Matéria - Jornal Opção - 10/01/2010
ELEIÇÕES 2010
Quem será o antigovernista?
Palácio das Esmeraldas promete viabilizar e lançar candidato oficial. Nesse caso, quem assumirá o discurso de oposição?
AFONSO LOPES
É sempre assim: toda ação tem uma reação e consequências. Nas disputas políticas, a aplicação da Lei de Newton é diária. Sempre existe uma ação, seja ela patrocinada por forças governistas ou pelas oposições. E, imediatamente ou não, aparecem as reações. Nesse confronto, surgem as consequências. Embora seja o cotidiano da política, esses episódios reverberam fortemente nos períodos eleitorais, durante e após a pré-campanha. Portanto, está-se diante da véspera de um conjunto de ações e reações na política goiana.
Já se sabe que o eixo PSDB-PTB e PPS terá a candidatura do senador Marconi Perillo ao governo. Além dessa definição, porém, não existe mais nada tão certo assim. As coisas estão muito bem avançadas no PMDB, mas sem qualquer indício pé-no-chão de que o processo não sofrerá solavancos de agora até o meio do ano, época em que o quadro eleitoral estará, até por força da legislação, completamente definido. Teoricamente, o candidato do eixo PMDB-PT será o prefeito Iris Rezende ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Teoricamente, repita-se. Isso aí é a tendência normalmente aceita e admitida internamente, mas está longe de apresentar caráter definitivo.
Se fosse realizar prévia para a escolha do candidato, Iris daria uma lavada em Meirelles logo nos primeiros votos apurados. Talvez, e aqui se trata somente de empirismo já que jamais foi realizada qualquer pesquisa com embasamento da ciência estatística neste caso, uma goleada de 8 ou 9 por 1. Quase uma unanimidade absoluta.
A questão é que o PMDB não vive clima de disputa externa abertamente. É evidente que isso existe, sim, mas em caráter velado, interno, nos bastidores. Conversando reservadamente na semana que passou com um velho conhecido, uma felpudíssima raposa irista do PMDB goiano disse o seguinte: “É um jogo, e não vamos entregar tudo o que conquistamos até agora de mão beijada para Meirelles, que não tem compromisso com ninguém. Ninguém sabe quem ele é, e o que faria se fosse eleito governador com o nosso apoio”. O que essa frase tem de significativo? Ela explica tudo o que ocorre nas entranhas de um jogo como esse que acontece no PMDB. Externamente, Meirelles tem a privilegiada posição de escolher qual cargo irá disputar. Internamente, há pressão para que ele não faça a pior escolha, a de governador.
Iris é candidato ao governo? Candidatíssimo. Só há um único fator que poderá levá-lo a pensar melhor sobre esse assunto: a posição de seus familiares. O prefeito jamais deixou de ouvir seus irmãos antes de pisar nas ruas como candidato. E também ouve muito seus filhos. Se surgir uma opinião praticamente unânime contra sua candidatura ao governo de Goiás, é certo que isso o levará à dúvida. Mas, pelo menos até agora, ninguém sabe de qualquer restrição dos familiares do prefeito. Ao contrário, dizem até que a animação é grande.
Pra se ter uma melhor ideia o quanto a família de Iris é levada em consideração nesses casos, basta recordar o que aconteceu em 1998 e em 2004. Na primeira, Iris era ministro da Justiça (governo de Fernando Henrique Cardoso), gozava de forte prestígio regional e tinha, finalmente, conseguido certa posição nacional. Há quem garanta que a decisão dele se candidatar a governador começou dentro de casa. Faz sentido. Em 2004, ao contrário, havia forte resistência dos irmãos de Iris para candidatura a prefeito de Goiânia. Ele foi o último candidato a se definir pela disputa. Aquela foi, possivelmente, a mais longa e eficiente preparação de uma candidatura de Iris Rezende entre todas as dez eleições que disputou. Os irmãos estavam por trás de tudo.
Candidatura oficial — Com as coisas definidas no eixo PSDB-PTB-PPS e bem encaminhadas no eixo PMDB-PT, resta saber como ficará o eixo que o Palácio das Esmeraldas pretende construir para a disputa. Tecnicamente, não há nada que inviabilize inicialmente uma operação como essa, mas não há muita facilidade.
Palácios são muito fortes nas estruturas política, partidária e eleitoral brasileira. Qualquer que seja ele, embora nem sempre isso signifique sucesso em ação desencadeada sem melhor planejamento. É este o risco atual.
Olhando do lado de fora e pelas grifes partidárias envolvidas, não há dúvida sobre o poder real que o eixo teria. Afinal, os últimos quatro dos grandes partidos nacionais estão todos lá: DEM, PP, PR e PSB. Ou seja, a vitrine é muito boa. Os problemas aqui são dois: primeiro, ter quem mostrar como candidato e, depois, enfrentar o que poderá ser um bombardeio durante a campanha. Pelo menos até agora, nem a primeira etapa conseguiu-se vencer.
Se há dificuldades em lançar um nome para enfrentar os dois maiores líderes políticos goianos da atualidade, pior será durante a campanha. Neste momento, a força palaciana esconde fragilidades e telhados envidraçados. Na campanha esse poder é anulado, e sempre surge um eixo poderoso em posição de ataque.
Mas qual dos dois eixos já estabelecidos será o representante da oposição? Inicialmente esse papel seria do PMDB, mas diante da crise no relacionamento entre lideranças palacianas e tucanas, não se sabe qual será a posição do PSDB.
Ambos terão farto discurso para os ataques. Para o PMDB isso seria feito até de forma muito natural dado o histórico de confronto com os atuais palacianos. Mas nem tudo é tão contra assim. Os republicanos, por exemplo, fazem parte da estrutura de poder no grande bunker político peemedebista de Goiás, a Prefeitura de Goiânia. Portanto, como atirar em cima sem atingir também a turma aqui de baixo? No PSDB, a munição sobra especialmente como um corretor de rumos em relação ao período 1999-2006, que deveria ter tido continuidade. Além desse fato, há a própria figura de Marconi Perillo e sua imagem enquanto candidato novamente. Se não jogar na oposição, ficará com dois prejuízos pesadíssimos: não gozará dos bônus palacianos, que certamente serão reservados para o candidato do novo eixo, e pagará pelos ônus eventuais.
Numa formatação eleitoral como essa, com três eixos sendo um deles oficial, a tendência será Marconi exercer um forte papel antigovernista enquanto Iris Rezende ficará mais contido, pensando principalmente num segundo turno contra o tucano. E o que restará ao candidato do eixo palaciano? Ele terá que descobrir algum caminho na selva da campanha. Pelo menos uma bandeira, que ajudou a vencer as eleições em 2006, vai ser difícil carregar desta vez: a do continuísmo. Mais do mesmo do que se tem possivelmente não será um bom cabo eleitoral para o candidato do Palácio. Qualquer que seja ele.
Escrito por Afonso Lopes às 06h35
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Conexão - Jornal Opção - 10/01/2010
Hora do balanço
Entre perdas e ganhos, as principais lideranças políticas de Goiás sobreviveram em 2009
Ao olhar sobre todos os fatos políticos de 2009, levando-se em conta as metas e objetivos para este 2010, percebe-se que nenhuma liderança conseguiu lucros e dividendos suficientes para se garantir previamente, e ninguém também somou prejuízos definitivamente comprometedores. Houve quem tenha lucrado mais do que perdido e quem raspou o lucro zero. Mas no final das contas a grande equação de 2009 ficou bem resolvida: todos sobreviveram, pelo menos.
A ala do PT do deputado federal Rubens Otoni perdeu a hegemonia esmagadora interna que tinha antes. E daí? Daí nada. O equilíbrio não o deixou fragilizado. Aliás, o crescimento do grupo liderado pelo também deputado federal Pedro Wilson apenas recoloca o PT dentro do formato que sempre esteve, de um partido em constante mudança interna. É o único partido de Goiás com essa característica.
Fora isso, o PT também não tem muito do que reclamar. É peça fundamental na formação do eixo de sustentabilidade de uma candidatura como a do prefeito Iris Rezende. Quer mais o quê, a Prefeitura de Goiânia? Pois fica com ela caso Iris realmente seja candidato a governador este ano. De quebra, leva a vice ou uma das duas vagas em disputa para o Senado.
O DEM, apesar das declarações do deputado federal Ronaldo Caiado de que o partido já se definiu pela formação de um eixo palaciano nas eleições deste ano, se transformou na nora que toda sogra gostaria de ter. Na verdade, não tem nada definido. A não ser as posições históricas, como não apoiar palanque de candidaturas do PT. Fora isso, o DEM permanece sem aliança de noivado.
É claro que parte do DEM tem uma queda pelo casamento dentro do eixo do PSDB. Isso é inegável. Mas e a outra parte? Inicialmente, não quer isso, mas o radicalismo nessa posição não tem mais a mesma força de outros tempos. É a tal cura do queijo. O resultado é esse que se percebe claramente: o DEM se transformou numa espécie de peso na balança. Se deixar, por exemplo, o eixo palaciano, será muito difícil que o tal projeto avance para uma candidatura própria, além de aumentar o poder de fogo da coligação liderada pelo PSDB, inclusive no que se refere ao tempo de campanha eletrônica, no rádio e na TV.
Ou seja, por sua posição nacional estratégica, e com essa condição bem trabalhada por aqui, o DEM garante vaga na disputa para o Senado, com a tentativa de reeleição do senador Demóstenes Torres, e ainda ganha o direito de sonhar com uma vaga de vice-governador. Sem falar que, em qualquer uma das duas coligações, terá possibilidade de muito melhor aproveitamento do quociente eleitoral do que teve em 2006, quando partiu para uma aventura solitária.
No PP, a aposta seca em Henrique Meirelles fez muitos estragos. Prejuízo realmente bastante sério e de grande monta politicamente, com imediatos reflexos na complexa operação de preparação do campo eleitoral. O partido passou três anos tecendo o tapete vermelho para a entrada triunfal e heróica do presidente do Banco Central. Na última semana, convites distribuídos para todas as famílias, o noivo resolveu romper a proposta de casamento e se mandou para o palácio do vizinho. Um autêntico deus-nos-acuda geral.
Se fosse apenas isso, talvez o PP não tivesse nada para comemorar. Mas tem. Primeiro pela confusão e certa dose de incerteza que passaram a ser vividas pelo PMDB. Olhando para o drama dos peemedebistas diante do enigma de possível candidatura de Meirelles, talvez os líderes do PP rememorem cada dia dos últimos três anos. Em segundo lugar, o Palácio conseguiu reagir ao baque ao se abrir totalmente para DEM e PR, parceiros da vida de solteiros. Criou um fato político.
Até onde isso vai ninguém sabe. Nem mesmo os envolvidos. Uma coisa é jurar de mãos juntas que haverá candidatura própria. Outra coisa é fazer isso sabendo que irá doer. Então, o PP que tinha Meirelles como única esperança, tem agora dependência total do desempenho do governo Alcides Rodrigues. Se decolar nem que seja meio metro do chão onde está, poderá trabalhar o eixo palaciano. Se não, restará a força do Palácio numa composição estratégica.
No PR as contas políticas do balanço 2009 são muito mais complicadas. Se a candidatura do governador Alcides Rodrigues ao Senado ganhasse empolgação, é claro que a possibilidade de o vice-governador Ademir Menezes assumir o comando do Palácio das Esmeraldas em pleno processo eleitoral renderia dividendos. Sem isso, não há o que somar. O deputado federal Sandro Mabel tem tentado se transformar num anti-Marconi, mas é um papel difícil para quem sempre foi governo e nunca frequentou a oposição.
