova, por exemplo. No PSDB, ele está se sentindo em casa.
Por fim, Marconi também poderá contar com uma bem azeitada candidatura do PSDB à Presidência da República. Hoje, caso o caldo não entorne dentro do ninho, a preferência nacional é pelo governador paulista José Serra. Mas isso não tem grande importância. Marconi mantém relações prá lá de amistosas com Serra ou com seu eventual substituto, o governador Aécio Neves, de Minas Gerais. Do outro lado, resta saber se Iris terá que carregar Dilma ou se ele poderá ser carregado por ela.
Escrito por Afonso Lopes às 13h04
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Conexão - Jornal Opção - 04/10
ELEIÇÕES 2010
O efeito futuro
É impossível antecipar quem vencerá o pleito do ano que vem, mas qualquer que seja o resultado haverá mudanças no curso futuro da história
Poucas vezes uma eleição representa um marco de rompimento com o presente em relação ao curso futuro da história. Em 1986, 1990 e 1994, por exemplo, tudo permaneceu exatamente como estava antes. Em 82, com a primeira eleição para governador após o período de indicações indiretas patrocinadas pelo regime ditatorial, quebrou-se o elo com o passado. Em 98, com a vitória da oposição ao então hegemônico PMDB, mais uma vez alterou-se o rumo. Em 2010, qualquer que seja o resultado, mais uma vez haverá um marco.
Mas o que, afinal, acontece de tão extraordinário que eleva uma rotineira eleição para a condição de momento definidor de rumos futuros? Claro que não se está falando da administração pública em si. Não é isso. A questão central é colocada sobre a roda imaginária do poder político. É nesse sentido que se altera a perspectiva do futuro.
Tome-se as duas eleições mais recentes em que isso se deu como fator de análise.
Em 1982, após uma sequência de governadores indicados indiretamente, Iris Rezende Machado foi eleito pela esmagadora maioria da população, no retorno das eleições diretas para governador. Esse fato, a vitória de Iris, alterou tudo o que se tinha até então.
O PDS, sucedâneo da Arena, que vinha da UDN e que hoje, após algumas fusões, é o PP, sumiu do mapa político. Suas bancadas parlamentares foram praticamente dizimadas. A esmagadora maioria de prefeitos e vereadores trocou a filiação partidária abandonando definitivamente o PDS aos próprios estertores.
A partir dessa vitória, o PMDB emplacou mais três mandatos consecutivos no Palácio das Esmeraldas. Nesses 16 anos, o partido dominou totalmente o cenário político estadual, sem permitir muitas brechas para a oposição.
Ao mesmo tempo em que reinava sozinho pela falta de adversários externos, o PMDB brigava feio internamente. Foi um período dificílimo. Primeiro, Mauro Borges Teixeira, o grande ícone do MDB nos tempos da resistência, foi-se embora. Depois, também saíram os ex-governadores Henrique Santillo e Irapuan Costa Júnior. Por último, o ex-prefeito de Goiânia Nion Albernaz.
Nas eleições de 1994 houve uma séria ameaça contra o poder peemedebista iniciado em 82. A oposição esteve muito perto de formar uma ampla aliança, mas acabou indo para as eleições divididas em duas candidaturas. De um lado, a deputada federal e ex-primeira-dama Lúcia Vânia e Nion Albernaz (Senado). Do outro, o deputado federal e ex-candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado e Paulo Roberto Cunha (Senado).
Sem poder contar com as grandes estrelas do passado, o PMDB, sob pleno domínio de Iris Rezende, foi com Maguito Vilela, então vice de Iris. Além dele, lançou também Mauro Miranda para o Senado. A vitória total só aconteceu no segundo turno, mas foi um capote total.
Em 1998, um novo marco se estabeleceu. Pela segunda vez na história recente de Goiás, as oposições ao PMDB pararam de brigar entre elas e centraram fogo no palácio peemedebista. O processo de união nasceu em Goiânia dois anos antes, mas por muito pouco a situação não degringolou.
Em Brasília, o então presidente Fernando Henrique Cardoso buscava a própria reeleição. Como o PMDB irista estava encravado dentro do seu governo, FHC orientou o PSDB de todos os Estados a acertar os ponteiros com o PMDB. Os tucanos de Goiás bem que tentaram um acordo, mas acabaram rechaçados pelos peemedebistas. Então, sem alternativa, o PSDB voltou a formar posição com DEM, PP e PTB.
Era uma eleição com muitos indicativos ruins para os dois lados. No PMDB, Iris Rezende atropelou a candidatura natural de Maguito Vilela à reeleição. Nas oposições, o desânimo diante do favoritismo palaciano era absoluto. Foi difícil até para encontrar um candidato disposto a ir para aquilo que todos davam como certo ser um matadouro político-eleitoral. No final, Marconi Perillo, que tinha uma reeleição para deputado federal considerada barbada, topou o risco.
A roda do poder em Goiás se moveu. A vitória de Marconi mudou completamente o eixo da importância política e até a forma de os governos se apresentarem diante da população. A substituição total da máquina peemedebista pela máquina oposicionista foi um movimento interno formidável dentro da administração, com reflexos na política como um todo. O PMDB ficou muito menor quase instantaneamente.
E o que haverá em 2010 de tão especial? Tudo. A roda mais uma vez dará um giro completo. Analisando rapidamente as possibilidades.
Se o líder das pesquisas atuais confirmar o favoritismo, Marconi iniciará um ciclo absolutamente novo. Os partidos que integrarão sua coligação provavelmente se estenderão dentro do poder central do Estado por mais oito anos, no mínimo, e com condições de estender seus domínios também em Goiânia, onde o Tempo Novo jamais venceu uma eleição — não contando a embrionária aliança oposicionista de 1996.
No PMDB, independentemente de vitória ou não de Iris Rezende Machado, se encerrará um ciclo de tempo e de poder. Certamente, o prefeito iniciará, como já o faz timidamente na prefeitura, maior transferência de poder tanto interno, no partido, como na administração. Nesse caso, com o projeto de Henrique Meirelles obtendo sucesso, haverá um novo cara forte no partido.
Para o PP, uma eventual candidatura bem-sucedida do secretário Jorcelino Braga determinará mudança total nos grupos historicamente perfilados eleitoralmente. Em caso de derrota, o PP fará muito se conseguir sobreviver após estes quatro anos.
Escrito por Afonso Lopes às 13h02
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem, de 46 a 55 anos
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