Conexão - Jornal Opção - 07/11/2009
O Twitter como arma
A rede social que alavancou a candidatura do presidente Barack Obama começa a ser utilizada em Goiás
Perto do nosso calendário eleitoral, as eleições americanas duram uma eternidade oficialmente. Primeiro os partidos correm Estado por Estado para definir as candidaturas. Depois, começa mais uma campanha, também aberta e acessível a todo o eleitorado e, aí sim, pra conquistar os votos necessários para a Presidência. Somando tudo, é mais de um ano de intensa campanha nas ruas, nos jornais e TVs.
Por aqui, é tudo muito mais complicado. A legislação anda cada vez mais restritiva e a lista do que não pode ser feito para conquistar votos vem crescendo ao longo dos anos. Os grandes comícios anabolizados por shows de cantores famosos estão fora. Aliás, não pode ter show nem com cantores famosos, nem com cantores anônimos. Nada. Aliás, como a legislação se estende aos shows, não interessa a natureza. Teatro de bonecos? Não pode. Teatro sem boneco? Também não. Circo? Necas. Rodeio de peão, vaquejadas... Tudo isso está fora da lei eleitoral. Lembrando ainda que distribuição de camisetas, bonés, canetas e demais badulaques também é proibida.
Fazendo as contas na ponta da caneta, a relação do que não pode ser utilizado numa campanha eleitoral no Brasil é muito maior do que a lista dos autorizados. Este ano, uma nova arma está livre, pelo menos por enquanto: a internet. Mesmo assim, com algumas restrições. Por exemplo, sites de empresas não poderão publicar anúncios pagos de nenhum candidato. A tentação por estender a proibição para muitos outros setores da internet foi grande. Uma das propostas era restringir seu uso ao período em que as campanhas podem ir para as ruas, em junho do ano que vem, após as convenções partidárias, e mesmo assim em páginas oficiais dos candidatos.
Esse conjunto com tantas regras nas eleições está, aos poucos, matando as campanhas. Antes, por exemplo, o período destinado ao chamado palanque eletrônico, no rádio e na TV, será de 60 dias. Na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) caiu para 45 dias. Já teve gente defendendo somente um mês. Além de menos tempo, o conteúdo também ficou sob vigilância. Computações gráficas não podem ser utilizadas nas chamadas pílulas, propagandas curtas e avulsas inseridas nas programações das emissoras ao longo do dia.
Quanto menos campanha, melhor para os velhos rostos conhecidos da política, que, quando bem avaliados, basta promover um bom recall para manterem seus postos eletivos. Isso vai do presidente da República aos vereadores, passando pelos senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais e prefeitos. Aos novatos, resta bancar campanhas muito mais caras, de tiro rápido.
Como nos Estados Unidos a vida política é muito diferente, as campanhas lá atravessam os meses incendiando as opiniões. E nisso passou a valer cada vez mais a criatividade. Não é por outro motivo que quase todos os modelos criados por lá acabam chegando por aqui. O mais recente deles é a rede social da internet Twitter, a que mais cresce em todo mundo, inclusive no Brasil.
Apesar de o site ser em inglês ou japonês (opção do usuário) qualquer brasileiro minimamente familiarizado com internet não encontra muitos problemas. O primeiro passo é abrir o navegador de internet (Internet Explorer e Firefox são os mais usados). Depois, digitar no campo apropriado (no alto da página) o endereço http://twitter.com. Na página inicial do Twitter, a inscrição (gratuita) é iniciada clicando o campo sign up now. Se preferir, o internauta nem precisa fazer essa inscrição para acompanhar o que algum tuiteiro, político, celebridade ou demais mortais anda escrevendo. A única exigência que existe para a inscrição no Twitter é ter um e-mail válido — que é por onde se aciona o mecanismo de validação. Cumpridas essas rapidíssimas etapas, qualquer pessoa está pronta para entrar na tal rede social que se tornou a grande febre da internet no mundo todo e que foi considerada como peça fundamental para a vitoriosa campanha de Barack Obama nos Estados Unidos.