Além disso, embora se fale muito mais sobre problemas pessoais entre Mabel e Caiado com Marconi, há um episódio lá atrás que gerou muitos ressentimentos políticos entre o próprio Caiado e Mabel. Nas eleições de 2002, o hoje republicano foi candidato a deputado federal e eleito pelo PFL-DEM. Logo depois abandonou o partido e se apoderou do PL-PR. Mabel saiu dizendo que o DEM tinha chefe. Caiado também bateu duro. Eles convivem, claro, mas será que um deles confiaria tanto assim no outro? Uma coisa é certa, desde aquela época essa confiança não precisou ser colocada à prova.
No PSDB, as coisas ficaram no fio da navalha. O partido continua dentro do governo de Alcides Rodrigues, mas é abertamente provocado quase todos os dias. Por duas conveniências, finge-se de morto. Primeiro porque desembarcar de posições palacianas sempre é algo traumático, dolorido. Depois, o PSDB não sai se não for mandado embora para não oferecer a menor possibilidade de ser acusado da paternidade do rompimento com o PP. Ou seja, ruim de um jeito, pior do outro. Então, vai ficando do jeito que está.
Em relação ao senador Marconi Perillo, sua situação é a mesma de sempre: candidato fortíssimo, e hoje inclusive com certo favoritismo, ao governo do Estado. Em 2009, seu maior lucro veio exatamente da falta de prejuízos, assim como aconteceu nos anos anteriores, desde 2007. Perseguido dia e noite pelos atiradores de elite dos variados matizes de adversários, desde Brasília até a Praça Cívica, passando pela Nova Vila (onde está localizada a Secretaria da Fazenda) e setor Marista (sede do diretório do PP), o tucano simplesmente não foi atingido. Além disso, como o bombardeio foi constante sem grande resultado, já não se imagina tanto poder de fogo para novos ataques.
Finalmente, o PMDB também fechou 2009 tendo muito mais a comemorar do que a lamentar. Vá lá que a administração de Goiânia aparentemente perdeu fôlego durante o segundo semestre do ano passado, mas nada muito comprometedor neste momento, embora tenha sido preparada lenha para os adversários queimarem na campanha, como o caso do zoológico. De qualquer forma, para o partido isso não importa tanto assim. Desde 1998 o PMDB não se apresenta tão bem no início de um ano eleitoral no Estado, e que inclui uma bem amarrada coligação com o PT. Manteve o lucro, portanto.
Quanto ao prefeito Iris Rezende, ele está em situação privilegiada do ponto de vista do eleitorado, é o segundo colocado, e em condições de disputar o governo do Estado, mas sua tranquilidade interna já foi melhor. A presença de Henrique Meirelles soa sempre como uma ameaça. Se fizer o que é necessário e atropelar a indefinição do presidente do BC, vai lucrar de um lado e perder do outro. Se deixar as coisas como elas estão, sem definições, continuará sangrando eleitoral e politicamente até pelo menos o mês de março. Teoricamente, um deles, o prefeito ou o presidente do BC, continuará no cargo, inviabilizando-se para a eleição. Ou não. Se ambos deixarem seus cargos, a guerra de nervos poderá continuar até o meio do ano. Aja resistência.
Escrito por Afonso Lopes às 06h33
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Artigo - Diário da Manhã - 04/01/2010
A tática suicida do governo04/01/2010
A nova rodada da pesquisa Ecope/Diário da Manhã, publicada na última quinta-feira, 31, constitui-se no maior e mais detalhado levantamento estatístico realizado até aqui em Goiás a respeito das eleições para governador. Foram ouvidos quase sete mil eleitores em nada menos que 50 cidades do interior e na capital ao longo de 15 dias de dezembro. Ou seja, foi uma pesquisa de fôlego longo, completa, pormenorizada. Daí a margem de erro inferior a dois pontos percentuais, 1,8% para ser exato, admitida pelo Ecope. É a menor entre todas as pesquisas realizadas até hoje.
E o que as tabelas de percentuais revelaram? Nada que o mundo político, e aqui se inclui todos os partidos e suas lideranças e bases, não soubesse: o senador Marconi Perillo, do PSDB, lidera com ampla margem as intenções de voto para governador. Com tanta folga na liderança que é permitido afirmar que, se as eleições tivessem sido realizadas em dezembro, Marconi seria eleito governador já no 1º turno.
Também esse fato, a possibilidade de o virtual candidato tucano vencer as eleições sem necessidade de 2º turno, igualmente não se constitui numa novidade. Desde meados de 2009, quando todos os partidos de Goiás, especialmente os grandes e mais representativos, começaram a natural movimentação interna para criar a ambientação política para as eleições deste ano, com reflexos evidentes em parcelas cada vez maiores da população “externa”, percebeu-se que Marconi liderava a preferência do eleitorado em geral.
Naquele momento sim, metade de 2009, essa liderança do tucano era uma grande surpresa. Muitos não acreditavam que Marconi mantinha tanto respaldo popular depois de sofrer o mais terrível, arrasador e longo período de sistemáticos ataques contra aquilo que se convencionou chamar de seu “patrimônio político”. E não há dúvida sobre a grandeza desse tal patrimônio.
Um rápido olhar sobre a campanha de 2006 dimensiona com exatidão essa simbiose criada por Marconi com a esmagadora maioria da população de Goiás. Jamais, até então, Goiás tinha visto uma campanha em que até o principal candidato oposicionista, o hoje prefeito de Aparecida, Maguito Vilela, se recusava de forma peremptória a atacar as ações administrativas e políticas dos governos do tucano. Mais além, igualmente é feito inédito um candidato a governador com baixíssima expressividade popular sair de índices insignificantes nas pesquisas e chegar a uma consagradora vitória por prometer de maneira escancarada e sem nenhum constrangimento apenas e tão somente dar continuidade ao que estava sendo administrativamente realizado. Para fechar esta análise sobre o elo de confiança estabelecido por Marconi em seus governos com a população, basta dizer que ele é o único político de Goiás a receber mais de 2 milhões de votos numa única eleição.
Apesar de todos os ataques que sofre desde janeiro de 2007, as pesquisas de todos os institutos, em todas as possibilidades simuladas, mostram que o tucano continua sendo o grande favorito deste novo ano. Aliás, conforme o Ecope, favoritismo que continua em crescimento. Até onde isso vai não se sabe, mas é inegável que permanece como dantes apesar da política de destruição praticada pelo atual grupo que ocupa o poder. É uma tática suicida, simplesmente, que tem se revelado derrotada.
Não há outro sentido político ou eleitoral naquilo que o Palácio das Esmeraldas continua patrocinando e incentivando: o objetivo não é o de vencer, mas o de tentar impedir que o povo eleja Marconi novamente. É a estúpida tese de que existe alguma forma meritória de se colher uma derrota. É isso que o grupo que ora ocupa o poder tenta plantar. Uma derrota. Nada, além disso. Afonso Lopes é jornalista.
Escrito por Afonso Lopes às 17h08
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Conexão - Jornal Opção - 03/01/2010
LENDAS POLÍTICAS
Lula tem ódio de Marconi. Tem mesmo?
Até onde é autêntica a versão de que o presidente visa derrotar o tucano por motivo pessoal
Algumas mentiras se tornam absolutas diante do silêncio. Silêncio que, na maioria das vezes, é somente conveniência. No mundo da política isso é o que mais se vê. Cria-se uma situação, altera-se a substância, aplica-se com alguma competência de dissimulação dos reais interesses não confessados e... pronto, eis uma nova verdade quentinha, saindo do forno e sendo vendida como pão na padaria.
Não faltariam exemplos para citar aqui. No Brasil todo. Aliás, em todo o planeta. Desde a velha Rússia, quando os czares do comunismo sumiam com protagonistas nas fotos oficiais até na clandestina luta quase armada do Brasil, onde guerrilheiros eram mortos desarmados em grandes “tiroteios”. Mas, fiquemos em Goiás para tornar os fatos mais próximos de todos. Falemos, como mero exemplo, de Henrique Santillo, governador entre 1987 e 1990.
Para muitos, ainda hoje, Santillo morreu como “dono” de hospital construído durante o seu governo na cidade paulista de Ribeirão Preto. Uma mentira sórdida criada nos porões de seus adversários políticos, mas firmemente plantada no dia-a- dia de milhões de goianos desavisados.
Me lembro muito bem daqueles tempos. Era apresentador do Goiânia Urgente, programa líder de audiência na capital e transmitido pela “TV Goyá” (hoje, “Record”). Também atuava nos jornais “Diário da Manhã”, “Jornal da Segunda” (hoje, “Tribuna do Planalto”) e rádio “Jornal de Goiás”. Um dos companheiros dessas redações era Luiz Carlos Bordoni.
A coisa ganhou tal proporção, com o “hospital do Santillo” servindo como prova irrefutável da corrupção do governador, que Bordoni foi atrás das provas materiais. Embarcou em Goiânia e desembarcou em Ribeirão Preto. Andou alguns dias naquela cidade. Vasculhou cartórios de imóveis, entidades representantivas dos médicos e construtoras. Descobriu que durante os anos de governo de Henrique Santillo Ribeirão Preto não construiu um único hospital particular novo. Ou seja, o “hospital do Santillo” simplesmente jamais existiu. Pelo menos, no mundo real.
Foi uma mentira dessas que considero absolutas e que conquistam, sabe-se lá por que, credibilidade inquestionável. Não é a única, reafirmo. Estou cansado de me deparar no mundo político com “fatos inquestionáveis” que se revelam frágeis, débeis, totalmente furados desde que postos sob raciocínio frio e distante. Uma delas está em curso: a propalada ira/fúria doentia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em caráter pessoal, contra o senador Marconi Perillo.
Não acredito nessa história. Para mim, trata-se de uma dessas versões que só se mantém graças ao silêncio formado pela conveniência. Lula não desmente isso apenas porque atende a interesses políticos de pessoas ligadas a ele. Como não lhe faz mal essa versão, deixa-a solta ao vento em Goiás como se verdade fosse. Mas antes de colocar esse “ódio” todo sob forte questionamento, ressalte-se aqui que nunca se ouviu da boca do presidente, ao menos publicamente, que ele tem Marconi entravado na sua garganta, que não o engole nem com reza.
A versão dessa história é simples. Marconi confirmou que avisou Lula de que havia “mensalão” no seu primeiro governo, e que esse “mensalão” teria tentado tirar uma deputada federal do PSDB. Esse é o fato verídico. Aconteceu realmente. Foi em Rio Verde, um ano antes do deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, colocar o trombone para ribombar sobre o “mensalão”.
Agora, a versão do desdobramento. Por conta disso, de Marconi o ter avisado e ter informado isso à imprensa, Lula passou a eleger o tucano como seu inimigo público número 1. O homem a ser cruelmente esmagado pelo seu ódio.
Vamos ao mundo real. Primeiro, é verdade que Lula quer derrotar Marconi Perillo. Para tanto, dedicará não mais que 10 minutos de seu precioso tempo sucessório a esse tema. Não por ódio a ele, mas por se situarem em campos opostos. Marconi é Serra (ou qualquer outro candidato do PSDB), e Lula é Dilma (pelo menos, por enquanto). Lula quer frente unida em Goiás para somar mais votos para o seu candidato à Presidência da República, e não para derrotar Marconi. Se conseguir os dois, melhor. Se não, basta apenas cumprir o primeiro objetivo.
