Matéria - Jornal Opção - 10/01/2010
ELEIÇÕES 2010
Quem será o antigovernista?
Palácio das Esmeraldas promete viabilizar e lançar candidato oficial. Nesse caso, quem assumirá o discurso de oposição?
AFONSO LOPES
É sempre assim: toda ação tem uma reação e consequências. Nas disputas políticas, a aplicação da Lei de Newton é diária. Sempre existe uma ação, seja ela patrocinada por forças governistas ou pelas oposições. E, imediatamente ou não, aparecem as reações. Nesse confronto, surgem as consequências. Embora seja o cotidiano da política, esses episódios reverberam fortemente nos períodos eleitorais, durante e após a pré-campanha. Portanto, está-se diante da véspera de um conjunto de ações e reações na política goiana.
Já se sabe que o eixo PSDB-PTB e PPS terá a candidatura do senador Marconi Perillo ao governo. Além dessa definição, porém, não existe mais nada tão certo assim. As coisas estão muito bem avançadas no PMDB, mas sem qualquer indício pé-no-chão de que o processo não sofrerá solavancos de agora até o meio do ano, época em que o quadro eleitoral estará, até por força da legislação, completamente definido. Teoricamente, o candidato do eixo PMDB-PT será o prefeito Iris Rezende ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Teoricamente, repita-se. Isso aí é a tendência normalmente aceita e admitida internamente, mas está longe de apresentar caráter definitivo.
Se fosse realizar prévia para a escolha do candidato, Iris daria uma lavada em Meirelles logo nos primeiros votos apurados. Talvez, e aqui se trata somente de empirismo já que jamais foi realizada qualquer pesquisa com embasamento da ciência estatística neste caso, uma goleada de 8 ou 9 por 1. Quase uma unanimidade absoluta.
A questão é que o PMDB não vive clima de disputa externa abertamente. É evidente que isso existe, sim, mas em caráter velado, interno, nos bastidores. Conversando reservadamente na semana que passou com um velho conhecido, uma felpudíssima raposa irista do PMDB goiano disse o seguinte: “É um jogo, e não vamos entregar tudo o que conquistamos até agora de mão beijada para Meirelles, que não tem compromisso com ninguém. Ninguém sabe quem ele é, e o que faria se fosse eleito governador com o nosso apoio”. O que essa frase tem de significativo? Ela explica tudo o que ocorre nas entranhas de um jogo como esse que acontece no PMDB. Externamente, Meirelles tem a privilegiada posição de escolher qual cargo irá disputar. Internamente, há pressão para que ele não faça a pior escolha, a de governador.
Iris é candidato ao governo? Candidatíssimo. Só há um único fator que poderá levá-lo a pensar melhor sobre esse assunto: a posição de seus familiares. O prefeito jamais deixou de ouvir seus irmãos antes de pisar nas ruas como candidato. E também ouve muito seus filhos. Se surgir uma opinião praticamente unânime contra sua candidatura ao governo de Goiás, é certo que isso o levará à dúvida. Mas, pelo menos até agora, ninguém sabe de qualquer restrição dos familiares do prefeito. Ao contrário, dizem até que a animação é grande.
Pra se ter uma melhor ideia o quanto a família de Iris é levada em consideração nesses casos, basta recordar o que aconteceu em 1998 e em 2004. Na primeira, Iris era ministro da Justiça (governo de Fernando Henrique Cardoso), gozava de forte prestígio regional e tinha, finalmente, conseguido certa posição nacional. Há quem garanta que a decisão dele se candidatar a governador começou dentro de casa. Faz sentido. Em 2004, ao contrário, havia forte resistência dos irmãos de Iris para candidatura a prefeito de Goiânia. Ele foi o último candidato a se definir pela disputa. Aquela foi, possivelmente, a mais longa e eficiente preparação de uma candidatura de Iris Rezende entre todas as dez eleições que disputou. Os irmãos estavam por trás de tudo.
Candidatura oficial — Com as coisas definidas no eixo PSDB-PTB-PPS e bem encaminhadas no eixo PMDB-PT, resta saber como ficará o eixo que o Palácio das Esmeraldas pretende construir para a disputa. Tecnicamente, não há nada que inviabilize inicialmente uma operação como essa, mas não há muita facilidade.
Palácios são muito fortes nas estruturas política, partidária e eleitoral brasileira. Qualquer que seja ele, embora nem sempre isso signifique sucesso em ação desencadeada sem melhor planejamento. É este o risco atual.
Olhando do lado de fora e pelas grifes partidárias envolvidas, não há dúvida sobre o poder real que o eixo teria. Afinal, os últimos quatro dos grandes partidos nacionais estão todos lá: DEM, PP, PR e PSB. Ou seja, a vitrine é muito boa. Os problemas aqui são dois: primeiro, ter quem mostrar como candidato e, depois, enfrentar o que poderá ser um bombardeio durante a campanha. Pelo menos até agora, nem a primeira etapa conseguiu-se vencer.