Dentro do Twitter não há qualquer complicação, a não ser o fato de ter que expressar tudo o que quer em apenas 140 caracteres. A frase que você acabou de ler, por exemplo, tem 125 caracteres. Está quase no limite. Mas é também por esse motivo que essa rede social é o que é. Nada de textos longos e enfadonhos. É tudo curto, rápido e denso.
Todos os usuários podem escolher a quem irão seguir (following). Barack Obama (sim, ele continua no Twitter. Na sexta-feira à tarde, mais de 2 milhões e meio de pessoas acompanhavam tudo o que ele escrevia. Em média, o presidente dos Estados Unidos publica três ou quatro mensagens diariamente). José Serra e Aécio Neves (ambos PSDB), inúmeros deputados e prefeitos, podem ser encontrados no Twitter. Os goianos também estão lá.
O político de Goiás com maior número de leitores é o senador Demóstenes Torres (DEM), com mais de 4 mil seguidores. Em segundo lugar, já aparece o senador Marconi Perillo (PSDB), com 3 mil, depois que ele ultrapassou, na sexta-feira, 6, pela manhã o então vice-campeão, deputado Ronaldo Caiado (DEM), que caiu, portanto, para a terceira posição. Podem ser encontrados no Twitter inúmeros deputados estaduais — os mais ativos deles são Thiago Peixoto (PMDB) e Jardel Sebba (PSDB) — e federais, como Rubens Otoni (PT), além de Ronaldo Caiado.
A importância do Twitter já foi demonstrada na prática. No início da semana, o prefeito Iris Rezende (PMDB) concedeu entrevista ao jornal “O Popular” e pontuou críticas endereçadas ao rival Marconi Perillo. A resposta do tucano se deu exatamente pelo Twitter, e dominou o noticiário político nos jornais do dia seguinte.
O perfil (ou página) do prefeito Iris Rezende já está reservado, mas ainda não tem postagens (mensagens). Entre os declaradamente pré-candidatos, estão Marconi, Caiado, Otoni e Sandro Mabel, do PR, (este quase sem atuação). Para Barack Obama, o Twitter foi a melhor arma para conquistar a vaga de candidato pelo partido Democrata e, depois, para colocar fim à era Bush na Casa Branca.
Faltando ainda um ano para as eleições, e com tantas restrições às campanhas de ruas, a importância dessa rede social nas eleições tem tudo para se tornar cada vez maior, podendo ser o fator extra, a arma decisiva para a conquista do Palácio das Esmeraldas.
PS — O tema “Twitter como arma política” foi sugerido por seguidores de @a_fonso, meu perfil na grande rede, através de uma pesquisa instantânea. A interatividade é o grande show do Twitter.
Escrito por Afonso Lopes às 23h18
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Matéria - Jornal Opção - 07/11/2009
TERCEIRA VIA
Mas cadê o articulador?
Quem quer apoiar Marconi Perillo ou Iris Rezende sabe a quem procurar. E na 3ª via, falar com quem?
AFONSO LOPES
Os defensores de uma terceira linhagem eleitoral em Goiás para as próximas eleições, seja com interesse real de se contrapor à polarização Marconi Perillo/Iris Rezende Machado, seja o de melhorar as condições para qualquer composição futura com um desses dois eixos conflitados, garantem que a proposta é viável e não uma mera intenção aventureira. Pode até ser que a coisa engrene, mas até agora não há como botar muita fé nesse projeto. Fora os nomes que pululam entre lideranças expressivas, falta a figura do articulador, fundamental para a construção de um grupo realmente importante, expressivo e sedimentado. Em outras palavras, não há com quem dialogar e criar parceria nessa tal de terceira alternativa.