E por que Lula dedicaria seus preciosos 10 minutos de suas preocupações sucessórias a Goiás? Por simples soma eleitoral. Em 2006, em sua reeleição, Lula perdeu de Geraldo Alckmim em alguns Estados e suas capitais. Em Goiás e em Goiânia. E o grande cabo eleitoral do tucano no 1º turno foi Marconi. Então, o que preocupa Lula realmente são os votos para Dilma, e não os votos, ou seu “ódio”, a Marconi.
Para aqueles que continuam, apesar das fortes e inquestionáveis evidências, acreditando que Lula odeia Marconi, falemos de fatos mais relevantes e absolutamente, aí sim, inquestionáveis. Recentemente, Lula esteve em Alagoas, um dos Estados mais pobres e atrasados do Brasil, entregando algumas obras. Como sempre, em cima de um palanque, onde estavam também, entre outros, o senador Fernando Collor de Mello. Lula rasgou elogios públicos ao ex-presidente Collor, suficientes para corar a vergonha.
Explica-se aqui a vergonha corada pela constrição do caráter. Na campanha presidencial de 1989, Collor apresentou depoimento em seu programa eleitoral em que uma ex-namorada de Lula afirmava que o hoje presidente quis (ou sugeriu) que ela abortasse a filha Lurian. Se Lula não tem ódio pessoal do sujeito que promoveu a acusação nacional de que ele tentou matar a própria filha antes de ela nascer, odiaria tanto assim alguém que confirmou suas suspeitas sobre um caso do submundo político e que foi denunciado depois pelo Ministério Público Federal e acatado pela Justiça?
Se alguém acredita que sim, que falar em mensalão é pior e mais grave pessoalmente do que a acusação de aborto da própria filha, então não há mais o que dizer. Resta somente se concentrar no mundo dos votos. Até porque 2010 está bem aí.
Escrito por Afonso Lopes às 09h45
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Jornal Opção - 03/01/2010
2010
A definição do futuro
Iris Rezende e Marconi Perillo são opções preferenciais em seus eixos de atuação política. Surgirá mais alguém?
AFONSO LOPES
Se o leitor tiver o capricho de procurar edições anteriores do Jornal Opção ou dos demais jornais de Goiás verá uma frase incrivelmente recorrente e dita por todos os líderes políticos: “Eleição é assunto para o ano que vem”. Pois é, então, não é mais. O tal “ano que vem” chegou. Sinal de que essa frase está definitivamente superada? Teoricamente, sim. O que deverá acontecer é uma mudança semântica, leve, empurrando a tal “eleição” pelos próximos meses.
A primeiríssima definição tem data marcada. Será após o carnaval, no final de março e primeiros dias de abril. Dois dos grandes protagonistas deste período pré-eleitoral terão obrigatoriamente que assumir uma posição mais definitiva em relação às eleições. O prefeito Iris Rezende e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ambos do PMDB, forçosamente se colocarão como aptos ou não para o encontro com as urnas. Se Iris não renunciar aos dois anos e nove meses que lhe restará de mandato, e Meirelles não pedir demissão do Banco Central, estarão “avisando” que não disputarão nada este ano. Se ambos fizeram isso, deixarem seus cargos atuais, então o PMDB continuará vivendo, possivelmente, sob o drama da falta de definição absoluta de seu candidato a governo.
Há muita aposta na possibilidade de Meirelles não sair do Banco Central, ficando assim fora da disputa. E não é uma aposta maluca essa. Até aqui, pelo menos, Henrique é o típico anticandidato. A primeira regra numa candidatura, qualquer que seja ela, é o sujeito demonstrar absolutamente firmeza e afirmar o tempo todo que quer ser candidato. Depois, se o projeto fizer água, ele tem a desculpa pronta: abre mão em prol de alguém ou de alguma coisa, como a unidade, etc. Meirelles, no caso, não poderá dizer que abrirá mão de sua candidatura porque jamais se portou como candidato.
É fácil reparar que essa é uma postura muito diferente da assumida por Iris Rezende. Iris não pode ouvir ninguém falar sobre a eleição deste ano que fica feliz, empolgado. Ninguém tem a menor dúvida de que ele quer muito disputar o que para poderá ser o seu retorno absolutamente consagrador ao Palácio das Esmeraldas. Mas nem se trata de consagração ou não, de encerrar a mais fabulosa carreira eleitoral da história de Goiás. Iris remoça ao falar das eleições porque é um ser totalmente apaixonado pela política.
Aqui, pode-se abrir uma nova linha de raciocínio dentro da possibilidade sempre real de nem Iris nem Meirelles deixarem seus cargos no final de março. Nesse caso, quem seria a alternativa mais viável eleitoralmente para o PMDB? Sim, com Iris Rezende o partido será, sem dúvida, um dos dois grandes protagonistas da eleição deste ano. Com Meirelles, também poderá trabalhar nesse sentido. E se ficar sem os dois?
Fala-se muito sobre um tanto de outros nomes de lideranças peemedebistas, mas somente um deles teria interessante possibilidade de construir uma ponte real com o enorme prestígio eleitoral do prefeito Iris: o da deputada federal Iris de Araújo. Até porque isso seria algo natural. Iris e Iris estão juntos desde o primeiro mandato de vereador, conquistado no final da década de 50. Até um slogan para Iris Araújo, sob aval do prefeito, seria fácil: “meu voto é dela”. Pronto. Simples.
É possível ao PMDB trabalhar outras candidaturas, mas todas elas apresentam além de bom potencial, igualmente um sem número de deficiências. Alguns por serem conhecidos somente em suas regiões, outros por esbarrarem na falta de consistência eleitoral. Em resumo, o PMDB tem Iris Rezende para disputar as eleições. Sem ele, Meirelles. Sem ambos, Iris Araújo. Sem nenhum desses, o time é “japonês”.
Fecha-se aqui a linha deste raciocínio.
Outra grande decisão que estará em jogo no final de março diz respeito ao Palácio das Esmeraldas. Na última semana de 2009, pela primeira vez em três anos o governador Alcides Rodrigues admitiu, ainda que levemente, a possibilidade de renunciar ao cargo para disputar algum novo mandato. O que isso significa? Por enquanto, nada, mas abriu uma possibilidade. Até então Alcides dizia que cumpriria seu mandato até o último dia.
Também ligado aos interesses do Palácio das Esmeraldas, março é data de definição para o secretário da Fazenda, Jorcelino Braga (PP). Ele sempre disse que é avesso a eleição, e que ficaria no cargo somente enquanto o governador quisesse. Depois, dizia, pegaria suas coisas e iria para casa. Já não fala isso mais. A frase mudou um pouco. Agora ele admite que poderá disputar a sucessão de Alcides se assim ele, governador, precisar. Igualmente, isso não quer dizer muita coisa neste momento, mas passou a existir essa possibilidade. Em março essas situações serão definidas.
O que há além desses quadros? Não muita coisa mais. Apenas o fato de que o PSDB marcou para o início de abril o anúncio oficial da candidatura do senador Marconi Perillo. E isso é tudo, em todos os sentidos. O PSDB não tem nenhuma possibilidade de ficar sem Marconi nas eleições deste ano. Ele é quem oxigena todo um eixo da política estadual. E ele virá com tudo, sem dúvida.
Bem que os adversários de Marconi, e os nem tão adversários assim, tentaram derrubar o prestígio eleitoral dele. De janeiro de 2007 para cá, jamais um político de Goiás enfrentou um processo tão duro quanto diversificado. Até 2006, e em plena campanha eleitoral, nem o PMDB ousava fazer oposição pública a ele. Terminada a eleição e empossado o novo governador, a coisa mudou completamente.
Marconi passou por um massacre que incluía críticas pesadas contra os seus governos até então elogiados, e um cerco absoluto visando seu total isolamento político. Seus adversários, porém, não conseguiram abalar a relação de confiança que foi estabelecida entre ele e a população. Até aqui, em todas as pesquisas de opinião, quantitativas ou qualitativas (estas últimas sempre de cunho reservado às altas cúpulas partidárias), Marconi permanece inabalável, e incrivelmente muito além dos comuns ou não que o atacaram.
A verdade é que a atividade política cria um Olimpo, o sagrado lugar dos especiais. É assim em todo lugar. Em Goiás, atualmente apenas dois políticos foram alçados a essa condição: Iris Rezende e Marconi Perillo. Muitos outros são inegavelmente capazes, eficientes e populares, mas falta isto ou aquilo para se tornarem o que esses dois representam. E ambos sobrevivem e crescem exatamente em função da presença e da rivalidade do outro. Numa eleição com Iris e com Marconi é praticamente impossível imaginar que o eleitorado dedique alguma atenção além deles. Mas eleição é eleição, e o Olimpo sempre tem lugar para mais alguém. E apenas um deles protagonizará o futuro que será escrito pelos goianos em outubro. Qual deles? Um dos três.
Escrito por Afonso Lopes às 09h43
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Conexão - Jornal Opção - 27/12/2009
TERCEIRA GRANDE CANDIDATURA
Quem vai para a guerra
Palacianos têm vários nomes, mas parada não será fácil contra Marconi Perillo ou Iris Rezende
Uma coisa invariavelmente puxa a outra: existe espaço eleitoral para uma terceira via em Goiás? Sim e não. E aqui não se trata de subir no muro da dúvida. É um fato que julgo cultural até. Os goianos se dividem entre duas correntes, e não três. Jamais houve uma eleição com isso que poderia ser chamada como terceira via. O que pode ocorrer é uma polarização em torno de três candidaturas, mas sem que se configure mais uma alternativa em forma de grupamento político. É assim desde sempre, e não existe um só elemento para análise que possa modificar qualquer previsão de mudança, agora em 2010. A disputa será mesmo entre duas correntes, dois eixos, duas forças políticas, mesmo que três candidatos disputem pau a pau cada voto.
Mas, então, como é isso: se três polarizam, fica clara a existência de três vias eleitorais, não é? Pois é, acredito que não é, não. Para se perceber isso bastaria relembrar a eleição de 1994. Naquele ano, houve uma das mais intensas disputas eleitorais de Goiás, com três candidatos. Maguito Vilela (PMDB), Lúcia Vânia (PSDB) e Ronaldo Caiado (DEM) fizeram campanhas eletrizantes e com um cenário final que só foi decidido na última semana. Aliás, pouco antes das pesquisas boca-de-urna ainda havia dúvida sobre os dois candidatos que passariam ao segundo turno.
A eleição de 94 está sendo focada aqui porque foi a única vez desde a redemocratização do Brasil, no início da década de 1980, que três candidatos polarizaram legal a disputa de votos em Goiás. E por que, afinal, não se pode dizer que não existiram três vias eleitorais naquela disputa? Porque eram apenas duas, e não três. Simples. Caiado e Lúcia Vânia disputaram dentro do mesmo eixo, representando as mesmas forças políticas, o mesmo grupamento. Eram, então, dois candidatos da mesma via.
O que isso quer dizer é que independentemente do número de candidatos lançados por esses grandes eixos da política goiana, a disputa sempre se deu em torno de duas vias. Essa é a tradição daqui, como também dos Estados Unidos, Inglaterra, Minas Gerais, Ceará e Bahia. Há Estados em que as disputas são marcadas pelas três alternativas, mas não é este o nosso caso.