Se há dificuldades em lançar um nome para enfrentar os dois maiores líderes políticos goianos da atualidade, pior será durante a campanha. Neste momento, a força palaciana esconde fragilidades e telhados envidraçados. Na campanha esse poder é anulado, e sempre surge um eixo poderoso em posição de ataque.
Mas qual dos dois eixos já estabelecidos será o representante da oposição? Inicialmente esse papel seria do PMDB, mas diante da crise no relacionamento entre lideranças palacianas e tucanas, não se sabe qual será a posição do PSDB.
Ambos terão farto discurso para os ataques. Para o PMDB isso seria feito até de forma muito natural dado o histórico de confronto com os atuais palacianos. Mas nem tudo é tão contra assim. Os republicanos, por exemplo, fazem parte da estrutura de poder no grande bunker político peemedebista de Goiás, a Prefeitura de Goiânia. Portanto, como atirar em cima sem atingir também a turma aqui de baixo? No PSDB, a munição sobra especialmente como um corretor de rumos em relação ao período 1999-2006, que deveria ter tido continuidade. Além desse fato, há a própria figura de Marconi Perillo e sua imagem enquanto candidato novamente. Se não jogar na oposição, ficará com dois prejuízos pesadíssimos: não gozará dos bônus palacianos, que certamente serão reservados para o candidato do novo eixo, e pagará pelos ônus eventuais.
Numa formatação eleitoral como essa, com três eixos sendo um deles oficial, a tendência será Marconi exercer um forte papel antigovernista enquanto Iris Rezende ficará mais contido, pensando principalmente num segundo turno contra o tucano. E o que restará ao candidato do eixo palaciano? Ele terá que descobrir algum caminho na selva da campanha. Pelo menos uma bandeira, que ajudou a vencer as eleições em 2006, vai ser difícil carregar desta vez: a do continuísmo. Mais do mesmo do que se tem possivelmente não será um bom cabo eleitoral para o candidato do Palácio. Qualquer que seja ele.
Escrito por Afonso Lopes às 06h35
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Conexão - Jornal Opção - 10/01/2010
Hora do balanço
Entre perdas e ganhos, as principais lideranças políticas de Goiás sobreviveram em 2009
Ao olhar sobre todos os fatos políticos de 2009, levando-se em conta as metas e objetivos para este 2010, percebe-se que nenhuma liderança conseguiu lucros e dividendos suficientes para se garantir previamente, e ninguém também somou prejuízos definitivamente comprometedores. Houve quem tenha lucrado mais do que perdido e quem raspou o lucro zero. Mas no final das contas a grande equação de 2009 ficou bem resolvida: todos sobreviveram, pelo menos.
A ala do PT do deputado federal Rubens Otoni perdeu a hegemonia esmagadora interna que tinha antes. E daí? Daí nada. O equilíbrio não o deixou fragilizado. Aliás, o crescimento do grupo liderado pelo também deputado federal Pedro Wilson apenas recoloca o PT dentro do formato que sempre esteve, de um partido em constante mudança interna. É o único partido de Goiás com essa característica.
Fora isso, o PT também não tem muito do que reclamar. É peça fundamental na formação do eixo de sustentabilidade de uma candidatura como a do prefeito Iris Rezende. Quer mais o quê, a Prefeitura de Goiânia? Pois fica com ela caso Iris realmente seja candidato a governador este ano. De quebra, leva a vice ou uma das duas vagas em disputa para o Senado.
O DEM, apesar das declarações do deputado federal Ronaldo Caiado de que o partido já se definiu pela formação de um eixo palaciano nas eleições deste ano, se transformou na nora que toda sogra gostaria de ter. Na verdade, não tem nada definido. A não ser as posições históricas, como não apoiar palanque de candidaturas do PT. Fora isso, o DEM permanece sem aliança de noivado.
É claro que parte do DEM tem uma queda pelo casamento dentro do eixo do PSDB. Isso é inegável. Mas e a outra parte? Inicialmente, não quer isso, mas o radicalismo nessa posição não tem mais a mesma força de outros tempos. É a tal cura do queijo. O resultado é esse que se percebe claramente: o DEM se transformou numa espécie de peso na balança. Se deixar, por exemplo, o eixo palaciano, será muito difícil que o tal projeto avance para uma candidatura própria, além de aumentar o poder de fogo da coligação liderada pelo PSDB, inclusive no que se refere ao tempo de campanha eletrônica, no rádio e na TV.
Ou seja, por sua posição nacional estratégica, e com essa condição bem trabalhada por aqui, o DEM garante vaga na disputa para o Senado, com a tentativa de reeleição do senador Demóstenes Torres, e ainda ganha o direito de sonhar com uma vaga de vice-governador. Sem falar que, em qualquer uma das duas coligações, terá possibilidade de muito melhor aproveitamento do quociente eleitoral do que teve em 2006, quando partiu para uma aventura solitária.