Teoricamente, o papel deveria ser desempenhado pelo governador Alcides Rodrigues, muito embora seja ele o único cidadão de Goiás que não poderá disputar o governo entre todos aqueles que se encontram habilitados legalmente para concorrer. Alcides, se quiser, terá que se contentar com outro cargo por força da legislação, que impede mais uma re-eleição ao cargo. Ainda assim, pela força do Palácio e pelo porte da caneta, a 3ª via poderia passar por ele. Mas as portas do Palácio são fechadas logo após o expediente, impedindo as boas conversas de articulação política.
Silêncio — Se não há qualquer movimentação no Palácio pela implantação real da 3ª via, do lado de fora a coisa só anda mesmo no campo das intenções. Cada possível partido integrante do que seria essa alternativa tem um comando isolado e que não está conseguindo avançar em nenhum ponto no sentido de montar a estrutura de apoio para esse objetivo. O problema aqui é muito mais de total falta de autoridade para estabelecer os critérios políticos para a elaboração de uma aliança como essa.
Não que o deputado federal Ronaldo Caiado, presidente regional do Democratas, ou o deputado federal Sandro Mabel, presidente do PR goiano, ambos líderes de bancadas na Câmara dos Deputados, em Brasília, não reúnam condições, estofo e liderança suficientes para centralizar esse tipo de articulação. O problema aqui é que não há sequer critérios para que isso seja feito. Assim, Caiado pode falar somente em nome e na defesa exclusiva dos interesses políticos/eleitorais do DEM, enquanto Mabel faz exatamente o mesmo pelo PR.
O que se percebe debruçando-se sobre a proposta de 3ª via é exatamente a falta de um objetivo real. Existem perguntas nesse caso que devem ser respondidas naturalmente para embalar o pacote. Como o porquê da criação de mais um eixo político-eleitoral. Esse negócio de dizer que é simplesmente para se contrapor à polarização entre Iris e Marconi não funciona. Além disso, também não há qualquer tipo de indicação sobre quem deverá representar essa aliança diante do eleitorado.
Essa questão de nomes para dar uma cara à 3ª via parece ser algo menos importante diante da causa como um todo. Não é. Ora, quem irá se definir por uma coisa como essa antes mesmo de saber para quem terá que pedir votos? Principalmente ao se perceber que o Palácio não tem nenhum grande articulador político neste momento. O único que havia nesse deserto era o deputado federal Roberto Balestra, que voltou para Brasília depois de ter sido repreendido publicamente pelo governador Alcides Rodrigues por defender a causa da união da base aliada histórica.
A soma de todos esses fatores é esse aí que está se vendo: muito falatório, muitas intenções, nenhuma concretização. A 3ª via não saiu do estágio pré-inicial. Enquanto isso, nas outras duas trincheiras políticas já estabelecidas, todo mundo sabe a quem procurar para acertar os ponteiros do relógio eleitoral. Numa delas está Iris Rezende. Na outra, Marconi Perillo.
Cabe aqui abordar a questão palaciana. Por que o governador Alcides Rodrigues não está no comando das articulações políticas da 3ª via? Existem dois aspectos que pesam nessa questão. Primeiro é de cunho pessoal. Alcides nunca foi um político de articulação. Ao contrário, ele apenas procurou sempre se colocar numa posição correta. Foi assim, por exemplo, que se tornou candidato a vice-governador em 1998. Em 2002, quando foi ameaçado dentro do próprio PP, manteve-se exatamente na mesma posição e conseguiu permanecer na posição. Não se tem qualquer notícia de que tenha articulado no PP ou fora dele para continuar vice. Em 2006, ao herdar a condição de candidato do chamado Tempo Novo, ele mais uma vez não se esforçou na articulação. Bastou não ter qualquer aresta para aparar, ao contrário, por exemplo, do deputado federal Leonardo Vilela, que trocou o PP pelo PSDB durante seu primeiro mandato, entre 2003 e 2006, gerando desconforto entre lideranças pepistas.
