Conexão - Jornal Opção - 11/10
SUCESSÃO
Que baita confusão
Quando todo mundo achava que as coisas iriam serenar, PP e PSDB voltam a trocar “gentilezas”
Depois da definição do quadro partidário, com as filiações dos últimos possíveis candidatos às eleições do ano que vem, praticamente todo o mercado político estadual previa tempos de calmaria nas relações sempre tumultuadas entre PP e PSDB. Pois é, mas a tal previsão furou. Uma frase aqui, outra ali e tudo retornou ao velho quartel de Abrantes.
Existem incendiários e bombeiros nos dois lados, mas o poder de fogo da turma da gasolina é sempre muito maior. Aliás, gasolina é pouco. É nitroglicerina dentro da batedeira. Explode quase toda hora. Basta um olhar enviesado, um cumprimento menos efusivo e, pronto, começa tudo de novo.
Essa disputa entre bombeiros e incendiários não tem exatamente uma data para um dos lados se declarar vencedor, mas é absolutamente certo que não vai terminar empatada. Em tese, a convenção partidária colocaria ponto final nesse conflito. Pode ser, porém, que isso não ocorra.
A razão é simples. A escalada do ódio entre os incendiários dá pinta de ser totalmente irreversível. Ou seja, mesmo que as maiorias dos dois partidos optem por uma coligação, o que decretaria a vitória dos bombeiros, é muito pouco provável que os incendiários se transformem em fervorosos adeptos do revoar das pombas brancas. Se bobear, eles passam fogo nelas também, mesmo após as convenções.
O que isso significa? Que a turma dos baldes d´água deve ficar de plantão permanente. As chances para a paz são mínimas. E, por sinal, é até bom que seja assim caso prevaleça a tese de re-união entre PP e PSDB. Imagine como seria difícil aos incendiários explicarem publicamente uma mudança tão radical de pensamento e atuação. Não seria somente difícil, mas absolutamente impossível. Ficaria muito evidente a falta de sinceridade após tanto tempo de guerra.
Há uma pergunta que já foi muito importante nesse processo todo, mas que agora já não representa muita coisa além da mera curiosidade: o big-bang que fez surgir os incendiários. Em qual momento, e por qual motivo, rompeu-se a relação de confiança e companheirismo entre setores do PP e do PSDB. Hoje, muito mais importante para se entender a eterna crise é encontrar a resposta para um outro aspecto: por que a briga não contagiou as bases dos dois partidos e, ao menos aparentemente, permanece restrita a alguns setores das cúpulas? O inverso é muito menos raro nas relações entre os partidos, com os desencontros surgindo em naturais disputas localizadas e evoluindo até as cúpulas.
Outro ponto importante entre PP e PSDB é tentar descobrir qual dos lados, bombeiros ou incendiários, tem melhores possibilidades de vitória nas convenções do ano que vem. É muito difícil responder essa questão. Se dependesse única e exclusivamente das bases, é quase certo que os dois partidos sairiam unidos de suas convenções. Mas não depende. Cúpula não é cúpula por acaso do destino. Representa a elite dos partidos. E ninguém faz parte desse time sem exercer uma forte liderança.
No PSDB, os incendiários alegam que recompor com o PP seria ter que carregar os ônus do governo sem ter como faturar possíveis bônus. A explicação para isso é muito simples. Os bônus ficariam diluídos pela forte troca de chumbo grosso. Os bombeiros tucanos acreditam que as bases, nesse caso, ecoam muito mais do que as cúpulas durante a campanha eleitoral.
No PP, a turma da gasolina entende que não há mais nada para acertar com a cúpula do PSDB. Melhor caminhar sozinho do que mal acompanhado, o velho ditado, é pregado como mantra indiano. Já os bombeiros pepistas vêem as coisas de outra forma. Como é muito difícil, e absolutamente imprevisível, consolidar uma terceira via na política goiana, o melhor a se fazer é manter uma aliança que, desde que foi acertada, jamais perdeu uma só eleição.
Essas posições refletem com exatidão o sentimento que permeia PP e PSDB desde a cúpula até as bases. Os incendiários são realmente irreconciliáveis. Os bombeiros fazem tudo que é possível para não se deixarem envolver nessa guerra. E isso reconduz à questão: qual lado vencerá as convenções?
No PSDB as coisas são mais previsíveis. Se a ordem de cima for na direção do acordo, ela terá força de lei, mas o contrário não encontra a mesma ressonância. Suspeita-se que, em caso de rompimento formal, algumas alas do partido prefiram romper para garantir mais alguns meses de sobrevivência dentro da máquina administrativa comandada pelo PP. Se esse rompimento se desse agora, é quase certo que essas alas ainda seriam numerosas, embora localizada no terceiro escalão, que é justamente o setor mais frágil na escala. Quanto mais o tempo passar, menor elas serão.
Já o PP é um mistério total. Um rompimento decretado pela cúpula tem que ser exaustivamente trabalhado com muita antecedência. A sensação comum que se tem é que a maioria do partido não votaria pela declaração formal de guerra, e até mesmo uma candidatura própria encontraria certa resistência. Ou seja, para dobrar a espinha dos bombeiros pepistas, que infestam as bases, a cúpula incendiária terá que utilizar todo o poder de fogo palaciano. Ou então, correr o sério risco de perder a convenção, o que seria o caos absoluto.
É muito raro as cúpulas governistas perderem convenções. Enquanto rompimento total, isso ocorreu somente duas vezes desde a redemocratização, no início da década de 1980. Exatamente nessa época, o então governador Ary Valadão, o último eleito por via indireta desde então, lançou Brasílio Caiado à sua sucessão. Não deu. Na convenção, o PDS votou majoritariamente em Otávio Lage. Depois, na sucessão de Henrique Santillo, o Palácio bem que tentou brecar a candidatura de Iris Rezende Machado. Mas não teve como segurar o levante das bases do PMDB, infestadas e totalmente dominadas pelos iristas. Se bem que nesse episódio não se deu completamente a derrota do Palácio, já que faltou capacidade de articulação até para lançar um nome competitivo na convenção.
Há quem diga que PP e PSDB são como irmãos rivais e brigões dentro de uma mesma família. No fundo, a intenção dessa frase é sugerir que, mais cedo ou mais tarde, os dois estarão juntos novamente. Nem sempre o desfecho é feliz. Na primeira família que se tem notícia na história da humanidade, dois irmãos eram companheiros e tal. No fim, por ciúmes, Caim matou Abel.
Escrito por Afonso Lopes às 07h23
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