Onde, então, se situaria uma chapa reunindo PP, PR e DEM? Num dos dois eixos existentes. Agora, os maiores representantes desses grupamentos políticos de Goiás são o prefeito Iris Rezende Machado, do PMDB, e o senador Marconi Perillo, do PSDB. Caso se consolide a intenção palaciana de lançar um candidato ao governo, essa candidatura vai naturalmente se posicionar numa raia ou na outra, sem abrir, digamos, uma "picada" no meio da selva eleitoral. E esse posicionamento de raia também não significa que o candidato do governo ficará a serviço de Marconi ou de Iris, ou a reboque de quem quer que seja. Trata-se de posicionamento de campanha. Somente isso.
Como existem dois grupos, fala-se aqui de um antagonismo político direto com consequências óbvias nas disputas eleitorais. Ou seja, o eleitorado de um grupamento vota com duas motivações: a favor da sua identificação com um dos candidatos e contra o adversário. Se Iris está de um lado e Marconi está do outro, onde entraria o candidato do governo? Qual é o eleitorado que ele disputará? O contrário ao de Iris ou o contrário ao de Marconi? Sim, porque não há um terceiro caminho, aquele que somaria o eleitorado da terceira via, e que seria contrário aos dois grupos, Iris e Marconi. Em todas as eleições de Goiás alguém sempre tenta, e sempre se estrepa, trabalhar eleitoralmente nessa alternativa. Como Barbosa Neto e Demóstenes Torres, em 2006, ou Iram Saraiva, em 1990, para ficar apenas em dois exemplos.
Então, naturalmente, o candidato do governo vai se situar num desses eixos. O trabalho dele será, então, superar um dos atuais representantes do eixo em que ele vai se posicionar. Se contra Iris e a força que ele representa, o governista terá que bater internamente, na mesma raia, Marconi Perillo. Se for contra Marconi e o eixo representado por ele, então o adversário a ser batido será Iris Rezende. E para chegar a esse objetivo, esse candidato terá que inicialmente se inserir na polarização já estabelecida entre os dois eixos e seus representantes. Será essa a sua primeira tarefa.
Há inúmeros nomes lançados no mercado eleitoral para essa terceira grande candidatura (não terceira via, repita-se). Cada um deles soma características pessoais e potencialidades eleitorais. E aí vai depender da campanha propriamente dita para saber se isso vai ou não dar certo.
O deputado federal Sandro Mabel, do PR, foi lançado mais recentemente. Logo de cara, percebe-se que ele se posicionaria no eixo em que está Iris Rezende, ou seja, contrário ao de Marconi. Nessa mesma linha ficaria o secretário Jorcelino Braga, do PP, e, provavelmente, o deputado federal Ronaldo Caiado, do DEM. Qualquer um deles que vier a ser ungido, portanto, teria como meta superar inicialmente Iris Rezende.
Outros dois nomes citados são os do vice-governador Ademir Menezes, também do PR, e o do presidente da Goiastur, Barbosa Neto, do PSB. Em tese, eles poderiam trabalhar melhor uma campanha no eixo contrário ao de Iris. Mas não necessariamente, é claro. Se a opção, porém, for essa, aí o objetivo será o de ultrapassar Marconi.
Quem levaria vantagem nessas situações? Difícil saber. Caiado, Barbosa e Mabel já disputaram e perderam eleições para o Executivo (Caiado, em 94, e Barbosa, em 2006, disputaram o governo do Estado. Terminaram em terceiro lugar. Mabel, em 1992, tentou a Prefeitura de Goiânia. Também ficou em terceiro. Dos três, o discurso mais incisivo é o do democrata. Mabel fala bem, mas costuma se perder quando confrontado diretamente. Barbosa algumas vezes sofistica demais o que fala, mas também tem boa pancada verbal, e não sofre tanto assim quando combatido. Entre os três, ninguém é páreo em agressividade para o secretário Jorcelino Braga. Mas ele nunca passou pelas urnas, e aí sempre restará a dúvida quanto ao alcance de seu arsenal junto ao eleitorado. Tanto pode emplacar quanto ser uma decepção por completo. Ademir Menezes, dos cinco, é o que representaria melhor a figura do político tradicional. Já passou por duríssimas eleições municipais em Aparecida de Goiânia e sobreviveu com vitórias. Diretamente, é o menos agressivo.
Qual deles seria o melhor e mais viável eleitoralmente contra Iris ou Marconi? Vai saber... Ambos são fortíssimos, populares e estão muito bem posicionados. Não precisam mais remar mais nada para se situarem dentro do processo. Os dois estão com correnteza favorável. A terceira candidatura, ao contrário, ainda terá de capinar muito. Primeiro, para se viabilizar. Depois, consolidar-se e posicionar-se dentro de um dos dois eixos possíveis. Por fim, superar o adversário interno. Uma coisa é certa: se houver segundo turno, o que é uma possibilidade sempre real, ele será reedição simplificada do primeiro: um eixo contra o outro.
Escrito por Afonso Lopes às 13h28
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Matéria - Jornal Opção - 27/12/2009
ELEIÇÕES 2010
Março é o mês-chave
Para a população, as eleições do ano que vem ainda vão demorar muito. Para o mundo político, as decisões chegam mais cedo
AFONSO LOPES
Todas as pesquisas eleitorais feitas atualmente têm um componente comum: o altíssimo porcentual de indecisos. Isso se dá por um fator simples: para o cidadão, as eleições do ano que vem ainda estão muitíssimo distantes. Primeiro é preciso finalizar os preparativos para a noite de quinta-feira, 24, quando se comemora o Natal. Uma semana depois será a vez das festas de mudança de ano. Aí já se estará vivendo pleno e gostoso janeiro, mês preferido para as férias familiares. Chegará o carnaval e, em seguida, alguns meses de intensas discussões sobre as chances e possibilidades do Brasil na Copa da África. Só então é que, finalmente, as eleições vão aparecer à frente de todos.
O resultado de tantos acontecimentos mais próximos e muito importantes é esse que se vê nas tabelas dos institutos de pesquisa, alto índice de indecisos. Para driblar essa realidade, os institutos têm uma arma geralmente eficaz: a cartela onde estão os nomes de todos os possíveis candidatos. É óbvio que o estratagema não recria o clima eleitoral que estará nas ruas por volta do mês de setembro, mas é o máximo de realidade virtual possível. E também é por essa razão que pesquisas nesse formato apresentam baixíssimo número de indecisos.
Campanha — Se para os cidadãos as eleições são ainda um acontecimento distante no calendário de 2010, no mundo político já se percebe intensa movimentação. Em todos os partidos há discussões internas, movimentações e tomadas de posições. As reuniões são constantes e não respeitam nem os finais de semana. Será que existem tantos motivos assim para os partidos viverem uma realidade completamente oposta à vida dos cidadãos? Existe sim.
Já no mês de março, um importantíssimo marco da eleição estará dando as caras. O nome é complicado, mas caiu no conhecimento da população: desincompatibilização. Trata-se de um conjunto de regras que deve ser observado por inúmeros candidatos, especialmente por aqueles que ocupam algumas funções públicas. Prefeitos, secretários, ministros, governadores (no caso de não reeleição) e presidente são obrigados a abandonar seus cargos.
Em Goiás, particularmente, trata-se de uma data especialíssima. Talvez, a maior tradução do que representa a lei da desincompatibilização desde que ela foi criada. Pelo menos quatro das maiores estrelas das eleições do ano que vem serão obrigados a se posicionarem de maneira definitiva. Para um deles restará ainda a possibilidade de voltar atrás após essa decisão. Aos demais, porém, serão passos em um caminho sem retorno.
O primeiro dessa lista é o governador Alcides Rodrigues. Reeleito em 2006, ele só não poderá se candidatar a novo mandato de governador. Então, todos os demais cargos que estarão em disputa lhe serão acessíveis: deputado estadual, federal, senador ou presidente da República. Tudo, menos governador novamente. Só que para se colocar na condição de candidato a alguma coisa, Alcides terá forçosamente que deixar o cargo que ocupa. Isso significa que se ele ficar, terá optado por não disputar nada em 2010.
O segundo nome surge em função do primeiro. O vice-governador Ademir Menezes vai esperar pelo movimento de Alcides para definir sua própria vida. Se o governador sair, então ele assumirá o comando do Estado e, conforme as regras, nessa condição ele só poderá ser candidato à reeleição. Com a permanência de Alcides, Ademir terá que optar entre deixar a vice que ele ocupa atualmente para eventualmente disputar mandato de deputado — federal ou estadual — ou permanecer e, ainda assim continuar vivo como opção para nova vice, já que ele, ao contrário de Alcides, está no primeiro mandato.
O próximo da lista é o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, que carrega o status de ministro de Estado. Filiado recentemente ao PMDB goiano, Meirelles sempre é apontado como possível candidato ao governo de Goiás. Mas não existe nenhum indicativo de que ele já se definiu sobre 2010. Alguns confidentes juram que ele está de olho mesmo é na disputa federal. Primeiro se colocando como alternativa para ser vice em uma chapa do PT de Lula. Segundo, sonhando com candidatura à Presidência da República com apoio de Lula caso nenhum nome do PT consiga fazer sombra ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que tem liderado todas as pesquisas feitas até hoje.
Se Meirelles deixar o comando do Banco Central, estará implícito que pretende mesmo se candidatar a algum cargo em 2010. Nacionalmente, o quadro é o de regra 3 para a vice. Em Goiás, o PMDB tem afirmado que as portas estão permanentemente abertas para ele subir ao ringue e enfrentar Marconi Perillo. Se isso não der certo, ainda restará a possibilidade de se candidatar senador. E se ainda assim ele se arrepender, Lula poderá recolocá-lo em seu ministério, evidentemente não exatamente no Banco Central já que o mercado não gosta de mudanças bruscas e improvisações.
Por último, março será um mês definitivo para aquele que todos apontam como mais sério adversário do senador Marconi Perillo: o prefeito Iris Rezende. Se quiser disputar o Palácio das Esmeraldas, ele terá que dar seu primeiro e definitivo passo: abandonar dois anos e nove meses de mandato como prefeito de Goiânia.
Não será uma decisão corriqueira. Até hoje, desde o retorno das eleições diretas para as prefeituras de capitais, em meados da década de 1980, nunca Goiânia viu um de seus prefeitos renunciar para disputar novo e diferente mandato. É um fato tão raro e ousado que os poucos casos ficam registrados na história, como o de Paulo Roberto Cunha, que deixou a Prefeitura de Rio Verde, a maior e mais populosa cidade da rica região Sudoeste, para disputar o mandato de governador em 1990. Aliás, Paulo Roberto disputou exatamente contra Iris, que venceu aquelas eleições.
Ao contrário de todos os demais nomes que terão em março que assumir uma posição definitiva, de permanecer ou não no cargo, a Iris não existem opções. Se ele sair será para enfrentar a disputa pelo Palácio das Esmeraldas. Se ficar, estará diretamente fora da eleição, embora se transforme, seguramente, num referencial para seu grupamento político durante a campanha. Há quem defenda que Iris, numa grande composição, opte pela disputa pelo Senado. Esse é o pior dos mundos para ele.