O segundo aspecto na ausência de Alcides nas articulações políticas da 3ª via é consequência da prática administrativa. Governos sem altíssimas doses energéticas de popularidade não são muito inclinados a coordenarem processos sucessórios. Por uma motivação básica: não há boa perspectiva de poder. A história recente de Goiás mostra um caso exemplar de situação como essa.
Em 1990, apesar de ser considerado um ótimo articulador e um político com inteiro domínio dos bastidores, o então governador Henrique Santillo (1987/1990, falecido em 2002) não conseguiu nem mesmo chegar às convenções do seu partido, o PMDB, com um candidato minimamente estabelecido. Seu governo, absorvido por dificuldades administrativas, era majoritariamente reprovado pela população. O resultado é que, em determinado momento, nem mesmo a oposição se encantava com seu apoio. Somente na reta final é que Paulo Roberto Cunha, um fenômeno que surgia no Sudoeste do Estado, saindo da iniciativa privada e conquistando dois mandatos em apenas quatro anos (deputado federal Constituinte em 1986 e prefeito de Rio Verde em 1988), aceitou certa aproximação com Santillo, mas sem muito alarde junto ao eleitorado.
Os episódios que marcaram as eleições de 1990 apresentam muitas correlações com o quadro atual. Pelo menos no que se refere ao espaço político do Palácio. É um espaço muito pequeno, apertadíssimo pela falta de perspectiva de poder e diante de dois adversários de liderança inquestionável. A questão, portanto, também passa pelo fato de que está se tentando construir uma alternativa contra dois possíveis candidatos extremamente fortes, consolidados e com excelentes perspectivas, que se rivalizam em cada conceito político e em todos os aspectos eleitorais. Em outras palavras, a 3ª via não deslancha também por estar sendo construída com os alicerces afundados num pântano diante de dois arranha-céus vistosos, admirados e muito bem fincados em terreno fértil. Aí, realmente, nada é fácil.
Tudo isso, claro, não é estático politicamente. É lógico que até o final de junho do ano que vem, último prazo para a realização das convenções partidárias, a 3ª via poderá se firmar. Mas, neste momento, não há qualquer indicação positiva de que isso irá mesmo acontecer. É por essa razão que muitos veem a tal alternativa como moeda de negociação política a ser apresentada como fatura diante dos dois outros eixos no momento adequado. Até lá, continuará essa lenga-lenga em que ninguém sabe ao menos com quem falar sobre 3ª via. Então, fala-se aos jornais.
Escrito por Afonso Lopes às 23h17
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O PS que faltou na Conexão
PS - Essa foi uma frase recorrente ("com as calças na mão") dentro do Palácio em meados de 1989 e frequentou várias vezes as páginas dos jornais. O final todos conhecem. O Palácio apostou "tudo", e perdeu até as calças.
Escrito por Afonso Lopes às 21h47
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Conexão - Jornal Opção - 01/11/2009
Perdição palaciana
Na ilusão gerada pelo exercício do poder surgem erros de avaliação da realidade política
Palácios podem muito, certo? Certíssimo. Sem reparos. O poder político representado pela conquista do Palácio é vastíssimo e se estende por todos os setores da sociedade. Então, por conclusão, o Palácio pode tudo quando a questão é política? Não, esse é exatamente o grande erro que se pode cometer. A velha frase de que o “Palácio pode muito, mas não pode tudo” é absolutamente real.
O governador Alcides Rodrigues (PP) caminha neste momento sobre essa tênue e frágil linha que separa o “muito” do “tudo”. Em tese, pelo menos até agora, as escaramuças do PP palaciano com o PSDB estão dentro dos limites que se poderia estabelecer para o “muito”. Apesar das caras enfezadas, das farpas e facadas, o processo continua dentro desse limite. Não se partiu para o irreal poder de “tudo”.