No PP, a aposta seca em Henrique Meirelles fez muitos estragos. Prejuízo realmente bastante sério e de grande monta politicamente, com imediatos reflexos na complexa operação de preparação do campo eleitoral. O partido passou três anos tecendo o tapete vermelho para a entrada triunfal e heróica do presidente do Banco Central. Na última semana, convites distribuídos para todas as famílias, o noivo resolveu romper a proposta de casamento e se mandou para o palácio do vizinho. Um autêntico deus-nos-acuda geral.
Se fosse apenas isso, talvez o PP não tivesse nada para comemorar. Mas tem. Primeiro pela confusão e certa dose de incerteza que passaram a ser vividas pelo PMDB. Olhando para o drama dos peemedebistas diante do enigma de possível candidatura de Meirelles, talvez os líderes do PP rememorem cada dia dos últimos três anos. Em segundo lugar, o Palácio conseguiu reagir ao baque ao se abrir totalmente para DEM e PR, parceiros da vida de solteiros. Criou um fato político.
Até onde isso vai ninguém sabe. Nem mesmo os envolvidos. Uma coisa é jurar de mãos juntas que haverá candidatura própria. Outra coisa é fazer isso sabendo que irá doer. Então, o PP que tinha Meirelles como única esperança, tem agora dependência total do desempenho do governo Alcides Rodrigues. Se decolar nem que seja meio metro do chão onde está, poderá trabalhar o eixo palaciano. Se não, restará a força do Palácio numa composição estratégica.
No PR as contas políticas do balanço 2009 são muito mais complicadas. Se a candidatura do governador Alcides Rodrigues ao Senado ganhasse empolgação, é claro que a possibilidade de o vice-governador Ademir Menezes assumir o comando do Palácio das Esmeraldas em pleno processo eleitoral renderia dividendos. Sem isso, não há o que somar. O deputado federal Sandro Mabel tem tentado se transformar num anti-Marconi, mas é um papel difícil para quem sempre foi governo e nunca frequentou a oposição.
Além disso, embora se fale muito mais sobre problemas pessoais entre Mabel e Caiado com Marconi, há um episódio lá atrás que gerou muitos ressentimentos políticos entre o próprio Caiado e Mabel. Nas eleições de 2002, o hoje republicano foi candidato a deputado federal e eleito pelo PFL-DEM. Logo depois abandonou o partido e se apoderou do PL-PR. Mabel saiu dizendo que o DEM tinha chefe. Caiado também bateu duro. Eles convivem, claro, mas será que um deles confiaria tanto assim no outro? Uma coisa é certa, desde aquela época essa confiança não precisou ser colocada à prova.
No PSDB, as coisas ficaram no fio da navalha. O partido continua dentro do governo de Alcides Rodrigues, mas é abertamente provocado quase todos os dias. Por duas conveniências, finge-se de morto. Primeiro porque desembarcar de posições palacianas sempre é algo traumático, dolorido. Depois, o PSDB não sai se não for mandado embora para não oferecer a menor possibilidade de ser acusado da paternidade do rompimento com o PP. Ou seja, ruim de um jeito, pior do outro. Então, vai ficando do jeito que está.
Em relação ao senador Marconi Perillo, sua situação é a mesma de sempre: candidato fortíssimo, e hoje inclusive com certo favoritismo, ao governo do Estado. Em 2009, seu maior lucro veio exatamente da falta de prejuízos, assim como aconteceu nos anos anteriores, desde 2007. Perseguido dia e noite pelos atiradores de elite dos variados matizes de adversários, desde Brasília até a Praça Cívica, passando pela Nova Vila (onde está localizada a Secretaria da Fazenda) e setor Marista (sede do diretório do PP), o tucano simplesmente não foi atingido. Além disso, como o bombardeio foi constante sem grande resultado, já não se imagina tanto poder de fogo para novos ataques.
Finalmente, o PMDB também fechou 2009 tendo muito mais a comemorar do que a lamentar. Vá lá que a administração de Goiânia aparentemente perdeu fôlego durante o segundo semestre do ano passado, mas nada muito comprometedor neste momento, embora tenha sido preparada lenha para os adversários queimarem na campanha, como o caso do zoológico. De qualquer forma, para o partido isso não importa tanto assim. Desde 1998 o PMDB não se apresenta tão bem no início de um ano eleitoral no Estado, e que inclui uma bem amarrada coligação com o PT. Manteve o lucro, portanto.
Quanto ao prefeito Iris Rezende, ele está em situação privilegiada do ponto de vista do eleitorado, é o segundo colocado, e em condições de disputar o governo do Estado, mas sua tranquilidade interna já foi melhor. A presença de Henrique Meirelles soa sempre como uma ameaça. Se fizer o que é necessário e atropelar a indefinição do presidente do BC, vai lucrar de um lado e perder do outro. Se deixar as coisas como elas estão, sem definições, continuará sangrando eleitoral e politicamente até pelo menos o mês de março. Teoricamente, um deles, o prefeito ou o presidente do BC, continuará no cargo, inviabilizando-se para a eleição. Ou não. Se ambos deixarem seus cargos, a guerra de nervos poderá continuar até o meio do ano. Aja resistência.
Escrito por Afonso Lopes às 06h33
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, Homem, de 46 a 55 anos
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