Como estarão em jogo duas vagas de senador, o eleitor poderá votar em dois nomes. E Iris, sem nenhuma dúvida, tem condições de individualmente ser o primeiro preferido da maioria dos eleitores. O problema é que esse mesmo eleitor poderá votar em um segundo candidato, o que, na prática, anularia a vantagem da popularidade de Iris. Esse fenômeno lhe causou uma derrota inesperada em 2002. Portanto, repetir o mesmo cenário agora em 2010 é temerário.
Esse é o mundo político, feito de decisões, discussões e providências que parecem ser exóticas e temporãs diante das realidades do cotidiano das pessoas. Na realidade, os calendários é que são diferentes. Na política, ele é sempre muito mais apertado.
Escrito por Afonso Lopes às 13h27
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Conexão - Jornal Opção - 20/12/2009
ALIANÇAS
Jogo aberto
Faltando pouco mais de seis meses para a realização das convenções partidárias, futuras coligações ainda não estão fechadas
O governo insiste na tese de que lançará candidatura própria. O PSDB vive clima interno de campanha com o senador Marconi Perillo. O PMDB, que contava como definitiva a candidatura do prefeito Iris Rezende, convive com certa dose de incerteza após a chegada ao partido de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Pronto? Pronto, pelo menos neste momento. Marconi é candidato, o Palácio das Esmeraldas quer ter um e o PMDB aguarda definição entre suas duas estrelas eleitorais. Quanto aos partidos a coisa é muito mais complicada. Há indicativos, mas certezas mesmo são muito poucas.
Em tese, as relações mais consolidadas entre os partidos envolvem justamente as duas principais correntes que estarão em disputa no ano que vem: PSDB e PMDB. Os tucanos contam como certíssimas as alianças com o PTB e o PPS. Os peemedebistas estão cada vez mais entrelaçados com o PT goiano. Quanto aos demais grandes partidos ninguém saberia dizer com absoluta segurança sobre os seus destinos em 2010. Tanto pode ser uma coisa quanto outra.
Há, inegavelmente, uma tentativa de construção da chamada terceira via. É algo real, palpável, que dependerá única e exclusivamente da força do PP palaciano para se consolidar e efetivamente entrar na disputa pelo trono verde da Praça Cívica. A questão aqui é que não existe um nome realmente concentrador, que empolgue eleitoralmente de imediato. E aí as coisas são sempre muito mais complicadas.
Imagine-se, somente a título de melhor e mais fácil compreensão, se a terceira via pudesse se apresentar com Marconi ou Iris como grande atração. Haveria, sem dúvida, uma corrida ao Palácio para discutir as amarras para uma grande aliança. O problema é que sem um nome consistente do ponto de vista eleitoral, tudo anda muito mais lentamente na edificação dessa alternativa.
Esse é o grande nó que os patrocinadores da terceira via terão pela frente. E não somente neste período, mas durante todo o processo. Já se lançou balões de ensaio com vários nomes e nada aconteceu. Primeiro foi o DEM, que acenou com a possibilidade de lançar o deputado federal Ronaldo Caiado à sucessão palaciana. Depois, falou-se no secretário da Fazenda, Jorcelino Braga. Atualmente, o PR sinalizou com o deputado federal Sandro Mabel, ressaltando até que o vice-governador Ademir Menezes teria uma espécie de preferência interna para a nobre missão de concorrer ao Palácio das Esmeraldas. Nada, e ninguém, funcionou como polo de atração.
A terceira via vive esse dilema de Dante. Há claramente a intenção de se posicionar em relação a 2010 com nome próprio, mas não consegue ir além do desejo de seus líderes. E esse drama também apresenta potencialidade de criar incertezas no plano interno dos partidos. DEM, PR e PP certamente passarão por debates internos acalorados caso suas cúpulas insistam numa tese em que o elemento principal não seja definido e que empolgue rapidamente. Ou seja, um cenário infernal.
A divisão no DEM é histórica. O grupo de Goianésia e os caiadistas não se entendem há tempos. Não há nada que indique que essa situação será modificada nos próximos meses. Para piorar as coisas e as relações internas, aos dois grupos históricos está se juntando um terceiro grupamento independente: os marconistas. São políticos expressivos que estarão disputando mandato no ano que vem e que defendem presença junto à chapa a ser capitaneada pelo senador Marconi Perillo por entenderem que esse será o melhor caminho para as eleições.
No PR, pode-se encontrar de tudo um pouco. Há os apaixonados pela consolidação da terceira terceira, como é o caso de Sandro Mabel, setores muito próximos do PMDB de Iris Rezende, e os que defendem abertamente coligação com o PSDB de Marconi Perillo, como é o caso destacado do deputado Cláudio Meirelles. Difícil saber qual é a tendência majoritária no partido. Aliás, há sim. A tendência do PR é de se manter num pragmatismo absoluto. O partido irá optar, como sempre fez, por aquilo que julgar ser o mais conveniente tanto do ponto de vista político como no que se refere à eleição.
Sem PMDB?— O PP joga com a força e peso do Palácio das Esmeraldas nessa questão. As bases são francamente favoráveis à manutenção da aliança com os tucanos que vem desde a eleição de 1996, em Goiânia. Mas a cúpula palaciana não abre mão de estruturar a terceira via. Num ponto parece não existir qualquer divergência entre cúpula e base: ninguém quer coligação com o PMDB. Esse é um aspecto pacificado dentro do PP.
E o que poderá sair desse bolo de confusões e alternativas? Neste momento não há como saber. Faltando pouco mais de seis meses para as convenções partidárias, DEM, PR e PP fazem o possível para não chegarem às mesas de negociações de alianças para 2010 sem nada a oferecer além da própria militância. A terceira via pode ser “lida” dessa forma, mas igualmente conduz à outra interpretação, a de que se for encontrado um nome que se viabilize eleitoralmente, haverá realmente três grupamentos políticos disputando o Palácio nas próximas eleições.
De olho nas incertezas de PP, DEM e PR, PSDB e PMDB procuram confirmar o que conseguiram alinhavar até aqui. Nesse sentido, ambos os partidos se encontram em posição idêntica. O PSDB já se acertou com o PTB, comandado pelo deputado federal Jovair Arantes, ex-tucano — um dos fundadores do ninho em Goiás —, e com o PPS, dirigido pelo professor Gilvane Felipe, que foi uma das figuras de proa das administrações de Marconi entre 1999 e 2006.
O PMDB faz o possível para evitar contratempos que possam complicar uma relação pra lá de definida e produtiva com o PT. E um é absolutamente vital para o outro. Sem o PT, qualquer candidatura peemedebista cairia imediatamente numa situação bastante perigosa do ponto de vista eleitoral. Sem o PMDB, os petistas retornariam à condição de meros coadjuvantes do processo político estadual. O que essa interdependência revela? Que é praticamente impossível que PMDB e PT não estarão unidos em 2010.
E aí se encontra a uma última questão a ser resolvida até meados de julho do ano que chega. Se não conseguirem consolidar a terceira via, o que vão fazer PP, PR e DEM? Teoricamente, o DEM poderá se juntar sem maiores problemas com o eixo PSDB-PTB-PPS. O PR, como já foi dito, não teria problemas para somar com o eixo PMDB-PT, mas igualmente se sentiria em casa na coligação tucana — com exceção, dizem, de Sandro Mabel, que se mantém adversário pessoal de Marconi. Quanto ao PP, com a eterna complicação que haveria para construir aliança com os peemedebistas, é absolutamente imprevisível. O partido poderá, via Palácio, atirar-se no meio da correnteza eleitoral de qualquer maneira ou posicionar-se da melhor forma possível para tentar, no mínimo, desequilibrar o jogo empatado entre Iris e Marconi.
Escrito por Afonso Lopes às 12h14
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Matéria - Jornal Opção - 13/12/2009
PMDB/PP
É pra casar?
No momento em que ficou sacramentada a terceira derrota nas urnas, o PMDB tratou de se aproximar do Palácio. Por enquanto, nada de casamento com o PP
AFONSO LOPES
Não é de agora a “paixão” do PMDB goiano em relação ao PP palaciano. Logo depois da posse de Alcides Rodrigues, em janeiro de 2007, uma das mais expressivas lideranças peemedebistas, o atual prefeito Maguito Vilela, se ofereceu para visitar o governador que o havia derrotado apenas alguns meses antes.
Não foi um gesto político individual ou mera cortesia entre adversários após uma campanha duríssima, em que um acusou o outro até de dar o “cano” no IPVA de seu carro, enquanto o outro contra-atacava fazendo do adversário um apatetado que prometia asfaltar até estrada já pavimentada, conforme mostrou o personagem Nerso da Capitinga, interpretado por Pedro Bismarck, e que se tornou uma espécie de espantalho contra peemedebistas. Foi, portanto, uma daquelas campanhas que gera sentimentos negativos de ambos os lados.
Mas lá se foi Maguito Vilela para ser recebido nas escadarias do Palácio das Esmeraldas nem bem as feridas dos ataques, contra-ataques e da derrota estavam fechadas. Tanto não estavam que o seu gesto provocou uma duríssima reação dos demais peemedebistas, incluindo o então vice-presidente do partido, o ex-prefeito de Catalão, Adib Elias. De apoio mesmo, Maguito recebeu somente um afago público do prefeito Iris Rezende, o que serviu como senha para que todos os demais pousassem a bola no chão.
A bola realmente ficou rasteirinha no gramado político entre Maguito e os peemedebistas, mas ainda assim o diretório e a bancada estadual ensaiaram contida reação, dando a entender que o PMDB seria oposição radical ao governo de Alcides Rodrigues, na época ainda considerado como terceiro mandato do Tempo Novo.
Desde esse início conturbado, muita coisa mudou entre peemedebistas e palacianos. Recentemente, por exemplo, o deputado estadual José Nelto, decano de mandatos pelo PMDB na Assembleia Legislativa, e que será candidato a deputado federal em 2010, reagiu de forma muito bem-humorada ao almoço tradicional promovido pelo Palácio com os parlamentares: “Claro que vou. Não é todo dia que se almoça no Palácio”, disse sorrindo.
Na realidade, Nelto sorriu não foi por causa do almoço, mas principalmente pelo significado do menu. De um lado, os peemedebistas compareceram em peso. Do outro, os velhos rivais do PMDB e ex-amigos do PP palaciano, os tucanos, tiveram notadas ausências. Sinal dos tempos atuais.
E que tempos são esses? Aparentemente, o PMDB já esteve muito mais interessado no PP do que agora. Há cerca de um ano e alguns meses, essa aproximação dava sinais de que resultaria em aliança, com o desembarque dos tucanos da máquina administrativa e a pronta substituição deles pelos quadros peemedebistas. O grande problema é que nem os tucanos romperam politicamente com o Palácio, nem o governo ofereceu tantos atrativos assim para o PMDB, como, e principalmente, popularidade. Os pensadores peemedebistas chegaram à conclusão naquela época que o partido poderia fazer um péssimo negócio se associando ao Palácio e, de quebra, livraria o PSDB de arcar com algum tipo de ônus governista em 2010.
Mas será que esse quadro mudou tanto assim para justificar uma nova investida do PMDB sobre os humores palacianos? Tecnicamente não. Ainda não é possível avaliar qual é o impacto do governo junto à opinião dos eleitores goianos. Tanto que todos os possíveis nomes que se cogita lançar com apoio do Palácio não chega sequer a atingir dois dígitos nas pesquisas atuais. Mas há a promessa de chegada providencial de quase R$ 300 milhões nos próximos meses. É uma boa grana para medidas emergenciais e que possam dar uma guaribada geral na lataria do governo. Ou seja, não é dinheiro suficiente para colocar em ação uma máquina potente e totalmente azeitada, mas nas circunstâncias atuais, já ficará de bom tamanho.