Então, está-se aqui dizendo que PP e PSDB voltarão aos dias de paz, união e amizade político-eleitoral? De maneira nenhuma. Os perímetros do “muito” vão além do que se imagina enquanto fato de limitação. Portanto, restabelecer a aliança com o PSDB ou não é apenas uma questão ligada à condução do processo, não o fator decisivo que determina o exato momento em que se extrapolam essas limitações.
Mas onde, afinal, estaria o “tudo” ilusório? No erro brutal de julgamento de que, a partir do poder palaciano, será possível alterar tão substancialmente fatos reais. Isso já ocorreu no governo atual. Durante três anos, o Palácio investiu tudo o que poderia investir para receber a filiação de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Foi um momento em que os palacianos imaginavam que “tudo” poderiam.
Há outro exemplo que mostra muito bem o contraste dessas limitações. Em meados de 2005, o Palácio fez “muito” para fortalecer um nome que pudesse herdar o apoio político e eleitoral do então governador Marconi Perillo. Chegou a fomentar positivamente pelo menos três pretendentes, e ao final sobreviveu apenas Leonardo Vilela. Apesar de ter feito “muito”, o Palácio não conseguir impor “tudo”. O lançamento da candidatura do então vice-governador Alcides Rodrigues determinou os tais limites.
É bem verdade que nem sempre os palacianos respeitam essa regra tão básica que separa o “muito” do “tudo”. Há outro claríssimo exemplo de rompimento dessa barreira na política goiana. Em 1989, em meio a uma crise sem tamanho, os palacianos do peemedebista Henrique Santillo, então governador (1987-1990, falecido em 2002), acreditaram que o Palácio poderia fazer “tudo” contra a candidatura de Iris Rezende. Não deu. No final da eleição, constatou-se que houve um erro grave de avaliação.
De agora em diante, será a vez do grande teste político dos atuais integrantes do Palácio. Talvez o episódio Meirelles tenha disparado o alarme da limitação desse poder. Pode ser também que isso não tenha ocorrido verdadeiramente. Há alguns sintomas de que tal episódio principiou divisões entre aqueles que ouviram as sirenes e os que continuam acreditando que, a partir do Palácio, “tudo” é possível. Fica a dúvida, sabe-se lá por quanto tempo, se irá prevalecer os bons de ouvido ou aqueles que se tornaram surdos pelo poder momentâneo.
Qualquer que seja a decisão majoritária do Palácio em relação às eleições do ano que vem, certamente será necessária uma altíssima dose de correta avaliação política. Se a opção for reconciliação dentro da base, então será necessário construir novamente as pontes destruídas ao longo dos últimos anos. Não há como fazer o caminho de volta por algum atalho. Todos eles levam ao naufrágio. Por outro lado, se a opção for pela construção de uma nova composição, igualmente será importante o estabelecimento de um método competente de aproximação. Imaginar que “tudo” será conseguido por força inercial é um erro brutal.
Palacianos têm afirmado constantemente que o PP irá construir uma terceira via ao lado do DEM, do PR e do PSB. No papel, não há qualquer impedimento. Esses quatro partidos têm direito, por exemplo, a substanciais 31% do tempo de campanha no rádio e na TV. É bem mais que a soma de PSDB-PPS-PTB, com 22%, e pouco menos que o eixo PMDB-PT, com 33,5%. O problema começa desse ponto em diante.
Com uma candidatura extremamente competitiva, a do senador Marconi Perillo, PSDB-PPS-PTB têm tempo suficiente para disputar as eleições sem muitos riscos em relação ao tempo disponível para a campanha eletrônica. As diferenças de porcentuais, que parecem enormes, na prática não são tão grandes. Se, por exemplo, Marconi somar 5 minutos, Iris terá menos de 1 minuto a mais do que ele.
Como Iris igualmente tem uma candidatura muito bem azeitada restaria à terceira via palaciana conseguir furar esse bloqueio criado pela polarização entre o peemedebista e o tucano. A grande interrogação existente é se o Palácio poderia promover uma reviravolta tão grande. Neste momento, é muito fácil responder a isso: claro que não. E é exatamente aí que entra o global da situação: até que ponto os palacianos conseguirão construir no futuro já não muito distante essa alternativa tão forte.
É por essa razão que, independentemente do caminho que será seguido, o Palácio corre riscos extraordinários. Se avaliar a situação tão bem quanto o fez no episódio Henrique Meirelles, o desastre total é certo. Até porque essa avaliação não foi boa, foi péssima. E baseada, possivelmente, no mundo ilusório do “tudo” palaciano. De qualquer forma, e como decisões não costumam ser tomadas com muita rapidez pelos atuais detentores do poder, talvez fosse o caso de iniciar imediatamente dois procedimentos. Um deles é a reconstrução das pontes. O outro é a abertura e aprofundamento dos canais de comunicação com outras composições políticas. Sem um e sem outro, o risco é terminar “com as calças na mão”.
Escrito por Afonso Lopes às 21h41
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matéria - Jornal Opção - 01/11/2009
PMDB 2010
É Iris. Ou nada
Presidente do Banco Central continua se imaginando dono do campo e da bola, mas se esquece de que o mais importante é o placar
AFONSO LOPES
O PMDB vivia sob céu de brigadeiro. Tranquilidade total. O prefeito Iris Rezende caminhava totalmente livre, leve e solto rumo às eleições de 2010 sem enfrentar maiores problemas internos. De repente, no último momento do prazo de filiação partidária para aqueles que querem disputar as eleições, no final de setembro, eis que o PMDB passa uma rasteira no PP palaciano e atrai o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para suas fileiras. Houve festa, foguetório e só. Alguns foguetes ainda espocavam quando Meirelles já embarcava para outros destinos. E não mais voltou até agora de forma oficial, com presença física e exposição pública. Provavelmente, junto, no avião que levou Meirelles de Goiânia, embarcou também a tranquilidade peemedebista.
De um momento para o outro, a candidatura do prefeito Iris Rezende passou a ser deliberadamente questionada fora e dentro do PMDB. Mesmo sendo uma situação surreal, com Iris passando dos 40% nas pesquisas e Meirelles beijando a lona com porcentual insignificante de intenções de voto, a pergunta que não mais se calou desde aquele final de setembro é sobre a candidatura do PMDB: Iris ou Meirelles?
Disputa — Apesar da farta liderança de Iris Rezende sobre Henrique Meirelles, é inegável certo clima de disputa interna. Inegável e de dificílima compreensão. Um é exatamente o oposto do outro em todos os sentidos, inclusive no aspecto administrativo. E não há qualquer vantagem pró-Meirelles em nenhum dos quesitos.
Politicamente, Iris é um professor pós-graduado. Meirelles ainda não deixou o ensino fundamental. Como aluno, claro. A trajetória política do prefeito de Goiânia é extensa e recheada de inúmeras demonstrações de profissionalismo. Quanto ao presidente do BC, a única passagem dele por um partido político não durou muito tempo. Ele se filiou ao PSDB ao deixar a direção do BankBoston e abandonou o partido antes mesmo de tomar posse como deputado federal.
Quando o assunto é experiência administrativa, mais uma vez não há como comparar Iris e Meirelles. O líder peemedebista foi prefeito de Goiânia na década de 1960, retornou à política dez anos após suspensão de seus direitos políticos pela ditadura militar (1964/1989) se elegendo governador em 1982. Depois, em 1990, foi eleito para um segundo mandato. Em 2004, voltou a vencer as eleições para a Prefeitura de Goiânia, e foi reeleito em 2008. Um portfólio inigualável em Goiás. Quanto a Meirelles, sua única experiência administrativa nunca teve nada a ver com o setor público. Ele foi presidente de um conglomerado financeiro norte-americano e é presidente do Banco Central do Brasil. Só. Nessas condições, ele jamais teve que optar por um ou outro investimento tendo de levar em conta os benefícios imediatos para a população. Seu negócio sempre foi o lucro, simplesmente.