O PMDB, no entanto, não está de olho nessa possível arrancada palaciana no ano eleitoral. O partido, e todos os demais, sabem que não existe tempo para reverter a cristalização da imagem que aconteceu ao longo de três anos. A questão aqui é muito mais política. O que mais interessa aos peemedebistas é evitar que o PSDB ganhe qualquer tipo de apoio além do que ele já conquistou até agora, como o PTB e o PPS, o que evidentemente ocorrerá se o PP vier a se juntar novamente aos tucanos.
Aqui entra uma porção de coisas que uma ação como essa desencadearia. Primeiro ponto seria o extermínio absoluto de qualquer tentativa de criação de uma terceira via com orientação de confronto com o PSDB. Ou seja, o PMDB perderia a condição de posar como bom moço na campanha eleitoral, deixando para a via alaranjada a tarefa de combater a candidatura do PSDB.
Por outro lado, o PP acrescentaria minutos muito preciosos para o candidato do PSDB, equiparando assim o tempo que a dupla PMDB-PT já tem assegurado, principalmente porque a ação do PP selaria de vez a construção de uma nova aliança temponovista, com a inclusão imediata do DEM e, possivelmente, até do PR. Isso é tudo o que o PMDB mais teme.
Ou seja, se no passado a aproximação e flerte peemedebista era algo muito mais para provocar ciúmes nos tucanos, agora é uma estratégia muito mais séria. O partido de Iris quer mesmo aliança com o PP. Há algumas e isoladíssimas resistências, como a de um deputado estadual peemedebista. Internamente, porém, ninguém o vê como problema sério. Além de não ter um forte grupo, e contar somente com boa estrutura de campanha, esse deputado já teria mudado o discurso pelo menos duas vezes. A primeira foi quando confrontou a liderança de Iris Rezende na disputa da presidência da Assembleia Legislativa em 2007, e logo depois recompôs. A segunda mudança ocorreu recentemente, ao abandonar linha de ataque ao agora peemedebista Henrique Meirelles.
Se o PMDB quer, por que o PP palaciano não escancara de vez as portas do Palácio para os peemedebistas? Porque isso até pode ser do interesse da cúpula, mas as bases pepistas não estão nada convencidas de que vai se fazer um bom casamento político juntando PMDB e PP. Esse é o grande problema. Por suas declarações, o governador Alcides Rodrigues pretende concluir o mandato e ir para casa. Os pepistas que forem candidatos e perderem poderão ficar na planície, onde o sol é sempre muito quente e causa desidratação.
Há tempo para um lado e para o outro. Tanto a cúpula do PP pode convencer a maioria das bases de que estará tomando a melhor decisão juntando-se ao PMDB, como as bases podem seduzir a cúpula para engolir as diferenças e se manter na base aliada tradicional. Um desses lados vencerá. Qual deles?
Escrito por Afonso Lopes às 11h13
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Conexão - Jornal Opção - 13/12/2009
ELEIÇÕES 2010
Quem será o anti-Marconi?
A formatação das eleições de 2010 antecipa um duríssimo confronto
Puxa daqui, empurra pra lá, e não há dúvida sobre o favoritismo do senador Marconi Perillo previamente colocado para as eleições de 2010. Claro que essa afirmativa encontrará um grande número de descrentes. É natural, até porque não se trata de unanimidade em torno da candidatura de Marconi. Com certeza, porém, a maioria irá concordar com a frase.
Nas paixões naturais que a política provoca, expande, reverbera ao além e consolida, muitas vezes lê-se uma coisa e entende-se outra. Essa frase aí da abertura desta Conexão é um exemplo disso. Se você, leitor, é contra Marconi Perillo, certamente já se colocou com armas nos dentes contra o autor. Mas volte lá e leia novamente. Está claro que o que se afirma é que Marconi Perillo é favorito para as eleições do ano que vem. E uma palavra na frase insere toda a contextualização temporal dessa afirmativa: previamente.
Com esse tipo de leitura, optando-se pela literalidade do significado das palavras, fica mais fácil perceber que não se afirmou aqui que Marconi vai ser eleito para governar Goiás pela terceira vez no ano que vem. Então, é hora de repetir: não há dúvida sobre o favoritismo previamente colocado do senador Marconi Perillo.
Essa é uma condição absolutamente normal dentro do processo político-eleitoral histórico de Goiás. Por aqui, as eleições sempre foram disputadas duramente por dois segmentos políticos. Marconi é o único representante de um desses segmentos. Então, obviamente ele se coloca com favoritismo atualmente. Mas e o representante do outro grupamento político não é também favorito? Sem dúvida, mas quem é ele?
O prefeito Iris Rezende Machado é a principal estrela eleitoral do contraponto a Marconi. O problema, neste caso, é que ele ainda não está com sua candidatura consolidada, ao contrário do que acontece com o senador tucano. Ninguém pergunta se Marconi será ou não candidato. Todo mundo sabe que ele vai mesmo disputar a eleição. Até porque não lhe resta nenhuma alternativa em função de sua expressiva liderança dentro desse grupamento. O que ele poderia fazer para evitar a candidatura? Dizer para todos os seus que agradece a deferência, mas que, não, prefere ficar quietinho no Senado? Se ele fizesse isso não somente deixaria todo um segmento político do Estado absolutamente órfão como abriria mão de sua própria liderança popular.
Quando se faz a pergunta em relação à candidatura de Iris Rezende surgem inúmeras respostas. A mais frequente delas é que ele só não será candidato se não quiser. Mas também se ouve que Iris poderá abrir mão em favor de Henrique Meirelles. E aí a situação se complica ainda mais, porque de Meirelles também se fala sobre possibilidade de candidatura a vice-presidente numa chapa lulista.
Independentemente dessa definição, e com quaisquer candidaturas, a formatação da campanha do ano que vem parece estar estruturada de forma irreversível: será Marconi contra o resto. E que não se aplique a esse “resto” qualquer conotação pejorativa. Entenda-se “resto” como tudo/todos que não for pró-Marconi. Ou seja, o que restar do pró será contra.
Não é a primeira vez que uma eleição em Goiás ganha esse aspecto. Em 1998, a formatação foi exatamente a mesma, somente com a troca do protagonista: era Iris contra o resto. Em 1990 também foi assim. Muito diferente, por exemplo, das formatações de 1986 e 1994 (em 86, a disputa ocorreu entre Henrique Santillo e Mauro Borges, ambos com representação em todos os grupamentos. Em 94, Maguito Vilela representou o PMDB e seus aliados contra Lúcia Vânia e Ronaldo Caiado, que dividiram os votos do segmento contrário).
Se algum leitor contrário a Marconi Perillo ainda tem dúvida sobre o enfoque da análise que se faz aqui, sugiro responder à pergunta: quem será o candidato a ser batido em 2010? É possível outra resposta que não seja Marconi?
Isso significa que Marconi enfrentará dois adversários com possíveis desempenhos de campanha distintos em 2010. O primeiro e mais perigoso, sem dúvida, será o candidato do outro grupamento, Iris, Meirelles ou qualquer outro. O segundo adversário será o franco-atirador, o candidato-bomba. Aquele que terá como único objetivo tornar a campanha de Marconi menos confortável. É claro que as pancadarias partem de todos os lados no calor de uma campanha eleitoral, mas quase sempre há um encarregado de cometer o haraquiri eleitoral sem nenhuma intenção de nobreza. Na maioria das vezes, esse tipo de candidato termina a campanha com aposentadoria precoce e moral política esmagada, e nem sempre atinge o objetivo.
Em 2006, no auge das denúncias eleitorais, a laranjada foi tamanha que chegou a ser praticamente leiloada, com direito até a gravação clandestina da negociação. No final, como se sabe, não adiantou nada. O candidato mais duramente atacado foi exatamente o que ganhou a eleição, Alcides Rodrigues.
É necessário fazer distinção entre agressividade de campanha e candidatura-bomba. Na mesma eleição de 2006, o senador Demóstenes Torres torrou um poderoso arsenal contra Alcides, mas nem por isso ele pode ser visto como franco-atirador. Sua intenção não era a de derrotar Alcides ou enfraquecê-lo para que outro completasse o trabalho, mas de ele próprio vencer as eleições.
Nem Iris e nem Meirelles tem perfil agressivo. Marconi também não. Mas nenhum deles é barata morta quando se encontra sob ataque. De Meirelles sabe-se muito pouco nesse sentido. Até por absoluta falta de histórico eleitoral. Marconi e Iris têm queixos duros, que suportam muita pancadaria. Se o de Meirelles é de vidro ou não, sabe-se lá. Candidatos são como pregos na madeira. Alguns, com poucas batidas de martelo dos adversários, se enterram. Outros, mesmo debaixo de pancadas fortíssimas, entortam, mas não afundam.
Marconi, previamente escalado para a eleição de 2010, sobreviveu praticamente sem maiores estragos ao massacre de três anos contra sua imagem popular. Terá pela frente uma tarefa ainda muito mais difícil: superar o anti-marconi. Se conseguir isso, ele vencerá o resto.
Escrito por Afonso Lopes às 11h12
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Matéria - Jornal Opção - 06/12/2009
PP/PSDB
O difícil “sim”... na hora do divórcio
É mais fácil fazer as festas para o casamento do que discutir a relação e dizer o derradeiro “sim”
AFONSO LOPES
PP e PSDB vivem hoje como um casal em séria crise. Um já não suporta a cara do outro, mas amanhecem juntos para mais um dia de mau humor. Aqui se poderia até separar um pouco as coisas. Não é todo o PP que anda às turras com o PSDB nem é todo o ninho que começa o dia se imaginando longe da alcova. O problema está localizado no alto da torre partidária. São as cúpulas que não se entendem mais. Nas bases, o que existe é uma grande aflição. Como se essas bases fossem, na analogia do casal, a torcida dos parentes dos cônjuges por uma reconciliação total.
Será que ainda é possível fazer DR (Discutir a Relação)? Dela poderá sair um recomeço ou aprofundar ainda mais as mágoas de um lado e do outro? Na opinião da vizinhança, o casal já não tem muitas chances de encontrar alguns pontos comuns. Um fala mal do outro, ambos flertam abertamente fora do casamento e quando um chega à sala o outro corre para o escritório. Juntos mesmo, só no quarto, como se estivessem dormindo com o inimigo. O quarto, neste caso, seria o governo.
Então, ninguém mais pergunta se haverá ou não a separação, mas quando e quem dirá sim a favor do divórcio primeiro. Ou seja, é somente uma questão de tempo para a casa cair. Se é assim, por que não derrubar tudo logo? É sempre mais fácil dizer “sim” para casar do que para separar. Na vida e na política.
Quem romperá — O Palácio das Esmeraldas tem “batido” nos velhos aliados tucanos desde o início do mandato do governador Alcides Rodrigues. Tornou-se lendária, por exemplo, a excelente pontaria palaciana para atingir e derrubar tucanos dos cargos mais importantes. De janeiro de 2007 para cá, não sobrou muita gente emplumada. Até um dos ícones do PSDB, o ex-deputado federal Fernando Cunha, que foi simplesmente o coordenador-geral da campanha eleitoral de 2006, tornou-se peça decorativa dentro da máquina administrativa.
Essa autêntica operação “cerca Lourenço” do PP palaciano contra os tucanos já foi desativada há alguns meses. Não há mais o que fazer. Os tucanos que restaram além de poucos estão em posições inferiores. Não pesam mais na ordem do dia. O problema é mais embaixo, nos segundo e terceiro escalões. Principalmente do terceiro escalão para a planície da máquina. Aí continua tendo tucanos aos montes. Sem falar nos funcionários de carreira, portanto com estabilidade, e que são abertamente favoráveis ao PSDB, consequência das duas administrações do hoje senador Marconi Perillo.
Mexeu-se muito pouco nessas estruturas da máquina. Não exatamente por falta de vontade. O que faltou aqui foi peça para substituição. Acontece que, entre os aliados, o PSDB continua sendo o partido com maior número de quadros para fazer a máquina administrativa andar. Os palacianos bem que andaram tentando promover uma renovação dos escalões inferiores, mas se contentaram em somente diminuir a força tucana.
Diante dessa política aberta de confronto, muitos se perguntam por que, afinal, o PSDB não promove uma demissão em massa, o que certamente poderia provocar transtornos bastante sérios no dia-a-dia da administração estadual? Aqui entra um aspecto político determinante: se agir assim, o PSDB carregará para 2010 o ônus complicado de ter rompido com o Palácio das Esmeraldas.
Então, a pergunta deve ser dirigida para o Palácio: por que não terminar o serviço de extermínio dos sinais tucanos dentro do governo? A resposta é a mesma. O Palácio treme só de pensar que poderá ficar com a mancha da traição e do rompimento.
O resultado dessas posições é esse que se vê publicamente. Os principais dirigentes dos dois partidos praticamente não se falam, trocam indiretas e até alguns petardos diretos e permanecem juntos. Uma paz de cemitério.
Futuro — Bem, se essa é a situação atual e todas as previsões apontam para o divórcio definitivo, como será o dia seguinte ao do rompimento? No primeiro momento, sem qualquer sombra de dúvida, terá festa. Os tucanos porque não precisariam mais carregar qualquer tipo de ônus que poderá recair sobre a administração de Alcides Rodrigues nas eleições de 2010. Os palacianos soltariam foguetes por entenderem que, finalmente, teriam vencido essa guerra. Depois das festanças, a ressaca.
O PP terá que trabalhar muito para não passar por uma fase baixo astral causado pela solidão. Seus parceiros até agora, DEM, PR e PSB, não são exatamente o que se poderia classificar como porto seguro contra a solidão. São parceiros, mas isso dependerá muito das perspectivas para o futuro. Nenhum desses partidos irá para imolação no altar eleitoral por mera solidariedade.
Restaria sempre a velha válvula de escape via presidente Luiz Inácio Lula da Silva, através do PMDB-PT. Mas essa é ainda uma alternativa muito complicada. As bases do PP e do PMDB têm muito mais pontos históricos de confronto do que de harmonia. E ficaria sempre um certo sabor de viuvez. Aquela história do casal atuante que acolhe a viúva solitária num quartinho dos fundos da grande casa.
O PP palaciano, portanto, terá que avaliar muito bem a forma de rompimento e, principalmente, calcular com precisão os passos que terão que ser dados após o big-bang.
Já o PSDB não tem qualquer alternativa. Neste momento, o partido continua firmemente empenhado em trabalhar somente pelas bases. É nelas que os tucanos depositam suas melhores esperanças de dias menos tumultuados e tenebrosos após o divórcio.
A parceria com o PTB e o PPS é suficiente para deixar o PSDB com o nariz acima da linha d’água. Daí pra frente será necessário remar contra a correnteza braba. Há uma vantagem: tem braços e remos sobrando, mas falta avaliar exatamente o poder da correnteza que irá enfrentar.
No fundo, o PSDB tem um grande sonho de consumo: que as bases do PP, a exemplo do que fizeram as bases do PDS no início da década de 1980, derrotem as propostas de rompimento do Palácio das Esmeraldas numa convenção. Essa, por sinal, foi a única vez que o Palácio foi derrotado dessa forma em Goiás. Portanto, sonho impossível? Os tucanos acham que não. Aquele PDS de 81 mudou de nome, fundiu-se com outros partidos ao longo dos anos e hoje se chama PP.
Escrito por Afonso Lopes às 10h50
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Conexão - Jornal Opção - 06/12/2009
MENSALÃO
Quando será o próximo?
Com as regras que aí estão, é somente uma questão de tempo. Novos escândalos vão surgir
Quando o então deputado federal Roberto Jefferson, do PTB, contou que existia um esquema comandado de dentro do ministério de Lula para abastecer financeiramente inúmeros deputados no Congresso Nacional, e que o propinoduto existia desde a campanha presidencial de 2002, a República sofreu um abalo fortíssimo. Pela primeira vez na história alguém do altíssimo escalão da política nacional quebrava o código máfio-político sobre a imensa movimentação de dinheiro vivo nas campanhas eleitorais brasileiras. De lá para cá, descobriu-se mais uma dezena de casos, de pequena ou grande repercussão. O último foi em Brasília. A dúvida agora não é se o estoque desse tipo de escândalo já chegou ao fim, é onde vai estourar o próximo e quem será pego com dinheiro na mão.
Cada explosão atinge um partido ou uma porção deles. Pelas proporções nacionais, é claro que o mensalão denunciado por Jefferson foi inigualável até agora, mas é absolutamente certo esperar que o recorde petista será batido no futuro. É só uma questão de tempo, de um traidor no meio do caminho e pronto.
A estupidez de tudo isso é que os partidos brasileiros agem como se fossem imunes. Assim, quando o PT e seus aliados desmoronaram moralmente com o mensalão do Lula, os partidos que lhe fazem oposição festejaram. Depois foi se descobrir que esquemas semelhantes também manchavam administrações do PSDB e do DEM. E assim, pronto, ficou todo mundo igual. Infelizmente, nivelados por baixo.
Vale ressalvar que ilegalidades em campanhas eleitorais existem em quase todas as eleições do planeta. Alguém, não interessa nacionalidade, filiação partidária, gênero sexual, ideologia, posição socioeconômica, escolaridade ou cor da pele, que esteja prestes a vencer uma eleição, ou perdê-la também por muito pouco, sempre fica tentado a cometer um pequeno deslize para ganhar. A diferença entre as eleições em outros países democráticos e o Brasil é que lá eles criam leis que possam dificultar a ação criminosa e facilitar o controle. Aqui fazem exatamente o oposto.
A legislação atual brasileira é um convite para um vale-tudo da ilegalidade. Ganha quem pode mais, e chora quem perde. Desde a década de 80 sabe-se, inclusive em Goiás, que feio mesmo é perder as eleições. Ou seja, o resto é bonito, seja caixa 2, dinheiro não contabilizado, fraude em programa eleitoral, utilização da máquina pública e etc., etc. e tal.
A rigor, não há praticamente um só mandato eletivo no Brasil que não tenha passado por uma situação, digamos, não prevista pela legislação. Portanto, em tese, quase todos os atuais eleitos, e aqueles que vieram antes destes, venceram porque fraudaram. E não só eles. A esmagadora maioria dos que perderam as eleições fizeram as mesmas coisas ou até piores.
Recentemente, após ser eleito presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, num raríssimo momento de absoluta sinceridade e nenhuma dose de hipocrisia, falou sobre isso e adiantou que as eleições de 2010 serão recheadas de caixas 2 e, de quebra, todo o rol de ilegalidades históricas. Ele não estava se referindo a nenhum partido especificamente. Nem ao seu PT e nem aos demais, incluindo adversários. Falou de todos, sem nenhuma distinção.
Com a legislação brasileira, a única coisa que garante competitividade especial a um partido e seus candidatos é, além da sua própria capilaridade, muito dinheiro. Grana que se traduz como estrutura de campanha. E os gastos são incontáveis. Vão do pneu careca do carro que o candidato usou aos aviões de carreira ou jatinhos particulares. Do “santinho” pago ao candidato dos cafundós, geralmente a parte fraca financeiramente de todo o processo, até os grandes banners modernos dos comícios e carreatas. Aliás, as próprias carreatas são abastecidas com zilhões de litros de combustíveis jamais contabilizados — que muitas vezes são pagos depois, através de licitações para lá de camaradas. E olha que essa relação é café pequeno diante dos grandes gastos. O que é, afinal, um milhão de “santinhos” diante de um só minuto de televisão?
Se fosse possível criar uma legislação que levasse em conta os sinais exteriores de riqueza das campanhas seria um horror. Pouquíssimos partidos conseguiriam passar ilesos. O problema, porém, não é endurecer a fiscalização e, ao mesmo tempo, diminuir a exposição das campanhas, como vem acontecendo no Brasil. Proibir a distribuição de canetas, camisetas e badulaques não vai mudar absolutamente nada se as regras da eleição não passarem antes por uma total reforma política.
O curioso é que todo mundo sabe da necessidade dessa reforma. Tanto que todas as vezes em que alguém é flagrado com mensalão, mensalinho ou seja o nome que se queira dar às diversas modalidades de caixa 2, há unanimidade quanto à reforma política. E aí, tão logo o clamor popular do escândalo atual é substituído por outro barulho social qualquer, ninguém mais fala sobre o assunto. Tudo fica como dantes até o próximo mensalão.
Qualquer casa de apostas londrina, que são famosas por aceitarem qualquer tipo de desafio, certamente abriria exceção caso algum inglês quisesse apostar que o mensalinho de Brasília não foi o último. A barbada seria grande demais. No caso, a banca mudaria o teor: que vai acontecer de novo vai mesmo, mas quem estará envolvido desta vez? Em qual cueca, ou será que surgirá uma calcinha na jogada para variar? Esse é o jogo da dúvida. O resto é certeza.
Escrito por Afonso Lopes às 10h49
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Artigo Diário da Manhã - 04/12/2009
Novamente? Chega, já bastou04/12/2009
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Após 34 anos em redações de jornais, algumas poucas revistas, emissoras de televisão e rádio, além de seus respectivos microfones e câmeras, confesso que não tenho mais tanta paciência como antigamente. Não sei exatamente até que ponto é experiência acumulada ou rabugice da idade que beira meio século. Talvez ambos.
Ontem, ao ler o Diário da Manhã pela internet ainda no início da madrugada, como sempre costumo fazer, me deparei mais uma vez com um artigo cuja essência era uma nova tentativa de ataque à minha postura profissional. Admito ser uma pessoa emocional. Minha primeira reação foi a de duelar pelas páginas da pior e mais dura forma possível. Cheguei mesmo a abrir o processador de texto de meu computador para redigir uma resposta. Ao fim de não mais que um minuto, percebi que não teria paciência para raciocinar e escrever pelo ódio. Não, não mais.
O que acrescentaria na minha vida pessoal e na minha conduta e carreira profissional alimentar situação como essa? Vá lá, é óbvio que conheço o teor crítico das análises que faço. E admito que sinto satisfação em vê-las publicadas, e gerarem debates, discussões e posições entre aqueles que as leem ou as escutam. Não sou o único a sentir isso. Todos os jornalistas são movidos por essa paixão. Todos, sem qualquer exceção.