Em termos de popularidade, mais uma vez Iris atropela Meirelles. O prefeito é um líder político que se situa entre os mais importantes de toda a história de Goiás, rivalizando-se com o passado, como Pedro Ludovico Teixeira e Totó Caiado, e com o presente, senador Marconi Perillo (PSDB). É claro que, como todos os grandes líderes, vez ou outra enfrenta mau humor de certos satélites que se imaginam com muito brilho. Nada diferente do que todos os demais líderes de expressão também se deparam vez ou outra. Meirelles não tem adversários. Sua liderança, jamais colocada realmente à prova nas ruas, é exercida apenas no seu setor de atuação, o mercado financeiro. Politicamente, tentou articular um grupo em 2002. Durou somente o processo eleitoral. Em 2005, quando muitos o imaginavam pronto para disputar o governo de Goiás, abandonou todo mundo e continuou cuidando de sua própria vida no Banco Central.
Se o nome de Iris permeia e se espraia em todos os setores sociais de Goiás, Meirelles circula somente nas chamadas altas rodas, de intelectuais ao grande PIB. Adversários de Iris costumam dizer que o prefeito é muito conhecido pela população, por isso mais popular nas pesquisas. Não é bem assim, não. A popularidade de Iris vem da sua essência político-administrativa. Já Meirelles, além de desconhecido da grande maioria do povo, não tem qualquer apelo popular.
Jogo baixo — O PMDB de Iris Rezende recebeu Henrique Meirelles com portas abertas, tapete vermelho e com total transparência. Nunca deixou de ficar bastante claro que a preferência para candidatura ao governo do Estado no ano que vem é dele, Iris. Apesar disso, e muito mais a título de prestigiar Meirelles, as lideranças iristas e o próprio prefeito sempre divulgaram que ele terá total liberdade de escolha quanto ao cargo que irá disputar em 2010.
Demonstrando sua total incapacidade de jogar politicamente, Meirelles nunca devolveu o afago público ao prefeito. Ele poderia, por exemplo, dizer que Iris tem a preferência para a disputa pelo governo por ser o maior líder do partido, por ter maior experiência, por ter construído uma carreira pública muito bem estruturada e etc e tal. Nunca fez isso. Ao contrário, nos bastidores, comenta-se que tem jogado batendo abaixo da linha da cintura.
Dois deputados federais do PMDB, Leandro Vilela e Marcelo Melo, ambos fora da órbita irista — o primeiro é sobrinho do prefeito Maguito Vilela e o segundo segue Joaquim Roriz —, atuam publicamente contra Iris Rezende. Nos bastidores, comenta-se que ambos atendem aos interesses de Meirelles. Recentemente, ao perceber que a dualidade das candidaturas no PMDB não pode durar muito tempo, Iris defendeu a antecipação do processo decisório interno para o mês de dezembro e não final de março, prazo estabelecido pela legislação para as desincompatibilizações. Leandro e Marcelo criticaram a ideia do prefeito e ainda acusaram Iris de manobrar para tirar Meirelles da disputa.
Há outros setores do PMDB, embora de atuação política extremamente restrita, dispostos a defender o jogo duplo que interessa a Meirelles. O objetivo é descarregar sobre Iris qualquer tipo de aspecto negativo. É uma tremenda bobagem. Se o PMDB optar por Meirelles, provavelmente a maior algazarra surgirá no outro exército, o do PSDB e seus aliados. Sem Iris Rezende, dificilmente o PMDB conseguirá alguma coisa positiva em 2010. É ver até onde vai esse jogo de Meirelles.
Escrito por Afonso Lopes às 09h03
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