Mas não existe, para mim, nenhuma forma de prazer em deixar a análise crítica sobre atos e fatos e queimar neurônios e experiência para xingar alguém. Não me traz qualquer forma de compensação emocional, e muito menos profissional. Portanto, apesar de descontentar eventualmente este ou aquele, continuarei fazendo o que sempre fiz: análises.
E, a despeito de uma ou outra acusação, digo apenas que as ideias que escrevo são minhas, e não de Marconi, Alcides, Braga, Caiado ou quem quer que seja. Permito, evidentemente, que sejam discutidas, debatidas e invariavelmente melhoradas, mas não aceito que as creditem a outros autores. Afinal, boas ou ruins, bem temperadas ou insossas, só cheguei a elas após 34 anos de muito esforço. Então, creio ter direito a esta pequena rabugice. Se você, leitor, entender que não o tenho, releve.
Afonso Lopes é jornalista
Escrito por Afonso Lopes às 07h26
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Artigo Diário da Manhã - 2/12/2009
O Palácio teme o porão02/12/2009
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Elaborei, dentro do estrito espaço em que me situo profissionalmente, uma análise sobre a possibilidade de o governo Alcides Rodrigues modificar a política implantada em abril de 2007, cujo objetivo foi apenas e tão somente o de romper com a base que o elegeu. Essa análise jornalística foi publicada por este Diário da Manhã na segunda-feira, 30. Ontem, os porões do governo reagiram e fizeram publicar o que seria uma resposta. Para a tarefa inglória de estabelecer os parâmetros de um debate republicano, escalaram um desconhecido. Talvez o único que tenha topado assinar um monte de acusações torpes, covardes e absurdas.
Em nenhum momento se contestou o que enfoquei na minha análise jornalística, a de que esse modelo político do governo atual conduz necessariamente ao abismo político e ao isolamento. Preferiram tentar agredir a minha honra profissional.
Aqueles de curto período nesses porões palacianos não respeitam a história de uma vida inteira dedicada ao jornalismo. Acusaram-me de ser cabo de chicote do senador Marconi Perillo, de ser um dos mais importantes e bem pagos articulistas do curral do senador e uma porção de outras baboseiras. Não sou nada disso. Sou somente um simples jornalista com atuação em vários veículos de comunicação de Goiás, como Organização Jaime Câmara, Diário da Manhã e Jornal Opção, além da Rádio Clube, atual 730, Difusora e CBN Goiânia, e TVs Brasil Central, Goiânia e Rede Record. Venho do velho Goiânia Urgente, programa da televisão feita em Goiás que marcou uma geração. Portanto, que não tentem me atirar a pecha de aventureiro. Até porque jamais conseguirão me transformar em um deles, os habitantes e aproveitadores dos porões do poder.
Tenho toda uma vida profissional marcada pelo contraponto ao poder. E sempre levo pauladas por causa disso. Mas nunca aprendo, e agora já estou velho demais para mudar após mais de três décadas dentro de redações.
Os atacantes sem nome afirmaram que sou muito bem pago pela Assembleia Legislativa, instituição que seria, conforme os acusadores, dominada por tucanos ligados ao marconismo. Realmente, e disso tenho orgulho, presto serviços para aquele Poder. Como já estive em várias outras funções públicas, e não tenha aceitado algumas outras que me foram oferecidas. Como em meados de 2006, quando o governo atual publicou decreto no Diário Oficial do Estado me nomeando para alguma função na Agecom, onde minha única tarefa seria a de apresentar um número de conta bancária para receber mensalmente sem trabalhar. Isso está no Diário Oficial de Goiás.
Sobre o domínio marconista no Legislativo, é desinformação absoluta, intencional ou não, sabe-se lá. A Assembleia tem 41 parlamentares, filiados a inúmeros partidos e mantém-se sobre uma Mesa Diretora composta pela representatividade das bancadas, além de atuar sob a orientação do seu Colegiado de Líderes.
Não sei quem é a pessoa que assinou o panfleto difamatório contra mim. Nunca a vi na minha vida. Nem sei se foi ele ou se foi outra pessoa que o escreveu. Não importa. O que fica, mais uma vez, é que não se contestou a análise que eu fiz, a de que Alcides precisa se livrar imediatamente da política de ódio e prepotência implantada em abril de 2007 se não quiser ser varrido pela história. Se não quiser ser exibido através dos tempos como a imagem de um político que traiu sua própria origem de poder. Se ele vai fazer isso ou não, problema dele. Com certeza, os porões não querem que ele mude nada, e que mantenha tudo exatamente como está até a derrocada final de seu mandato. Até porque, depois disso os seres do porão irão para suas casas, e será Alcides quem irá para a História.
Mas fica muita coisa desse episódio. A primeira delas é o final decadente da máscara democrata com a qual este governo se apresentava. Não suportar uma visão crítica, uma análise jornalística sobre fatos e personagens é assumir a profissão da prepotência, do Estado com vocação autoritária, da queda moral de um governo que sempre se disse ético e responsável.
Onde está a ética em escalar um pobre anônimo para patrocinar, com dinheiro público ou de origem incerta, um virulento ataque que incluiu até a alteração de meu nome familiar, o que se revela uma agressão não somente a mim mas também extensiva a todos os meus familiares?
É a segunda vez que o porão deste governo assume postura semelhante como resposta a análises jornalísticas feitas por mim. Na primeira vez, há alguns meses, questionei em dúvida se o deslize era algo momentâneo, uma supremacia do fígado sobre o cérebro, ou se demonstrava a queda da máscara democrata e o surgimento da verdadeira face autoritária deste governo e seu núcleo de poder. Foi, e agora percebo, um erro de avaliação de minha parte. Não deveria ter ficado na dúvida.
Este é um governo que escarra na ética. Que se utiliza de peões para o descarte moral para preservar os verdadeiros autores de ataques pessoais contra os críticos. Quanto aos integrantes dos porões deste Palácio, só posso lamentar que se sintam protegidos por uma camada de lama diante do sol da liberdade de expressão. Que se esbaldem, portanto, no pântano das ações rasteiras. Esse ao que parece é o ambiente em que gostam de estar e frequentar. Certamente não tiveram o privilégio de um berço ético. Pobres e podres poderosos de momento.
Quanto ao deficit de 100 milhões de reais anunciado como mantra para cobrir todas as incompetências administrativas deste governo, não é necessário utilizar palavras minhas para provar a sua falta de consistência real e, consequentemente, a sua real intenção. Foi o próprio secretário de Planejamento Oton Nascimento, secretário da Fazenda entre abril de 2006 e abril de 2007, quem, em explanação pública na sala Solon Amaral, na Assembleia Legislativa, explicou detalhadamente aos parlamentares goianos que o tal déficit levava em conta não exatamente um rombo financeiro, como se pregava oficialmente, mas “todas as demandas da sociedade ainda não atendidas”, o que é algo completamente diferente.
Por fim, há cerca de um mês, neste mesmo Diário da Manhã, fiz uma crítica muito mais contundente, como sempre do ponto de vista e do interesse jornalístico, ao governo de Alcides Rodrigues. Não houve resposta. Na segunda-feira, 30, ousei escrever o nome do secretário da Fazenda em uma análise amena. Aí, sim, a matilha foi convocada e atacou com as garras que tem. Não atingiu minha honra, mas de certa forma expôs o que e quem é realmente prioritário dentro dos porões do poder. Minha conclusão, sujeita evidentemente a um erro de avaliação, é que o Palácio não tem mais qualquer controle sobre o porão. Aparentemente, passou a temê-lo. Por quê?
Escrito por Afonso Lopes às 23h07
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Artigo DM - 28/11/2009
O começo do fim30/11/2009 > function fechar() { $("#anuncio_materia").slideToggle(); } Em abril de 2007, o Palácio das Esmeraldas promoveu uma fortíssima guinada nos rumos políticos do exercício do poder. De um momento para o outro, estabeleceu-se uma nova ordem cuja orientação primeira foi a de exorcizar as bases políticas que venceram as eleições de 2006, de modo a criar uma ambientação palaciana absolutamente nova. Essa mudança radical das entranhas do poder se materializou explícita e publicamente em novembro daquele ano, quando foi anunciada uma série de medidas que deveriam conter somente aspectos administrativos. Na verdade, estava ali uma segunda e definitiva mensagem: a do rompimento político com o passado recente.
Todas as justificativas para a reforma administrativa foram centradas em um único ponto: o ataque aos dois governos anteriores, os mesmos que serviram como alicerce para a vitória de Alcides Rodrigues em 2006. Até o simbolismo desse rompimento foi materializado no mantra de um tal deficit de 100 milhões de reais mensais, jamais comprovado. Um número redondo, perfeito do ponto de vista dos marqueteiros. Não foi deficit de 92 milhões e 500 mil e nem de 102 milhões e 425 mil. Não. Exatos, 100 milhões. Sem nenhum real a mais, sem nenhum centavo a menos. No mínimo, um deficit muito bom de mira.
Desde então se agride o passado que originou o poder atual. Observando-se com alguma atenção todas as declarações do núcleo palaciano, percebe-se claramente que jamais foi feita qualquer crítica negativa aos governos anteriores a 1999, que estiveram sob o comando do PMDB. É como se todos os possíveis equívocos da administração de Goiás tivessem surgido somente nos dois governos liderados pelo até então aliado PSDB.
É óbvio que isso não é verdade. Goiás não começou em 1999. Como também não começaram em 99 as dificuldades no caixa. Aliás, naquele ano, quando o grupo atual chegou ao poder sob aliança de quatro partidos (PSDB, PP, DEM e PTB – ao contrário do que muito se afirma, o PR era aliado do PMDB na eleição de 98), as contas do Estado estavam tão bagunçadas que nem os salários dos servidores públicos estavam em dia. E isso somente alguns meses depois da venda da usina hidrelétrica de Cachoeira Dourada, que rendeu quase 1 bilhão de dólares na época.
E o que os palacianos têm a dizer sobre esses fatos inquestionáveis? Nada, isso não interessa para o objetivo de romper com o passado da aliança partidária que levou à conquista de três eleições consecutivas. Desde o anúncio de novembro de 2007, adotou-se um rumo. Agora, começa o processo definitivo que determinará o futuro.
A política separatista do Palácio parecia inabalável. Parecia. Em meados deste mês, a represa da base aliada sangrou. O governo anunciou que adotaria duríssimas medidas contra os servidores públicos estaduais, xodós das administrações do passado recente. Uma semana depois, teve que recuar. Percebeu que poderia ser massacrado de forma definitiva dentro da própria base. Finalmente, o Palácio, que agiu sempre como um grupo neófito e desinformado da realidade política, sonhador enquanto poder real e absolutamente desconectado com a realidade do tempo, entendeu que já se vive hoje o começo do fim.
Se em abril de 2007 adotou-se uma guinada radical de rumos como objetivo político, chegou o momento de reverter aquilo que poderá resultar na mais terrível das realidades: o isolamento. A represa que sangrou é sintoma gravíssimo de que o Palácio precisa urgentemente sinalizar que a era do ódio e da ira internos está superada politicamente. O Palácio, como jamais se viu na história política de Goiás, apostou muito alto num modelo que agora se mostra à beira da falência. Ainda há tempo para reverter esse quadro. E o único jeito é, definitivamente, terminar com o ciclo que lhe deu origem. Ou Alcides Rodrigues encerra a era Jorcelino Braga, ou afundará com ele. Não apenas agora, mas também diante da história.
Afono Lopes é jornalista
Escrito por Afonso Lopes às 00h22
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